Legal Operations: O novo caminho para a advocacia do futuro
O mercado jurídico está mudando - e rápido. O artigo mostra como o Legal Operations integra gestão, tecnologia e estratégia para tornar escritórios mais eficientes, competitivos e alinhados ao futuro.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 14:32
As transformações que o Direito vem vivenciando e seus reflexos no futuro têm imposto aos departamentos jurídicos e aos escritórios de advocacia uma crescente pressão por maior controle de custos e eficiência na execução de suas atividades. Esse cenário, marcado por demandas complexas e recursos cada vez mais limitados, exige das organizações criatividade e inovação para repensar a forma de exercer as práticas jurídicas.
Nesse contexto, a adoção de novas tecnologias surge como uma das respostas mais evidentes ao desafio da eficiência no Direito. Entretanto, a verdadeira transformação vai além da simples implementação de ferramentas como automação ou inteligência artificial. É justamente nesse ponto que ganha força um dos conceitos mais relevantes para o mercado jurídico contemporâneo: Legal Operations, ou, em tradução livre, operações jurídicas.
A essência das Legal Ops, como a prática é conhecida, é bastante clara: profissionais do Direito, em razão de seu alto grau de especialização, devem concentrar-se nas atividades estritamente jurídicas. Já as funções relacionadas à gestão financeira, marketing, tecnologia ou administração de fornecedores, entre outras, podem ser desempenhadas por especialistas de diferentes áreas, sem a necessidade de formação jurídica.
Dessa forma, o modelo de Legal Operations valoriza a interdisciplinaridade e a multifuncionalidade, incorporando ao ambiente de escritórios e departamentos jurídicos profissionais não jurídicos que contribuem ativamente na execução das tarefas e nos processos de tomada de decisão.
Como era de se esperar, essa abordagem ganhou força, inicialmente, no ambiente corporativo, especialmente entre os departamentos jurídicos das empresas, que enfrentam uma batalha constante para reduzir custos e otimizar recursos. Ao contar com profissionais multidisciplinares e o suporte de ferramentas tecnológicas e metodologias especializadas, o Diretor Jurídico passa a estruturar seu setor de forma mais estratégica, liberando os advogados para se dedicarem a demandas jurídicas de maior complexidade e valor agregado.
Entretanto, os reflexos da adoção crescente de Legal Ops pelos clientes também atingem diretamente os escritórios de advocacia, posicionados como prestadores de serviços jurídicos. Esses escritórios podem, e devem, encarar a prática tanto como uma oportunidade de aplicação interna de seus princípios, quanto como um novo caminho para fortalecer o relacionamento e a eficiência nas entregas aos clientes corporativos.
É importante destacar que as práticas de Legal Operations não se restringem às empresas. Embora sejam especialmente eficazes nos departamentos jurídicos internos (in-house), escritórios de advocacia também podem adotar abordagens interdisciplinares na entrega de seus serviços. Não por acaso, muitos já têm investido em gestão de projetos jurídicos (Legal Project Management), uso de tecnologias para ganho de eficiência, análise de dados (analytics) e gestão do conhecimento, entre outros temas fortemente conectados aos princípios das Legal Ops.
Mais do que aplicar o conceito, é essencial que os escritórios se preparem para o impacto que ele gera na dinâmica com seus clientes corporativos. A presença de uma área de Legal Operations, ou mesmo a adoção de suas práticas, no lado contratante altera significativamente as expectativas e o perfil do consumidor de serviços jurídicos. O destinatário de uma entrega já não é necessariamente outro advogado; frequentemente, envolve profissionais de negócios, finanças, marketing ou tecnologia.
Diante disso, os serviços jurídicos precisam ser pensados e executados de forma holística, promovendo eficiência, clareza e integração entre o jurídico e as demais áreas da empresa. Para os escritórios, essa realidade impõe ajustes urgentes na forma de entrega dos trabalhos, nos canais de relacionamento com o cliente e até na linguagem utilizada para comunicar resultados e estratégias.
Por sua natureza abrangente, o conceito de Legal Operations vem sendo desenvolvido nos escritórios por meio de iniciativas estruturadas de inovação, voltadas a analisar, planejar e oferecer suporte à prática jurídica de forma ampla e multidisciplinar. Não se trata apenas de incorporar novas tecnologias aos serviços, mas de implementar as ferramentas certas, nas atividades certas, alinhando esses esforços a ações culturais, como capacitação, gestão do conhecimento e aprimoramento da comunicação e abordagens metodológicas, como legal design, gestão de projetos, uso de plataformas digitais e análise de dados.
A transformação não é simples, mas é inevitável. Com os princípios de Legal Ops ganhando força no meio jurídico, as empresas estão otimizando suas operações e, consequentemente, exigindo que os escritórios acompanhem essa evolução de forma alinhada e estratégica. Ao integrar pessoas, processos e tecnologia, esse novo modelo redefine a forma de atuar no Direito, tornando o mercado jurídico mais competitivo, colaborativo e complexo. Como já antecipava Richard Susskind, o que antes era apenas uma visão de futuro, hoje, é a realidade presente.


