Segurança alimentar e comércio internacional Brasil e China: A importância da convergência regulatória das biotecnologias
Brasil e China, líderes em commodities e consumo, enfrentam a demora na aprovação de biotecnologias. A convergência regulatória pode gerar bilhões em benefícios econômicos e ambientais.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Atualizado às 10:33
A relação comercial entre Brasil e China, especialmente no agronegócio, é um pilar estratégico que sustenta a segurança alimentar global e o desenvolvimento econômico das duas nações: o Brasil está entre os maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo, enquanto a China é o maior mercado consumidor. A demanda chinesa por grãos alimenta a produção brasileira e garante parte significativa da segurança alimentar global. No entanto, um obstáculo impede que essa colaboração atinja seu potencial: a demora na aprovação de biotecnologias agrícolas por parte dos órgãos regulatórios chineses e a disponibilidade rápida para uso na agricultura brasileira.
Enquanto no Brasil a CTNBio - Comissão Técnica Nacional de Biossegurança aprova novas biotecnologias agrícolas em aproximadamente doze meses, na China o MARA - Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais pode levar mais de 60 meses - cinco anos - para liberar as mesmas tecnologias. Essa diferença freia a adoção de biotecnologias mais modernas e eficientes no campo, com prejuízo para produtores brasileiros e a cadeias consumidoras chineses.
Um estudo da Céleres®, estimou que a convergência regulatória poderia gerar um salto de R$ 1,5 bilhão por ano no comércio internacional entre Brasil e China, considerando soja, milho e algodão. Para a produção brasileira das culturas analisadas, a agilidade na adoção de biotecnologias mais produtivas no Brasil implicaria num crescimento de 76 milhões de toneladas ao longo de dez anos, com 40 milhões de toneladas a mais para exportação com os diferentes parceiros comerciais. Do ponto de visto macroeconômico, a convergência regulatória deve gerar R$ 111 bilhões no valor bruto da produção agrícola, R$ 1,7 bilhão em tributos diretos e R$ 7,3 bilhões a mais em massa salarial no recorte de dez anos.
Para a China, o impacto seria direto nas cadeias de proteína animal. A indústria de esmagamento de soja na China reduziria a ociosidade em 1,5 ponto percentual, produzindo anualmente 1,8 milhão de toneladas adicionais de farelo e 400 mil toneladas de óleo. Isso garantiria 1,7 milhão de toneladas a mais de ração para suínos por ano - proteína presente no dia a dia do cidadão chinês, além de sustentar a disponibilidade de matéria-prima para a indústria local de biocombustíveis.
A disponibilidade de biotecnologias usadas pelos produtores brasileiros gera estabilidade de oferta e competitividade em preço às cadeias chinesas de consumo, potencializando a segurança alimentar e energética local.
O aspecto ambiental também deve ser levado em consideração. O uso de biotecnologias mais produtivas e eficientes no uso de insumos reduziria a necessidade de abrir quase 20 milhões de hectares de novas áreas agrícolas, economizando anualmente 110,2 milhões de litros de diesel e 13,1 bilhões de litros de água, além de cortar 292,3 mil toneladas de emissões de CO2 equivalente.
O cenário futuro reforça a urgência da convergência. Nas próximas duas décadas, a China deve ampliar o consumo de carne suína em 30%, de frango em 35% e de bovinos em 50%, exigindo mais soja e milho para ração. Ao mesmo tempo, o Brasil ainda enfrenta perdas anuais de R$ 130 bilhões por pragas, doenças e plantas invasoras. A biotecnologia é a ferramenta para enfrentar tais desafios.
Por fim, o alinhamento dos sistemas agrícolas e agroindustriais entre Brasil e China é essencial para consolidar uma parceria estratégica e sustentável de longo prazo. Para que essa convergência se torne realidade, é fundamental harmonizar a regulamentação em biotecnologia, garantindo previsibilidade para investimentos e inovação no setor. Num contexto global mais protecionista, o fortalecimento da relação bilateral trará reflexos positivos no desenvolvimento da agricultura brasileira, com impacto positivo também sobre o abastecimento interno, criando um modelo de cooperação estável e mutuamente vantajoso entre os países.


