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Advocacia e coragem: o resgate da essência da profissão

Uma reflexão necessária sobre o resgate da essência ética na advocacia contra a conveniência de interesses.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Atualizado às 16:46

Este artigo nasce de uma inquietação que tomou corpo e voz, dentre outros temas sensíveis e relevantes.

Trata-se de um convite a olhar para o que resta da nossa profissão quando as luzes das estruturas se apagam e o que sobra é, apenas, a consciência do advogado diante do seu dever.

A advocacia contemporânea atravessa uma encruzilhada silenciosa.

De um lado, o deslumbramento com a eficiência tecnológica responsável, e de outro, a sedução perigosa de uma advocacia de bastidores, onde o Direito - antes protagonista - é rebaixado ao papel de mero acessório da causa.

É neste cenário de sombras que urge o resgate do que defendo como o "Ofício da Coragem".

Não falo da coragem ruidosa dos tribunais, mas da coragem silenciosa da coerência

Vivemos tempos em que a Justiça, por vezes, se esconde sob o manto de interesses que a contrapõem. É a era das acomodações de poder, onde a técnica jurídica é sacrificada no altar da conveniência ou do resultado a qualquer custo.

Quando permitimos que o Direito seja secundário a esses interesses, esvaziamos a nossa função social. O verdadeiro "chão de fábrica" da advocacia - a advocacia real, do cotidiano, dos fóruns e juizados, das causas menos complexas, mas que definem a vida do cidadão — está sendo asfixiado e o maior prejudicado.

Esse ciclo vicioso reflete no Judiciário como um todo e atinge em cheio essa advocacia de base.

Contudo, para cobrar o sistema, precisamos primeiro da coragem da autocrítica.

Ao contrário da proposta recorrente de um código de ética mais apurado para a magistratura (a meu ver, complementar), acredito que temos o dever de, em um primeiro lugar, olhar para dentro.

Precisamos enrijecer nossas próprias normas com um Código de Ética mais realista e rigoroso.

Sermos coerentes nas investigações e sanções aos advogados que atuam sozinho em seu escritório, ou ao lado de outros colegas dividindo despesas com muito sacrifício, em um pequeno escritório, com outros "bem relacionados".

Não haverá problema algum para o advogado que age de maneira adequada, seja autônomo, de pequeno, médio, ou "grande" escritório (seja pelo tamanho, seja pela eventual influência); o rigor deve existir para identificar e punir os desvios que mancham a beca de toda uma classe.

Essa postura não se improvisa; ela é herdada, construída em valores, para que o Direito seja sempre compreendido como uma ferramenta de transformação, e não se torne um simples balcão de negócios.

As boas e saudáveis relações existem, e devem existir. Isso faz parte do social e da política. A boa relação com magistrados, procuradores, e outras carreiras jurídicas, faz parte do cotidinao da advocacia. O que não se deve permitir é que esse grau de intimidade, seja por qual motivo, seja capaz de interferir proporcionando resultados injustos.

Aprendi que a bússola interna de um advogado deve estar sempre calibrada pela ética inegociável.

A verdadeira coragem nos mostra que a única trajetória que resiste ao tempo é aquela construída sobre a rocha dos princípios, e não sobre as areias movediças das circunstâncias momentâneas.

Resgatar a essência da profissão exige a coragem de ser impopular em certos círculos. Significa entender que a Justiça não pode ser um subproduto de acordos que atropelam a técnica. Em um mundo tecnológico, nossa maior entrega continua sendo a integridade.

Ocupar espaços nas instituições é um dever, mas habitar a própria essência é uma escolha.

Que saibamos honrar os valores que nos trouxeram até aqui, fazendo da nossa prática diária um manifesto vivo de que a advocacia, quando exercida com verdade e rigor ético, é o mais nobre ofício da coragem.

Sergio Antunes Lima Junior

VIP Sergio Antunes Lima Junior

Sérgio Antunes Lima Junior é advogado, Doutorando e Mestre em Direito (Portugal, Brasil e França). Secretário adjunto da OAB-RJ.

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