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Manadas de poder: O brilho da visibilidade e a prisão que ninguém vê

Quem observa vê glória; quem participa conhece a prisão. Nas manadas de poder, o desejo de entrar e a dificuldade de sair transformam o status em armadilha, à luz de Infocracia.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Atualizado às 16:30

Na obra Infocracia, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, pontua-se que o novo niilismo é um fenômeno do século XXI. Ele nasce dentro da própria sociedade da informação, justamente em um momento em que começamos a perder a crença na verdade. Em meio a fake news, desinformação e teorias da conspiração, a realidade vai se desfazendo, e as verdades factuais deixam de ser referência comum.

Passam a circular informações completamente desconectadas da realidade, criando um ambiente em que o que parece verdadeiro importa mais do que o que é verdadeiro.

Começo, assim, a dialogar diretamente com esta visão: na sociedade, toda manada de poder se estrutura em torno de um núcleo discreto, onde o comando real raramente se torna visível. Figuras públicas que ocupam posições de destaque muitas vezes representam formalmente decisões já articuladas por outros. Nem sempre quem está nos holofotes é quem realmente decide; as movimentações estratégicas ocorrem nas salas secretas, sustentadas por acordos, gestos calculados e reuniões reservadas. 

As engrenagens de poder seguem uma lógica: primeiro, identifica-se quem valoriza a visibilidade e está disposto a permanecer próximo do núcleo decisório. Essas pessoas são gradualmente colocadas em posições de representação, inicialmente em níveis regionais, não exclusivamente por competência, mas por alinhamento e previsibilidade.

Uma vez integradas, essas lideranças avançam por indicação, subindo do regional ao estadual e, por fim, ao nacional. O crescimento não depende apenas do desempenho; a lealdade interna pesa tanto quanto, ou mais, do que a habilidade técnica.

Diante disso, surgem estruturas regionais aparentemente consensuais, como as chamadas "chapas únicas". À primeira vista, parecem refletir unanimidade, mas muitas vezes o consenso é construído antes mesmo que haja disputa. Quando não há oposição, não é necessariamente por falta de alternativas, mas pelo excesso de acordos que moldam quem vai realmente aparecer como representante e seguirá sendo mais fácil de conduzir. 

Paralelamente, operam trocas de favores, alinhamentos estratégicos e redes de influência. Decisões cruciais são tomadas em salas secretas, sustentadas por relações calculadas e alianças imorais. E, com frequência, quem exerce o poder real não é quem aparece, mas quem detém influência e acesso a esses círculos estratégicos e principalmente políticos. 

Logo, o poder se sustenta em estruturas que parecem legítimas, mas que silenciosamente definem quem representa, quem executa e quem permanece limitado pelas engrenagens do sistema.

Grupos que compartilham interesses tendem a se proteger. Questionamentos ou independência de julgamento podem gerar desconforto; romper o padrão interno muitas vezes desestabiliza a dinâmica coletiva. É essa lógica de proteção e alinhamento que mantém a manada coesa.

Parte significativa do poder opera de forma discreta. A visibilidade, nessa circunstância, funciona como uma moeda simbólica: atrai quem está de fora e, ao mesmo tempo, condiciona quem já está dentro. Pertencer passa a ser, em grande parte, depender das regras implícitas e acordos. 

Quanto mais se sobe na visibilidade e nas posições de destaque, maior o risco de se tornar refém de expectativas silenciosas e de trocas de favores. Quem observa de fora deseja entrar; quem já está dentro percebe que sair tornou-se impossível. Enquanto todos se concentram na aparência, a máquina continua a girar, estratégica e potente, mantendo sua estrutura funcionando quase sem ser percebida e aprisionando quem foi manipulado e percebeu tarde demais o esquema. 

Essas manadas de poder não nascem de ideias ou competência; nascem da articulação fria de interesses pessoais.

Esta lógica do poder é feita, na maioria das vezes, por meio de alianças estratégicas: aproximar-se de quem influencia é essencial para ocupar espaços. Indicações seguem redes de confiança e acordos discretos, reforçando vínculos e obrigações. A visibilidade é apenas vitrine; o poder real continua concentrado nos bastidores. 

Quanto mais se busca reconhecimento e destaque, maior a necessidade de se adaptar aos acordos. 

O poder silencioso funciona como uma máquina bem calibrada. O que se vê é apenas a fachada; o controle real está nas mãos de quem domina a rede de influência, escolhe quem ocupa o palco e define quem será usado para interesses do grupo, mantendo a engrenagem funcionando sem alarde.

O resultado é um sistema que se retroalimenta: consolida aliados, amplia redes e fortalece posições. Em nome de representações coletivas, muitas vezes prevalecem interesses individuais e a constante necessidade de reafirmar relevância.

Esses esquemas podem ser tão sutis que quem entra sem observar com atenção acredita estar cercado de apoio genuíno. A sensação inicial é de acolhimento, reconhecimento e pertencimento. Até perceber, tarde demais, que seu nome já está vinculado a decisões e contextos que jamais escolheria conscientemente.

O núcleo de poder posiciona perfis fáceis de conduzir ou menos inclinados a questionar, garantindo que a engrenagem funcione sem ruído. O senso crítico, nesses ambientes, é visto como ameaça. Quando alguém rompe o roteiro, recusa manipulação ou enxerga o que se passa por trás, entra em ação a descredibilização reputacional: a pessoa passa a ser percebida como difícil, instável, desalinhada ou problemática. A verdade perde importância; o que importa é gerar dúvida suficiente para haver isolamento social desta pessoa. 

Quando a vítima percebe, já está cercada de desconfiança e traições, não por ter cometido erros, mas por ter enxergado demais e se recusado a compactuar. E essa talvez seja a engrenagem mais perigosa: não apenas concentrar poder, mas moldar percepções para protegê-lo a qualquer custo. Assim, começam a circular fake news, com o objetivo de manipular a percepção pública e descredibilizar a pessoa, retratando-a como instável, corrupta(o) ou perigosa(o).

Logo, a aceitação social do poder, a internalização do status e o desejo de pertencimento funcionam como mecanismos de controle. O risco maior não está na existência das manadas de poder, mas na naturalização de sua lógica, que por vezes pode ocasionar em consequências muito maiores. 

O desafio contemporâneo, portanto, não é apenas identificar essas dinâmicas, mas questioná-las: não aderir automaticamente, apontar o que está errado e perceber como o status pode funcionar como armadilha.

No fim, as manadas de poder revelam um paradoxo humano profundo: quanto maior a visibilidade e o protagonismo, mais intenso se torna o aprisionamento simbólico. 

É nessas engrenagens silenciosas que as manadas de poder operam, onde a verdade cede espaço a mentiras cuidadosamente disseminadas na era digital, mirando aqueles que ousam desafiar o sistema, enquanto falsas glórias e acordos secretos moldam quem brilha e, ao mesmo tempo fica aprisionado. 

Trecho do livro Infocracia: "Quem é cego aos fatos e a realidade, constitui um perigo maior à verdade do que um mentiroso".

Maria Eduarda Magalhães Matos

VIP Maria Eduarda Magalhães Matos

Advogada. Pós-graduada em Direito do Agronegócio. Pós-graduanda em Direito Empresarial e Civil. Estágios realizados durante a graduação: PC/MG, MPMG, DP/MG.

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