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O caso da advogada que perdeu honorários (e o que isso ensina sobre governança contratual)

Uma análise sobre como falhas operacionais em minutas próprias refletem a urgência de governança e tecnologia no cotidiano jurídico.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Atualizado às 12:23

A recente decisão do TJ/SP, que negou o recebimento de honorários advocatícios a uma advogada em razão da ambiguidade presente em seu próprio contrato de prestação de serviços, não deve ser lida como mera curiosidade jurisprudencial. O episódio expõe uma fragilidade que o mercado jurídico ainda insiste em tratar como detalhe: A falta de governança sobre a própria formação dos instrumentos que produzem receita.

O caso carrega uma ironia difícil de ignorar: O técnico do Direito, o guardião das palavras e da segurança jurídica de terceiros, sendo vitimado por uma falha de técnica legal e operacional na gestão de sua própria receita.

E talvez esteja justamente aí o ponto mais importante: Muitas vezes, o erro que produz prejuízo não nasce da ausência de conhecimento técnico, mas da ausência de método na construção, revisão e validação do documento.

Onde o processo falha: A ilusão do editor de texto

Este caso não é isolado. Ele revela um problema estrutural ainda naturalizado no mercado jurídico: A negligência com o fluxo operacional das minutas. 

Frequentemente, escritórios e departamentos jurídicos focam toda a sua energia intelectual na tese jurídica e na doutrina. Enquanto isso, o "processo" de criação, revisão e aprovação do documento permanece arcaico.

Quando um contrato tramita por trocas intermináveis de e-mails, com versões salvas como "final_final_revisado.docx", a falha deixa de ser exceção. Cláusulas vitais são sobrescritas, condicionantes de êxito ficam dúbias e o risco de uma rescisão contratual litigiosa dispara.

Do contrato como arquivo ao contrato como processo

A gestão de contratos moderna precisa, urgentemente, migrar da simples "gestão de arquivos" para uma "gestão de processos" viva. A segurança jurídica não nasce apenas da erudição do redator, mas de um sistema que blinde o documento contra o erro humano.

Empresas mais maduras já tratam esse percurso de forma estruturada. E isso não é mais hipótese de futuro: Hoje, a tecnologia já permite transformar governança contratual em rotina operacional. Na prática, isso significa:

  • Controle de acesso por perfil e contexto, para que contratos sensíveis não circulem além do necessário;
  • Definição objetiva de responsáveis por etapa, com rastreabilidade sobre quem revisou, aprovou ou liberou o avanço do documento;
  • Validação formal antes da assinatura, com checklists, documentos de apoio e registro do cumprimento de cada exigência crítica.

O que esse caso realmente revela

O futuro da advocacia corporativa e de escritórios de ponta não tolera mais a falta de controle sobre os próprios ativos e negociações. O caminho para a excelência passa pela adoção de tecnologias capazes de estruturar, com rastreabilidade, todo o ciclo contratual - da elaboração e revisão à aprovação, assinatura e acompanhamento posterior.

A governança contratual deixou de ser diferencial operacional. Tornou-se condição mínima de segurança para quem pretende proteger receita, reduzir risco e sustentar relações jurídicas com previsibilidade. Afinal, a blindagem jurídica não começa no litígio. Começa no modo como o contrato nasce, circula, é validado e é preservado.

Bruno Doneda

Bruno Doneda

Fundador e CEO da Contraktor, formado em Direito e Tecnologia, atua especialmente nas frentes de vendas e marketing.

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