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O líder ampliado e o desafio de liderar na era da inteligência artificial

A IA redefine a liderança ao ampliar decisões e exigir preparo ético. O desafio está em formar líderes capazes de usar tecnologia com responsabilidade.

terça-feira, 24 de março de 2026

Atualizado às 15:55

A inteligência artificial já participa de decisões estratégicas em empresas, governos e instituições. Ela analisa dados, projeta cenários, identifica padrões e sugere caminhos. Segundo o AI Index Report 2024, da Universidade de Stanford, a adoção corporativa de inteligência artificial mais que dobrou nos últimos dois anos no mundo. Diante dessa transformação, a pergunta central deixa de ser tecnológica e passa a ser humana. Estamos preparados para identificar e formar líderes capazes de integrar essa nova realidade com responsabilidade e visão estratégica?

Um episódio recente ajuda a ilustrar até onde essa transformação pode chegar e como a inteligência artificial já começa a impactar diferentes dimensões da sociedade. Na Colômbia, a Justiça Eleitoral autorizou que uma candidatura representada por inteligência artificial participe das eleições legislativas. A iniciativa funciona como uma plataforma digital capaz de reunir propostas, opiniões e demandas da população, que passam a orientar as decisões políticas de representantes humanos associados ao projeto. O caso evidencia que a IA já não está restrita a laboratórios ou empresas de tecnologia: ela começa a influenciar também o debate sobre representação política, tomada de decisão e os próprios modelos de liderança na esfera pública.

Os critérios tradicionais de liderança, como experiência acumulada, carisma e resultados passados, continuam relevantes, mas tornaram-se insuficientes. O ambiente atual é digital, orientado por dados, volátil e interdisciplinar. Identificar novos líderes exige observar quem aprende continuamente, quem formula perguntas melhores e quem sabe utilizar tecnologia como instrumento de ampliação, e não como substituição do pensamento crítico.

Nesse contexto surge o conceito de líder ampliado. Não se trata de um profissional substituído pela inteligência artificial, mas de alguém potencializado por ela. A IA amplia a capacidade de análise, acelera simulações estratégicas e antecipa riscos. O líder, por sua vez, mantém aquilo que a tecnologia não substitui: julgamento moral, empatia, responsabilidade e propósito. A inteligência artificial expande a cognição. A liderança define direção e limites.

Formar esse novo perfil de liderança é um dos grandes desafios contemporâneos. Programas tradicionais de desenvolvimento executivo, focados apenas em comunicação, negociação e gestão de conflitos, já não são suficientes. Uma pesquisa global da McKinsey indica que mais de 70% das empresas já utilizam IA em ao menos uma função estratégica, mas apenas uma parcela minoritária afirma ter lideranças plenamente preparadas para governar seu uso. É necessário incorporar alfabetização digital estratégica, compreensão de vieses algorítmicos e noções de governança de dados. Liderar na era da IA implica saber quando confiar na tecnologia, quando questioná-la e como supervisioná-la.

O recrutamento também passa por transformação estrutural. Sistemas automatizados realizam triagem de currículos, análises comportamentais e avaliações preditivas. Surge um paradoxo. Algoritmos começam a selecionar profissionais que precisam liderar algoritmos. Organizações que não revisarem seus critérios de seleção podem reforçar vieses invisíveis ou negligenciar competências humanas essenciais, como pensamento sistêmico e inteligência emocional.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial impõe novos limites regulatórios e éticos. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados assegura a revisão humana de decisões automatizadas, enquanto o PL 2.338 de 2023 propõe um marco específico para inteligência artificial, com diretrizes de classificação de riscos e responsabilidade.

No plano internacional, a União Europeia aprovou o AI Act, o primeiro marco regulatório abrangente sobre inteligência artificial no mundo. A norma adota um modelo baseado em níveis de risco, estabelece obrigações de transparência, supervisão humana obrigatória em sistemas classificados como de alto risco e mecanismos institucionais de fiscalização. O alcance extraterritorial do regulamento sinaliza que a governança de IA não é apenas debate acadêmico, mas requisito estratégico para empresas e instituições que operam globalmente.

A governança de IA deixa de ser apenas boa prática e passa a integrar o campo da segurança jurídica e institucional.

O desafio contemporâneo é equilibrar inovação e responsabilidade. A dependência excessiva da automação pode gerar erros sistêmicos. A ausência de formação adequada pode aprofundar desigualdades internas entre profissionais que dominam tecnologia e aqueles que ficam à margem. A liderança ampliada não compete com a máquina, mas também não delega a ela a decisão final sem supervisão.

A pergunta que define esta era não é se a inteligência artificial substituirá líderes. É se estamos preparados para formar líderes capazes de utilizá-la com consciência estratégica, limites claros e compromisso com a boa governança.

A inteligência artificial amplia a capacidade de decisão. A responsabilidade, contudo, permanece humana.

Thomas Law

Thomas Law

Advogado especialista em Direito Penal Econômico, mestre em Direito das Relações Internacionais Econômicas e doutor em Direito Comercial. É presidente da CNRBC (OAB Federal), do Ibrachina e do IBCJ, além de vice-presidente do CEDES e de comissões da OAB/SP. Também atua como pesquisador, professor, palestrante e autor. Fundador do Ibrawork.

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