A IA pensa rápido. O Direito continua precisando pensar fundo
Apesar da capacidade da IA em processar informações rapidamente, ainda é importante o pensamento crítico e a análise profunda.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Atualizado em 25 de fevereiro de 2026 14:16
Tenho visto, com bastante frequência, uma explosão de cursos, palestras e livros sobre inteligência artificial voltados ao Direito. O tema está em todos os lugares e vem sendo abordado, em programas direcionados a advogados, magistrados e outros operadores jurídicos.
Confesso que, em um primeiro momento, isso me preocupou.
Quando se vive o dia a dia do livro jurídico, acompanhando autores, obras, revisões e a construção do conhecimento técnico, é quase inevitável se perguntar: qual será o espaço da doutrina em um cenário cada vez mais tecnológico?
O livro jurídico corre o risco de se tornar secundário?
Essas inquietações me acompanharam até que resolvi fazer algo simples, mas decisivo: ler com atenção os cronogramas desses cursos.
E foi ali que a reflexão mudou de tom.
O que aparece, de forma bastante clara, é que a IA não surge como substituta do estudo jurídico. Ela aparece como ferramenta de apoio. Fala-se em produtividade, organização de ideias, otimização do tempo, auxílio na elaboração de textos iniciais e leitura preliminar de jurisprudência.
Em nenhum momento a IA ocupa o espaço da doutrina, da interpretação qualificada ou da construção técnica das teses jurídicas.
Isso faz toda a diferença.
Ferramentas de inteligência artificial organizam informações, sugerem caminhos e aceleram processos. Mas elas não acessam livros protegidos por direitos autorais, não escolhem correntes doutrinárias, não constroem argumentos com profundidade e, principalmente, não assumem responsabilidade intelectual.
No Direito, fundamentar não é apenas responder.
Fundamentar é escolher, justificar, sustentar e assumir.
E isso continua sendo tarefa humana.
Essa constatação trouxe tranquilidade.
A inteligência artificial não diminui o valor do livro jurídico. Pelo contrário: ela escancara a diferença entre conteúdo genérico e conhecimento confiável.
Quanto mais rápidas se tornam as respostas, maior é a necessidade de:
- Profundidade argumentativa;
- Critério técnico;
- Validação segura;
- Responsabilidade profissional.
Nada disso nasce de um prompt bem escrito.
Nasce do estudo, da leitura atenta, da pesquisa séria e da doutrina bem construída.
Como editora, essa reflexão reforçou uma convicção que sempre me acompanhou: o livro jurídico não é apenas um meio de informação. Ele é fundamento intelectual, segurança técnica e compromisso com o Direito.
A IA veio para ficar, e pode ser uma grande aliada do profissional jurídico. Mas o pensamento jurídico sério continua exigindo método, leitura, reflexão e autoria.
A tecnologia ajuda a pensar mais rápido.
A doutrina continua sendo o que nos faz pensar certo.
Seguimos firmes há 24 anos, certos de que o conhecimento é poder, o livro é essencial para a vida e o futuro do Direito continua sendo escrito com estudo, reflexão e coragem. Que venham muitos anos.
Juliana Mizuno
diretora da Editora Mizuno há 24 anos, com atuação direta na coordenação editorial e na formação de obras jurídicas voltadas a profissionais do Direito. Tem experiência na produção, curadoria e difusão de conteúdo jurídico em meios editoriais e digitais, com foco em clareza, aplicabilidade e responsabilidade técnica.


