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A sociedade do desempenho, o ego e os adultos infantilizados no poder

Neste artigo, analiso Byung-Chul Han e a ideia de que a sociedade do desempenho pode estimular comportamentos infantilizados de adultos em ambientes institucionais e políticos.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Atualizado às 10:03

Vivemos um momento curioso na vida institucional contemporânea. Nunca se falou tanto em liderança, responsabilidade pública e maturidade organizacional. Ao mesmo tempo, nunca foi tão comum observar comportamentos que revelam exatamente o oposto. Estamos diante de um fenômeno cada vez mais visível em diferentes ambientes de poder: a presença de adultos formalmente maduros, ocupando cargos relevantes, mas emocionalmente dependentes de reconhecimento constante.

Uma espécie de vaidade institucionalizada, na qual o cargo deixa de ser apenas espaço de responsabilidade e passa a funcionar também como palco de validação pessoal.

Essa dinâmica dialoga diretamente com a análise proposta por Byung-Chul Han em "A Sociedade do Cansaço". O filósofo descreve a transição da antiga sociedade disciplinar, estruturada por proibições, mandamentos e pela lógica do "não pode", para aquilo que denomina sociedade do desempenho. Nesse novo modelo social, o imperativo já não é a obediência, mas a produtividade permanente. No lugar da proibição entram o projeto, a iniciativa e a motivação. O discurso dominante deixa de ser o da limitação e passa a ser o da possibilidade.

É nesse contexto que Han afirma que o "poder ilimitado" se torna o verbo modal positivo da sociedade do desempenho. A lógica social passa a ser estruturada pela positividade do "você pode", sintetizada simbolicamente na expressão coletiva "Yes, we can". Trata-se de um ambiente em que os indivíduos não apenas precisam produzir, mas também demonstrar continuamente sua capacidade, iniciativa e desempenho.

Enquanto a sociedade disciplinar produzia, segundo o autor, loucos e delinquentes, aqueles que não se adaptavam à ordem imposta, a sociedade do desempenho passa a produzir depressivos. Isso ocorre porque a pressão deixa de vir apenas de fora e passa a ser internalizada. O indivíduo transforma-se, ao mesmo tempo, em patrão e explorado de si mesmo.

Logo, observa-se que a busca por visibilidade, reconhecimento e afirmação pública passa a assumir contornos de necessidade psicológica. Em determinados ambientes institucionais, jurídicos ou políticos, essa lógica pode se traduzir em comportamentos marcados por vaidade, competição simbólica e constante necessidade de validação,traços que, por vezes, revelam uma curiosa infantilização emocional em adultos que ocupam posições de poder.

Nesse ambiente marcado pela disputa simbólica por reconhecimento, não é incomum que surjam tensões direcionadas justamente àqueles que não se deixam conduzir por essas dinâmicas. Quando expectativas de reconhecimento não são correspondidas, alguns indivíduos passam a experimentar um sentimento silencioso de deslocamento. Aqueles que se imaginavam protagonistas começam a sentir-se figurantes, não no sentido neutro da palavra, mas no sentido de alguém que acredita ter sido injustamente colocado à margem.

Essa sensação pode ferir profundamente o ego. E quando o ego é ferido, a reação raramente é serena para os que não são emocionalmente maduros. A frustração transforma-se em irritação, e a irritação rapidamente se converte em crítica. Muitas vezes, essa crítica abandona o campo das ideias para entrar no território das pessoas. Nesse momento, um mecanismo psicológico conhecido entra em cena: a projeção.

Para preservar a própria autoimagem, torna-se mais confortável deslocar o problema para fora. Em vez de enfrentar a possibilidade de expectativas infladas, frustrações pessoais ou incoerências internas, constrói-se uma narrativa simples: o problema está no outro. O outro é difícil. O outro é inadequado. O outro é o obstáculo.

Curiosamente, o alvo dessas críticas costuma ser justamente quem mantém uma postura mais autônoma: quem observa antes de aderir, quem não se deixa conduzir facilmente por jogos de influência ou por tentativas de manipulação. A independência de julgamento passa então a ser interpretada como ameaça.

Não porque represente um problema real, mas porque expõe, silenciosamente, as fragilidades do jogo simbólico, esse jogo invisível que muitos tentam construir. Assim, atacar torna-se uma forma de blindagem emocional para adultos emocionalmente infantilizados. Criticar o outro evita a pergunta mais incômoda: e se a frustração não estiver no comportamento alheio, mas nas próprias expectativas?

Em muitos casos, indivíduos cujas expectativas de protagonismo foram frustradas passam a reagir por meio de críticas insistentes ou tentativas de desqualificação dirigidas a quem mantém postura mais independente. A crítica raramente permanece no plano institucional ou das ideias; ela desliza para o campo pessoal, como se a autonomia alheia representasse uma ameaça.

Quem não adere automaticamente às lógicas de grupo frequentemente se torna alvo de críticas que revelam mais as frustrações de quem as formula do que qualquer falha real de quem as recebe. Em ambientes onde o status e o poder simbólico organizam lealdades, manter independência de julgamento pode ter um custo.

Ainda assim, uma lição silenciosa permanece: nem toda discordância é erro. E não seguir determinadas manadas, sobretudo quando movidas mais por vaidade do que por princípios, pode ser, paradoxalmente, uma das formas mais autênticas de integridade. Ambientes marcados pela lógica da hiperexposição tendem a amplificar esse ciclo. Quanto maior a necessidade de visibilidade, maior a sensibilidade diante de qualquer situação que pareça reduzir protagonismo.

Em "A Sociedade do Cansaço", Han descreve um fenômeno característico da cultura contemporânea: as coisas passam a adquirir valor sobretudo quando se tornam visíveis. Aquilo que é visto, exposto e compartilhado tende a ganhar relevância simbólica. A exposição torna-se uma forma de capital.

Ou seja, fotografias, discursos, menções públicas, mesas de destaque e redes sociais passam a funcionar como vitrines permanentes de validação. O indivíduo não apenas produz: precisa demonstrar continuamente que está produzindo, que está presente e que está sendo reconhecido.

Han observa ainda que o próprio conceito de produção carrega, historicamente, a ideia de tornar algo visível. Em francês, a expressão se produire significa literalmente "entrar em cena" ou "apresentar-se". Produzir-se é, portanto, tornar-se visível. Não por acaso, no uso cotidiano da linguagem, "produzir-se" também pode assumir um sentido levemente pejorativo: comportar-se de forma exibida, fazer-se de importante.

Nas redes sociais, essa lógica atinge seu auge. Expondo-se constantemente, os indivíduos passam a circular como mercadorias simbólicas em um grande mercado de visibilidade. Somos, ao mesmo tempo, produtores e produtos de uma vitrine permanente.

Vivemos, assim, em uma espécie de casa mercantil transparente, onde todos observam e são observados. Uma vitrine social contínua. Nesse ambiente, as relações humanas passam a ser organizadas pela lógica da exposição, da validação e do reconhecimento público.

E quando a visibilidade se transforma em capital simbólico, surgem também distorções emocionais. Ambientes institucionais que deveriam ser espaços de maturidade, responsabilidade e construção coletiva passam a reproduzir, muitas vezes, a mesma lógica da vitrine social.

Fotografias, convites, mesas de destaque e pequenos gestos simbólicos de reconhecimento passam a adquirir um peso desproporcional. Surge então um fenômeno curioso: uma espécie de regressão emocional em ambientes que deveriam ser adultos. Adultos passam a agir como crianças em disputa por atenção.

Nesse ponto, o debate deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre ego. E o ego, quando ferido, raramente reage com serenidade. Talvez, portanto, um dos grandes desafios contemporâneos das instituições não seja apenas técnico, jurídico ou administrativo. O desafio pode ser, antes de tudo, humano.

Como construir ambientes verdadeiramente adultos em uma cultura que incentiva a hiperexposição? Como preservar a ética da contribuição em uma sociedade que recompensa o espetáculo? E, sobretudo, como distinguir liderança real de protagonismo performático?

Maturidade institucional não se mede pelo lugar na mesa. Mede-se pela capacidade de permanecer inteiro mesmo quando não se está no centro dela. Porque o verdadeiro teste de maturidade não acontece quando os aplausos vêm. Acontece exatamente quando eles vão embora.

O ego busca aplausos; a maturidade aceita até o silêncio.

Quando passamos a analisar nossas próprias falhas e admitir nossas expectativas frustradas, deixamos de transferir responsabilidades para o outro e começamos, enfim, a corrigir as nossas.

É necessário recusar-se certas disputas, compreender que nem todo palco merece presença e que nem toda aprovação merece ser buscada. Em uma sociedade cansada de aparências e em instituições por vezes adoecidas por vaidades silenciosas, a verdadeira ruptura pode ser mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: pensar por conta própria, não seguir manadas e escolher a consciência quando o ego pede espetáculo.

A verdadeira mudança começa quando alguns simplesmente decidiram não disputar mais o palco, não seguir manadas e não transformar o ego em projeto de poder. Porque, no fim, viver ao contrário pode ser apenas isso: trocar a necessidade de aparecer pela coragem de permanecer íntegro.

Maria Eduarda Magalhães Matos

VIP Maria Eduarda Magalhães Matos

Advogada. Pós-graduada em Direito do Agronegócio. Pós-graduanda em Direito Empresarial e Civil. Estágios realizados durante a graduação: PC/MG, MPMG, DP/MG.

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