8 de março: Celebrar conquistas e permanecer na luta
Dia da Mulher celebra conquistas históricas, mas também lembra desafios persistentes como violência de gênero, desigualdade e a luta contínua por direitos.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Atualizado às 14:46
O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data comemorativa. É, sobretudo, um marco histórico que recorda as lutas travadas por mulheres ao longo de séculos por dignidade, igualdade e respeito. Celebrar este dia é reconhecer conquistas importantes - sem esquecer que a caminhada ainda está longe de terminar.
Ao longo das últimas décadas, as mulheres conquistaram espaços antes inimagináveis: no mercado de trabalho, na política, na ciência, na magistratura e na advocacia. O acesso à educação ampliou-se, legislações protetivas foram criadas e debates sociais sobre igualdade de gênero tornaram-se cada vez mais presentes.
No entanto, os avanços convivem com uma realidade que ainda revela profundas desigualdades.
No Brasil, os números mais recentes mostram que a violência de gênero continua sendo um grave problema social. Em 2025, o país registrou mais de 1.400 feminicídios, o maior número desde que o crime foi tipificado em nossa legislação - o que representa, em média, quatro mulheres assassinadas por dia em razão de sua condição de gênero.
Além disso, milhões de brasileiras continuam expostas a diferentes formas de violência doméstica e familiar. Esses dados revelam que a violência contra a mulher não é um problema isolado ou episódico - mas trata-se de um fenômeno estrutural que atravessa dimensões culturais, sociais e econômicas.
Por isso, discutir o Dia Internacional da Mulher exige também olhar para a história. Muito antes das leis modernas, mulheres já se levantavam contra a injustiça.
Em 1770, uma mulher negra escravizada no Piauí escreveu uma carta ao governador denunciando os maus-tratos sofridos por ela e por outras mulheres escravizadas. Essa mulher era Esperança Garcia, hoje reconhecida simbolicamente como uma das primeiras vozes jurídicas femininas do país.
Em sua carta histórica, ela clamava por justiça, denunciava violências e reivindicava direitos - um gesto de coragem que ecoa até hoje como símbolo de resistência feminina.
Mais de dois séculos depois, a mensagem permanece atual: a luta por dignidade não começou agora e tampouco terminou.
O próprio Dia Internacional da Mulher nasceu de movimentos de resistência feminina. No início do século XX, greves e manifestações de trabalhadoras nos Estados Unidos e na Europa reivindicavam melhores condições de trabalho, direitos políticos e igualdade salarial - lutas que culminariam na consolidação do 8 de março como símbolo internacional da busca por igualdade.
A história recente do país também nos lembra que a luta por dignidade e igualdade ainda cobra um preço alto. O assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da violência política contra mulheres no Brasil. O caso teve desdobramentos judiciais ao longo dos últimos anos, com a identificação e responsabilização de envolvidos no crime, mas permanece como um marco doloroso na memória coletiva sobre os riscos enfrentados por mulheres que ocupam espaços de poder e representação pública.
O 8 de março, portanto, não deve ser apenas um momento de homenagens, flores ou discursos protocolares. Deve ser, sobretudo, um convite à reflexão coletiva.
Celebramos, sim, os avanços conquistados. Celebramos as mulheres que abriram caminhos na ciência, na política, na educação, na advocacia e em tantas outras áreas da vida social. Mulheres como Maria da Penha, cuja história impulsionou uma das legislações mais importantes de combate à violência doméstica no mundo; Nise da Silveira, que revolucionou o tratamento em saúde mental no Brasil; Carolina Maria de Jesus, cuja literatura revelou ao país a realidade das periferias; Bertha Lutz, pioneira na luta pelos direitos políticos das mulheres; e tantas outras brasileiras que, em diferentes épocas e contextos, transformaram a história com coragem, inteligência e perseverança.
Mas também reconhecemos que ainda existem desafios profundos a enfrentar: a violência, a discriminação no trabalho, a desigualdade salarial e as múltiplas formas de invisibilização.
Por isso, mais do que uma data simbólica, o Dia Internacional da Mulher é um lembrete permanente de que a igualdade se constrói diariamente.
Celebramos, sim.
Mas o 8 de março não é apenas um dia de celebração. É também um lembrete de que ainda permanecemos nas trincheiras desta trajetória histórica de luta - para que respeito, dignidade e justiça não sejam privilégios, e sim direitos plenamente vividos por todas as mulheres.
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Referências
BRASIL. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025.
DATASENADO. Violência contra a mulher no Brasil: pesquisa nacional. Brasília: Senado Federal, 2025.
GARCIA, Esperança. Carta ao governador da Capitania do Piauí (1770). Arquivo Público do Estado do Piauí.
ISTOÉ. Por que o 8 de março? A história por trás do Dia Internacional da Mulher. Disponível em: https://mulher.istoe.com.br/por-que-o-8-de-marco-a-historia-por-tras-do-dia-internacional-da-mulher/. Acesso em: 6 mar. 2026.
VEJA. Caso Marielle chega ao fim, mas nem todas as perguntas se encerram com sua conclusão. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/caso-marielle-chega-ao-fim-mas-nem-todas-as-perguntas-se-encerram-com-sua-conclusao/. Acesso em: 6 mar. 2026.
Cyntia Santos Braga
Advogada. Professora Universitária. Mestra em Direito do Trabalho pela USP. Especialista em Direito Empresarial do Trabalho pela FGV e em Contratos pelo CEU. Conferencista e Pesquisadora do Núcleo "Trabalho Além do Direito do Trabalho" da Universidade de São Paulo - NTADT/USP. Membra da ABJD, AATSP, Coletivo de Mulheres Advogadas do Direito do Trabalho e do Coletivo MANDALA. Diretora Regional do SASP em Campinas.



