É preciso dar nome aos bois: Feminicídio, um trauma social
O texto propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a demora de 19 anos do Estado brasileiro em reconhecer o crime de gênero, partindo da condenação do Brasil pela CIDH no caso Maria da Penha.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Atualizado às 10:00
Nome. Nomear.
Você já pensou no valor de um nome?
No Pentateuco, no livro de Gênesis, Deus deu ao homem a ordem de nomear tudo: plantas, animais, todas as coisas.
Você já deve ter procurado o significado do seu. Eu procurei o meu e, bom, tenho um prefixo nele, então foi um exercício interessante.
Nomear é um ato importante.
Em apertadíssima síntese, segundo Jacques Lacan, o trauma nasce ao não saber nomear aquilo que se sente ou presencia. Os psicanalistas me auxiliem, mas a fórmula matemática seria algo como: trauma = ausência de nome.
Recentemente tenho ouvido, por todo lado, acerca de uma epidemia de feminicídio.
Espanto-me toda vez.
Acredito que na mesma medida em que as pessoas ficam espantadas quando digo que o Brasil foi condenado por uma corte internacional a criar uma lei de proteção à mulher - por sua condição de mulher.
Condição de mulher.
Em tudo isso, sabe o que realmente me espanta? O fato de trabalharmos com uma lei que ingressou em nosso ordenamento jurídico em 2006 e que se preocupou, basicamente, em agravar o delito de lesão corporal (para uma pena mínima de três meses e máxima de três anos.)
Quase vinte anos depois, finalmente, surge o tipo penal que reconhece matar alguém por sua condição de mulher - o que hoje chamamos de feminicídio
Sei lá. Se meu marido tivesse me deixado paraplégica após atirar em mim pelas costas, eu desconfiaria fortemente de que ele tentou me matar - e não apenas me causar uma "lesão corporal" (que, nesse caso, seria gravíssima).
Mas, se, depois disso, ele tentasse me matar eletrocutada durante o banho, eu teria certeza.
O Brasil não entendeu assim na época.
E parece que demorou dezenove anos para entender a sentença que originou a lei Maria da Penha.
Tempo.
Tempo é o maior luxo de que dispomos.
O clichê dos clichês, ou quem sabe, uma verdade universal. Assim como talvez fosse, no século XIX, "uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de uma grande fortuna deve necessitar de uma esposa."
Lamento por todas as mulheres que não tiveram tempo.
Não estamos vivendo uma avalanche de feminicídios.
Apenas demos, finalmente, nome aos bois.
Eu sei que é chocante. Se Lacan estiver correto, espero que algo tão simples quanto um nome cure nossa sociedade dessa situação traumática - primeiro àquelas que nasceram com a "condição" de mulher, como eu.
E, na sequência (ou talvez no avesso disso), a própria sociedade, que agora vê.


