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A escrita que evapora rios

Entre garrafas d'água e prompts digitais, o texto revela que a ameaça ambiental mais íntima mora na tela onde pedimos à IA que pense por nós.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Atualizado às 10:31

O pensamento de que a crise ambiental é distante e superdimensionada por cientistas habita a maioria das mentes, pois o que os olhos não veem, a cabeça não se preocupa. Aliás, só se pensa no que é problemático, já dizia o poeta. E ainda não vivemos tragédias como as dos filmes. O apocalipse é uma visão restrita a João na ilha de Patmos.

O ser humano possui tendência a reações; acredito que só inventamos o telhado depois de uma tempestade; talvez, meses depois do dilúvio. Temos dificuldades no agir preventivo. Os nossos comportamentos de segurança, em regra, nascem das consequências negativas imediatas. A partir disso, conseguimos ter a noção dos obstáculos à conscientização do problema. Os efeitos de uma crise ambiental ficam a cinquenta anos de distância. Tão longe que o temor não se instala. O ato de roncar o motor do carro não fará o sujeito sentir o calor insuportável do aumento da temperatura global. O que pode atingir outras gerações, mas parece não ser um problema nosso.

Questões ambientais soam como discursos de quem se preocupa com fantasias daquilo que nunca nossos olhos hão de contemplar. Pode ser que nossos bisnetos ou trinetos vejam, sintam, mas eles nem se lembrarão de nossa existência. O que me leva a fazer a pergunta filosoficamente mais importante na área ambiental: devemos deixar um ambiente equilibrado para gerações que ainda não nasceram? Pessoas do futuro que conhecerão do passado apenas as grandes figuras da história, numa sala de aula meio que forçadas. Como não seremos os novos Getúlios, nem Trumps, nem Musks, o que nos restará é o esquecimento por parte delas. Então devemos pensar nelas? Uma coisa é certa. O mundo habitável como herança para futuras gerações depende mais dos coadjuvantes da Terra do que dos protagonistas.

A gente melhorou na consciência ambiental em comparação com o passado. No Brasil Colônia, as pessoas nas ruas se desviavam do lixo que vinha das janelas. Baldes de dejetos caíam sobre quem passasse, e era comum voltar para casa com a roupa suja de coisas que não convém descrever. Hoje há quem diga que faz o seu dever de casa, principalmente por não jogar lixo na rua. Claro que tal ato afetaria rapidamente a nós mesmos. Cheiro fétido incomoda, sem contar a saúde, haja vista que queremos viver bastante.

Até aqui não falei se andamos prejudicando as futuras gerações. Então, existe uma ameaça ao planeta que não cheira, não respinga, não despeja sobre ninguém líquidos insuportáveis. E já não falo da velha história dos carros, motos e rebanhos que emitem gases de efeito estufa, que aprendemos na escola, embora esses também participem do temor dos ambientalistas. Falo de uma mais íntima, a inteligência artificial, que além de colocar nossa memória em risco, diga-se de passagem, ainda consome recursos naturais.

Para não ficar em inferências de um escritor, aponto estudos que li recentemente. Um deles estimou que cada prompt de cem palavras enviado a um modelo de linguagem consome cerca de 519 ml de água. O equivalente a uma garrafa. Quanto você escreve usando a IA? Desconfio que alunos gastam mais que um garrafão de vinte litros por dia em época de prova.

Agora imagine que nesse momento bilhões de usuários no mundo enviam prompts a cada minuto. Haja água.

Um data center de grande porte consome tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio. Essa engenhoca moderna, para simplificar, é como uma CPU gigante que processa dados e precisa de água para não derreter. Um estudo americano aponta que até 2030 os data centers poderão emitir entre 24 e 44 milhões de toneladas de CO2 por ano, o equivalente a colocar de cinco a dez milhões de carros nas estradas. Tudo isso por meio de perguntas digitadas em telas. No mesmo cenário, o consumo hídrico anual pode atingir 1,125 bilhão de metros cúbicos, volume comparável ao uso doméstico de dez milhões de americanos. Outro estudo afirma que a pegada hídrica global dos sistemas de IA poderia alcançar, já em 2025, o equivalente ao consumo mundial anual de água engarrafada.

O Brasil, como quem acredita ter reservas infinitas, tem oferecido os recursos hídricos internos para fornecer refrigeração aos data centers. O que chama a atenção das big techs é que a matriz elétrica brasileira é 84% renovável, com mais da metade vinda de hidrelétricas. Nos Estados Unidos, o cenário é diferente. Lá, 56% da energia que alimenta data centers vem de combustíveis fósseis. E as big techs precisam maquiar relatórios climáticos. Mas a vantagem brasileira assenta sobre uma base que seca. O país enfrentou em 2021 a pior estiagem em noventa anos. Em 2023, o quadro piorou. Em 2025, 307 municípios gaúchos decretaram emergência. Nossos rios, que nos ajudam em nossa eletricidade, terão dificuldades de nos apoiar na hidratação do nosso cérebro externo.

E sem pensar nas futuras gerações, nós, os anônimos, sabendo que eles não pensarão na gente, vamos continuar perguntando ao ChatGPT "o que é ética?" para um trabalho de filosofia na universidade. E em cada resposta ela bebe uma garrafa de água, e assim evaporamos bilhões de litros de água para que uma máquina escreva o que nossos trinetos podem nem ler. No futuro podem trocar a escrita por água.

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Xiao, T. et al. (2025). Nature Sustainability. DOI: 10.1038/s41893-025-01681-y - https://doi.org/10.1038/s41893-025-01681-y

De Vries, A. (2025). Joule (Cell Press). DOI: 10.1016/j.joule.2025.100075 - https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666389925002788

Pesquisadores da UC Riverside, citados pelo EESI (Environmental and Energy Study Institute) - https://www.eesi.org/articles/view/data-centers-and-water-consumption

Dodge, E. et al. (2024). arXiv preprint 2411.09786 - https://arxiv.org/html/2411.09786v1

Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque

VIP Raimundo Fabrício Paixão Albuquerque

Advogado, psicólogo, filósofo e teólogo. Mestre em Sociedade e Cultura pela UFAM, doutorando em Ciências Ambientais pela UFAM. Especialista em regularização fundiária, família, e processo civil.

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