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O peso invisível das metas profissionais e o chamado do Janeiro Branco

A saúde mental no trabalho ganha centralidade, com o Janeiro Branco como ponto de partida para refletir sobre riscos psicossociais, gestão responsável e dever jurídico das empresas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Atualizado em 28 de janeiro de 2026 14:07

A saúde mental se consolidou como um dos maiores desafios das relações de trabalho na contemporaneidade. Em um contexto marcado por metas cada vez mais ousadas, cobrança constante por resultados e hiperconectividade, o sofrimento psíquico relacionado ao exercício profissional deixou de ser exceção para se tornar parte de uma realidade que atravessa empresas de todos os portes e setores. O Janeiro Branco surge, nesse cenário, como um convite à reflexão, mas também como um chamado à responsabilidade institucional.

Os transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Ansiedade, depressão e síndrome de burnout são hoje expressões recorrentes de um modelo de organização laboral que valoriza a performance sem considerar os limites humanos. Trata-se de um fenômeno multifatorial, que não pode ser atribuído exclusivamente ao ambiente profissional, mas que encontra nas dinâmicas organizacionais importantes fatores de risco.

A cultura da alta performance, quando dissociada de políticas de proteção à saúde, pode fomentar jornadas extensas, metas inatingíveis, competitividade excessiva e a naturalização da sobrecarga. Some-se a isso a dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de descanso, intensificada pelas tecnologias digitais. O resultado é um ambiente propício ao esgotamento emocional, à perda de sentido nas atividades e ao adoecimento progressivo.

É nesse ponto que o Janeiro Branco precisa ser compreendido para além de campanhas simbólicas. A iniciativa tem valor ao estimular o debate e reduzir estigmas, mas sua efetividade, no âmbito corporativo, depende de ações estruturais e permanentes. A saúde mental no trabalho não pode ser tratada como pauta sazonal, restrita ao primeiro mês do ano, e sim como eixo contínuo das políticas de gestão.

Do ponto de vista da saúde e segurança do trabalho, os riscos psicossociais passaram a ocupar posição de destaque também no campo normativo. A nova redação da NR-1, ao atualizar as diretrizes do gerenciamento de riscos ocupacionais, passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A fase de fiscalização com possibilidade de autuações e penalidades tem início a partir de maio, o que reforça a urgência de adequação por parte das organizações.

Diferentemente de outros riscos ocupacionais, os fatores psicossociais nem sempre são visíveis, o que exige das empresas uma postura proativa e tecnicamente orientada. Não se trata apenas de cumprir formalidades documentais, mas de integrar a saúde mental à governança de segurança e saúde no trabalho, com participação efetiva das lideranças e das áreas de gestão de pessoas.

Entre as medidas que fazem sentido dentro da proposta do Janeiro Branco estão a avaliação periódica do clima organizacional, a inclusão de riscos psicossociais nos programas de gerenciamento de riscos, a capacitação de lideranças para o manejo adequado de questões relacionadas à saúde mental e a criação de canais seguros de escuta. Essas ações demonstram que a empresa reconhece o tema como parte da sua responsabilidade institucional e não como um problema exclusivamente individual.

As lideranças, em especial, exercem papel estratégico. São elas que traduzem, na prática, os valores institucionais e o modelo de gestão adotado. O Janeiro Branco pode servir como ponto de partida para que gestores iniciem conversas necessárias sobre saúde mental, sempre com respeito à privacidade e aos limites de cada trabalhador. Não se trata de exigir exposições pessoais, mas de construir um ambiente no qual pedir ajuda não seja interpretado como fragilidade.

Uma liderança atenta é capaz de perceber sinais de alerta no cotidiano: quedas acentuadas de desempenho, alterações comportamentais relevantes, isolamento, aumento de conflitos, faltas frequentes e queixas físicas recorrentes sem causa clínica definida. Esses indícios não autorizam diagnósticos, mas indicam a necessidade de acolhimento e, quando cabível, de encaminhamento para suporte especializado.

Além do aspecto humano e organizacional, há uma dimensão jurídica que merece atenção. A ordem jurídica brasileira assegura aos trabalhadores o direito a um ambiente de trabalho seguro e saudável, o que abrange também a saúde mental. A omissão diante de situações de assédio, sobrecarga extrema ou ambientes organizacionais marcados por hostilidade pode resultar em responsabilização judicial, inclusive com reconhecimento de nexo entre o adoecimento psíquico e as condições de trabalho.

Afastamentos prolongados, concessão de benefícios previdenciários por incapacidade e ações trabalhistas pleiteando indenizações por danos morais são desdobramentos cada vez mais presentes na realidade empresarial. Nesse sentido, investir em prevenção, estrutura de apoio e revisão de práticas de gestão não é apenas medida de cuidado, mas também estratégia de redução de passivos trabalhistas e previdenciários.

É fundamental compreender que produtividade e saúde mental não são conceitos antagônicos. Ao contrário, ambientes psicologicamente seguros tendem a apresentar maior engajamento, criatividade, cooperação e sustentabilidade dos resultados ao longo do tempo. Empresas que integram o cuidado com a saúde mental à sua estratégia fortalecem sua cultura organizacional e sua reputação institucional. O Janeiro Branco, portanto, deve ser visto como um marco simbólico dentro de um compromisso permanente.

Alexandre de Lima Santos

Alexandre de Lima Santos

Head de Estratégia Jurídico-Tributária em Saúde e Segurança do Trabalho (SST) do André Menescal Advogados, Médico do Trabalho, Auditor Líder ISO 45001 e Professor de Pós-Graduação.

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