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Lawfare familiar: Um alerta sobre a violência no sistema judiciário

A judicialização predatória nas relações familiares: quando o processo deixa de buscar justiça para se tornar instrumento de lawfare e violência psicológica.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Atualizado às 14:02

O Direito de Família deveria ser um porto seguro para a proteção da dignidade. No entanto, temos assistido a um fenômeno sombrio: a lawfare familiar, pois o termo une as palavras law (lei) e warfare (guerra), descrevendo o uso estratégico e abusivo da justiça para cercar, silenciar e esgotar o "adversário". No ambiente doméstico, o processo deixa de buscar uma solução para se tornar uma ferramenta de tortura psicológica e asfixia financeira.

As faces do abuso processual

lawfare não se faz com uma única ação, mas com uma avalanche de processos. Manifesta-se por meio de pedidos de revisão de alimentos sem motivo real e a exigência de provas "diabólicas" - aquelas impossíveis de produzir.

Um exemplo cruel e comum atinge mulheres sem renda própria: o juiz nega a justiça gratuita porque o marido é rico. Como ele detém o controle do dinheiro e se recusa a pagar as custas da esposa (ou fornecer extratos), ela fica impedida de litigar. Ao exigir que ela comprove a renda de quem a oprime, o Judiciário acaba, involuntariamente, chancelando a violência patrimonial.

O impacto nas crianças e no núcleo familiar

Este conflito interminável não atinge apenas os ex-cônjuges. As crianças são as vítimas invisíveis desse "cerco jurídico". Quando um pai ou mãe é bombardeado por dez processos simultâneos, o esgotamento mental impede o pleno exercício da parentalidade. A criança cresce em um ambiente de instabilidade, onde a figura do juiz se torna mais presente que a harmonia do lar, gerando traumas que a literatura técnica aponta como danos ao desenvolvimento emocional saudável.

A psicologia por trás do litígio

Muitas vezes, quem promove a lawfare não suporta o vazio do fim do relacionamento. O litígio torna-se uma forma doentia de manter o vínculo e o controle sobre o outro através da "onipotência jurídica". O agressor usa o processo para "tamponar" sua própria angústia, e o juiz, sem perceber, é convocado a ser espectador de um sadismo onde a vítima precisa "mendigar" direitos básicos diante de quem detém as chaves do cofre.

Caminhos para o combate: Perspectiva de gênero

Para combater esse uso predatório da justiça, é urgente que o Judiciário aplique o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ. Algumas soluções práticas incluem:

  1. Análise individualizada da pobreza: A gratuidade deve considerar a disponibilidade real de recursos da mulher, e não o patrimônio do marido ao qual ela não tem acesso.
  2. Identificação da litigância predatória: Juízes devem identificar quando o excesso de ações visa apenas o cansaço da outra parte e aplicar multas que realmente coíbam a prática.
  3. Diferimento de custas: Permitir o pagamento de taxas apenas ao final do processo, após a partilha de bens, garantindo o acesso imediato à justiça.

Conclusão

lawfare familiar não é apenas má estratégia; é uma violação aos direitos humanos que usa a toga como escudo para a perseguição. Enquanto o processo for tolerado como arma de guerra, a justiça será apenas a maior das injustiças. Precisamos de um olhar sensível que identifique o abuso e proteja o sujeito, não apenas o papel.

Nayeli Lopes

Nayeli Lopes

Advogada. Pós-graduanda em Direito de Família e Sucessões, bem como em Direito Processual Civil.

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