Quando todo mundo usa IA, o diferencial passa a ser critério
Uso desordenado de tecnologia cognitiva nas empresas cria ruído e retrabalho e expõe falha de gestão ao exigir critérios claros governança e métricas para gerar valor real.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Atualizado em 10 de fevereiro de 2026 15:18
Existe uma cena que tem se repetido em muitas empresas. Uma reunião de liderança. Alguém comenta que o time está usando ChatGPT. Outro menciona o Copilot. Um terceiro fala do Gemini. Todos concordam que inteligência artificial é importante. A pauta segue. A reunião termina. E ninguém sai sabendo exatamente o que mudou no negócio por causa disso. O problema é que essa cena costuma se repetir por meses. O ponto cego não é tecnológico. É gerencial.
Hoje, a maioria das empresas não sofre por falta de inteligência artificial. Sofre por excesso de uso sem direção clara. IA entrou como curiosidade, virou experimento e agora começa a se espalhar como hábito. Só que hábito sem critério não vira vantagem competitiva. Vira ruído operacional. E ruído, quando escala, custa caro.
Na prática, o que se observa é uma fragmentação silenciosa do trabalho intelectual. Pessoas usando diferentes ferramentas para pensar, escrever, analisar e decidir, muitas vezes dentro do mesmo time ou da mesma área, sem qualquer alinhamento mínimo sobre quando usar cada recurso, para quê usar e como validar o resultado.
Isso gera múltiplas versões de raciocínio, critérios implícitos que não se conversam e decisões que parecem rápidas, mas não necessariamente consistentes. O efeito colateral é uma sensação difusa de produtividade, acompanhada de mais retrabalho, mais idas e vindas e maior dificuldade de explicar por que uma decisão foi tomada daquela forma. Para quem lidera, esse tipo de eficiência aparente não sustenta decisão estratégica nem escala com segurança.
O ponto mais sensível é que essa fragmentação raramente aparece nos indicadores tradicionais. Ela surge quando decisões semelhantes chegam a conclusões diferentes. Quando apresentações estratégicas não se sustentam entre si. Quando a resposta ao cliente muda conforme quem respondeu. Quando se perde previsibilidade sobre decisões, prazos e critérios, mesmo sem que exista um erro explícito.
Estudos recentes sobre o uso de IA nas empresas mostram um padrão claro. Ferramentas como ChatGPT têm sido usadas principalmente para pensar melhor, organizar informações e preparar decisões. Já soluções integradas ao ambiente de trabalho concentram os maiores ganhos operacionais, ajudando a executar tarefas mais rápido e com menos atrito no dia a dia. Nesse contexto, não se trata de especialização formal das ferramentas, mas de padrões de uso que começam a se repetir na prática. O Claude, da Anthropic, por exemplo, aparece com frequência em atividades que exigem mais profundidade analítica e cuidado com contexto e segurança.
Tudo isso é relevante. Mas ainda é pano de fundo. A decisão real não é qual ferramenta escolher. É qual lógica de uso a empresa vai adotar. E, principalmente, quem é responsável por definir essa lógica.
Aqui está o ponto que costuma gerar desconforto quando aparece na mesa da liderança. As organizações que começam a extrair valor concreto da IA adotaram um critério simples para sair do entusiasmo difuso e entrar na gestão real. Toda aplicação de IA precisa responder, antes de escalar, a três perguntas. Ela ajuda a pensar melhor, a executar mais rápido ou a reduzir risco. Se não fica claro em qual dessas dimensões o ganho acontece, provavelmente ainda estamos falando de curiosidade, não de estratégia.
Esse critério expõe algo incômodo. Muitas iniciativas de IA que parecem avançadas não passam nesse teste. Elas ocupam tempo, geram volume e criam sensação de modernidade, mas não alteram de forma mensurável a qualidade da decisão nem a eficiência do negócio.
Empresas mais maduras fizeram algo que parece simples, mas exige liderança. Separaram pensar de executar. Definiram onde a IA entra como apoio à decisão e onde entra como ganho operacional. Não deixaram essa escolha solta na mão de cada indivíduo. Porque deixar solto também é uma decisão, só que implícita e difícil de governar.
Também criaram critérios mínimos de governança. Não políticas longas ou documentos engessados, mas acordos claros. Que tipo de tarefa pode usar IA. Onde a revisão humana é obrigatória. Que dados não entram em hipótese alguma. Isso não é freio. É condição para escalar sem ampliar risco.
E talvez o ponto mais negligenciado seja a forma de medir. Não quantas pessoas usam IA, mas onde o tempo caiu, onde o retrabalho diminuiu e onde a qualidade aumentou. Tempo de ciclo de contratos. Tempo médio de preparação de apresentações estratégicas. Consistência de respostas para clientes. Métricas que fazem sentido para quem toma decisão.
Quando isso não acontece, a empresa não fica apenas menos eficiente. Ela perde previsibilidade. E perder previsibilidade é um problema de gestão, não de tecnologia.
Por isso, inteligência artificial hoje não é uma discussão sobre ferramentas. É uma discussão sobre modelo de decisão. Sobre como trabalho intelectual é organizado, validado e escalado.
A pergunta que realmente importa para a liderança não é se o time está usando IA. É se alguém conseguiria explicar, com clareza e sem desconforto, onde a IA está gerando valor real no negócio e onde ela não entra.
Se essa resposta não existe, ela não está neutra. Ela está sendo adiada.E decisões adiadas costumam cobrar juros.
Tainah Corrêa
Advogada e head de Inovação, Eficiência e Relações Internacionais no André Menescal Advogados.


