Além do click: A apologia à violência contra a mulher nas redes
O perigo das "trends": quando o entretenimento digital flerta com o crime de apologia à violência contra a mulher e o dever de vigilância das plataformas.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Atualizado em 7 de maio de 2026 17:02
A cada 6 horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esse cenário alarmante não nasce do vazio; ele é alimentado por uma cultura de ódio que, recentemente, encontrou nas redes sociais um novo motor: "trends" que simulam ou incentivam a agressão contra mulheres que proferem um "não".
O que circula como "humor" é, tecnicamente, o que o sociólogo Pierre Bourdieu define como violência simbólica, pois ao normalizar o "castigo" à autonomia feminina, essas plataformas tornam-se cúmplices de uma pedagogia da agressão que adentra o campo da ilicitude penal (art. 287 do CP - Apologia ao Crime).
Essa dinâmica digital não é isolada; ela é o espelho do que ocorre nas varas de família. O homem que curte ou compartilha conteúdos que punem a insubmissão feminina é, muitas vezes, o mesmo que utiliza o processo judicial para persegui-la após o divórcio.
No direito de família, a "trend" vira realidade através da lawfare: O agressor utiliza uma avalanche de incidentes processuais e pedidos revisionais sem lastro para asfixiar a ex-parceira. A lógica é idêntica à do vídeo viral: Se ela disse "não" ao relacionamento ou ao controle, deve ser punida pelo sistema.
Não se trata de censura, mas de responsabilidade, e para romper esse ciclo, precisamos de ações concretas em três frentes:
- Judiciário: Aplicação rigorosa de multas por litigância de má-fé em casos de lawfare de gênero e capacitação de magistrados para identificar a violência simbólica.
- Plataformas: Implementação de filtros automáticos de "discurso de ódio de gênero" antes que o conteúdo ganhe escala viral.
- Sociedade: Educação digital focada no consentimento e na denúncia ativa de conteúdos que violem a dignidade da mulher.
Enquanto o "não" feminino for respondido com violência - seja por um tapa em um vídeo, seja por uma perseguição no tribunal, a justiça será apenas uma ficção jurídica. É preciso desarmar o processo e o algoritmo.


