Patentes, inovação e o futuro dos medicamentos para perda de peso
O mercado de medicamentos para obesidade se reorganiza pós-2026, com inovação em GLP-1, novas patentes e terapias multirreceptor.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Atualizado em 9 de fevereiro de 2026 13:59
A partir de 2026, o mercado global de medicamentos para obesidade e sobrepeso entrará em uma nova fase. Ao mesmo tempo em que moléculas inovadoras para redução de peso se tornam cada vez mais conhecidas e demandadas, as patentes que sustentaram sua exclusividade começam a expirar. É o caso das patentes primárias relacionadas a semaglutida, molécula agonista do receptor de GLP-1 presente nas popularmente conhecidas “canetinhas emagrecedoras”, que perderão vigência em países como Brasil, China, Índia e Canadá. Esse fato, no entanto, não sinaliza o esgotamento dessa classe terapêutica, mas uma reorganização do equilíbrio entre inovação, concorrência e proteção patentária em um dos setores mais lucrativos da indústria farmacêutica contemporânea, cuja projeção de mercado pode ultrapassar US$ 150 bilhões até 2035.
A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença crônica, multifatorial e recidivante, e as projeções atuais indicam que mais da metade da população adulta mundial poderá viver com sobrepeso ou obesidade até 2030. Por décadas, seu tratamento permaneceu restrito a intervenções comportamentais ou cirúrgicas, com eficácia limitada em larga escala. O surgimento de medicamentos à base de agonistas do receptor de GLP-1 alterou esse cenário ao oferecer uma alternativa farmacológica com impacto clínico consistente e mensurável na perda de peso.
Nesse contexto, a expiração de determinadas exclusividades patentárias não representa o esgotamento do modelo, mas um sinal de maturidade tecnológica. A história recente da inovação farmacêutica mostra que a expiração de patentes raramente encerra ciclos tecnológicos; ao contrário, costuma desencadear novas ondas de diferenciação. No caso dos agonistas de GLP-1, essa dinâmica já está em curso. Entre os mais de 100 novos compostos relacionados à perda de peso atualmente em desenvolvimento no mundo, mais de 35 incorporam uma molécula agonista de GLP-1. As linhas globais de pesquisa e desenvolvimento apontam para uma clara transição das terapias de primeira geração para soluções mais sofisticadas de segunda geração com base em múltiplos agonistas e formas alternativas de administração.
Em vez de replicar moléculas existentes, a indústria passou a buscar ganhos terapêuticos adicionais por meio da modulação simultânea de múltiplas vias metabólicas envolvidas no controle glicêmico, na regulação do apetite e no equilíbrio energético, estratégia conhecida como agonismo multirreceptor. A tirzepatida, já disponível comercialmente, é um exemplo de agonista duplo, enquanto a retatrutida, ainda em fase de pesquisa, representa uma abordagem de triplo agonista dentro dessa nova geração de terapias. O mercado também avalia combinações de ativos capazes de promover efeitos metabólicos mais abrangentes, como a associação de semaglutida e cagrilintida, conhecida como CagriSema.
Paralelamente, ganha força o desenvolvimento de pequenas moléculas agonistas de GLP-1 com administração por via oral. O orforglipron é um desses candidatos, ainda em fase de pesquisa, que vem demonstrando perda de peso significativa nos pacientes avaliados, comparável às terapias injetáveis. A perspectiva de maior adesão ao tratamento e de redução de custos estimula o investimento crescente nesse campo. Esse movimento reflete uma preocupação com a sustentabilidade, a longo prazo, dos modelos atuais baseados predominantemente em dispositivos (tipo “canetas”) de administração subcutânea.
Esse cenário dinâmico destaca o papel crucial da inovação contínua e, nesse contexto, o papel da proteção patentária torna-se ainda mais relevante para viabilizar o desenvolvimento terapêutico de longo prazo, que envolve elevados custos de pesquisa e risco tecnológico. O aumento expressivo de pedidos de patente relacionados ao GLP-1 no Brasil nos últimos anos é um indicativo de que empresas e centros de pesquisa veem o período pós-2026 não como um fim, mas como uma oportunidade estratégica. As publicações de pedidos de patentes relacionadas a GLP-1 no país ultrapassaram uma média de aproximadamente quarenta novas publicações por ano nos últimos cinco anos, em contraste com cerca de quatro por ano uma década atrás. Trata-se de um ambiente em que a concorrência tende a se intensificar, mas no qual a diferenciação tecnológica continuará sendo o principal ativo competitivo.
O que se desenha, portanto, é que o futuro do tratamento da obesidade e do sobrepeso será menos definido pela expiração de patentes específicas e mais pela compreensão de que a inovação farmacêutica é, por natureza, um processo cumulativo e evolutivo. Cada nova patente não apaga o conhecimento que a precedeu, mas o incorpora, o aprofunda e o transforma. Novos medicamentos continuarão a surgir, suportados por evidências científicas mais recentes e novas necessidades dos pacientes.
Karoline Coelho
Especialista de Patentes da Daniel Advogados.



