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IA para advogados: O que um novo estudo revela sobre o futuro da profissão

Um novo estudo revela que a advocacia está entre as profissões com maior potencial de automação pela inteligência artificial, mas a adoção prática ainda é baixa. O que essa lacuna revela sobre o futuro da profissão?

quinta-feira, 12 de março de 2026

Atualizado em 11 de março de 2026 15:42

Nos últimos dois anos, poucos temas provocaram tanta discussão no meio jurídico quanto o avanço da inteligência artificial. Entre previsões apocalípticas sobre a substituição de profissionais e promessas de revolução total da advocacia, o debate muitas vezes oscila entre entusiasmo exagerado e ceticismo absoluto.

Um novo estudo divulgado em março de 2026 pela Anthropic ajuda a trazer mais clareza para essa discussão. Em vez de analisar apenas o que a inteligência artificial é capaz de fazer em teoria, os pesquisadores propuseram uma abordagem diferente: medir o que a tecnologia realmente já está automatizando no cotidiano das empresas.

Para isso, o estudo criou uma métrica chamada “exposição observada”, que avalia o grau de automação efetivamente presente nas atividades profissionais. A conclusão geral é reveladora: em praticamente todos os setores analisados, existe uma diferença significativa entre o potencial teórico da inteligência artificial e sua adoção prática nas organizações.

Em outras palavras, a tecnologia poderia estar fazendo muito mais do que de fato está hoje.

No caso da advocacia, esse contraste é ainda mais evidente.

Muito potencial, pouca adoção

Os dados do estudo mostram que o setor jurídico está entre as áreas com maior potencial teórico de automação. Isso não é surpreendente. Grande parte do trabalho jurídico envolve leitura, interpretação, pesquisa e produção de textos - exatamente o tipo de tarefa em que sistemas de inteligência artificial generativa têm demonstrado desempenho particularmente elevado.

Ainda assim, a adoção prática dessas tecnologias no Direito permanece limitada. Segundo o estudo, a utilização real da inteligência artificial pelos advogados alcança apenas cerca de 15% do potencial estimado para o setor.

Esse dado revela um paradoxo interessante: a advocacia está entre as áreas mais suscetíveis à automação baseada em linguagem, mas ainda explora apenas uma pequena parte dessas possibilidades.

A pergunta inevitável é: por quê?

Barreiras que vão além da tecnologia

Parte da resposta está no próprio funcionamento do mercado jurídico.

O Direito é um campo no qual responsabilidade, precisão e segurança jurídica são fundamentais. Qualquer ferramenta que interfira na elaboração de documentos, análises ou decisões precisa atender a padrões elevados de confiabilidade e rastreabilidade.

Além disso, existem barreiras regulatórias e institucionais que naturalmente tornam a adoção de novas tecnologias mais gradual.

Mas talvez o fator mais relevante seja estrutural.

A inteligência artificial não opera no vazio. Para funcionar de forma eficiente, ela depende de dados organizados, processos claros e fluxos de trabalho estruturados. Muitas organizações jurídicas - sejam escritórios de advocacia ou departamentos jurídicos corporativos - ainda operam com modelos de trabalho fragmentados, nos quais informações estão dispersas em e-mails, planilhas ou pastas digitais pouco organizadas.

Nesse cenário, mesmo tecnologias avançadas acabam sendo utilizadas de forma pontual, muitas vezes restritas a experimentos individuais, sem integração real às rotinas do trabalho jurídico.

A advocacia não está sendo substituída

Outro ponto importante destacado pelo estudo é que nem todas as atividades jurídicas são igualmente suscetíveis à automação.

Funções que exigem julgamento estratégico, negociação complexa, relacionamento com clientes ou representação em tribunais permanecem essencialmente humanas.

Por outro lado, tarefas baseadas em análise textual - como pesquisa jurídica, elaboração de rascunhos, revisão documental e organização de informações - são justamente aquelas nas quais a inteligência artificial apresenta maior capacidade de apoio.

Isso indica que o impacto da tecnologia na advocacia tende a ocorrer menos pela substituição de profissionais e mais por uma redistribuição das atividades dentro da profissão.

Os advogados provavelmente dedicarão menos tempo a tarefas repetitivas e operacionais e mais tempo a atividades que envolvem estratégia, negociação, tomada de decisão e relacionamento com clientes.

Um alerta para a próxima geração de profissionais

O estudo também traz um dado interessante sobre o mercado de trabalho.

Embora não tenha sido identificado um aumento sistemático de desemprego nas profissões mais expostas à inteligência artificial desde o final de 2022, os pesquisadores observaram uma queda de aproximadamente 14% na contratação de profissionais mais jovens (entre 22 e 25 anos) em ocupações altamente expostas à tecnologia.

Esse dado não indica necessariamente substituição direta de trabalhadores, mas pode refletir uma mudança na natureza das funções de entrada em determinadas profissões.

Historicamente, muitas carreiras jurídicas começam com atividades intensivas em pesquisa, revisão documental e produção textual - tarefas que a inteligência artificial já consegue acelerar significativamente.

Isso reforça a importância de que novos profissionais desenvolvam competências que vão além da execução técnica básica, incluindo visão estratégica, compreensão de negócios, capacidade de negociação e habilidades de relacionamento.

O verdadeiro desafio da IA no Direito

Diante desses dados, talvez a pergunta mais relevante não seja se a inteligência artificial vai transformar a advocacia - isso já está acontecendo.

A questão central é como essa transformação será incorporada ao funcionamento real das organizações jurídicas.

A experiência recente mostra que o maior obstáculo para a adoção da tecnologia raramente é técnico. Com frequência, o desafio está na capacidade das instituições de adaptar seus processos, estruturas e modelos de trabalho para incorporar essas ferramentas de maneira consistente.

Isso já começa a acontecer em algumas áreas do Direito, especialmente na gestão de contratos, onde plataformas de CLM - Contract Lifecycle Management passaram a incorporar recursos de inteligência artificial para apoiar tarefas como análise documental, extração de cláusulas e identificação de riscos em grandes volumes de contratos.

Soluções desse tipo permitem que sistemas de IA leiam contratos, organizem informações relevantes e sinalizem inconsistências ou riscos potenciais, funcionando como apoio ao trabalho jurídico e liberando profissionais para atividades mais estratégicas.

É nesse contexto que parte do mercado de legaltech tem avançado. Plataformas de gestão de contratos já incorporam recursos de inteligência artificial para análise e organização de documentos contratuais, permitindo maior visibilidade e controle sobre o ciclo de vida dos contratos.

Nesse cenário, a inteligência artificial não deve ser vista como uma ameaça à profissão, mas como uma ferramenta capaz de ampliar a capacidade dos advogados de atuar justamente onde sua atuação é mais insubstituível: na estratégia, na negociação e na tomada de decisões complexas.

O futuro da advocacia provavelmente não será definido pela substituição de profissionais por máquinas, mas pela capacidade dos profissionais de integrar tecnologia e conhecimento jurídico de forma inteligente.

E esse movimento já começou.

Bruno Doneda

Bruno Doneda

Fundador e CEO da Contraktor, formado em Direito e Tecnologia, atua especialmente nas frentes de vendas e marketing.

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