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O que a LC 123/06 garante além do Simples Nacional para ME/EPP

A LC 123/06 vai além do Simples Nacional: garante às ME e EPP proteção jurídica, menos burocracia, fiscalização orientadora e acesso favorecido a mercados.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Atualizado às 16:18

Muitas empresas tratam a LC 123/06 como se ela fosse apenas uma lei de impostos. Quando um empresário ou contador ouve falar em LC 123/06, a associação quase automática é com o Simples Nacional. Isso é compreensível: a arrecadação unificada, a guia única e o regime tributário simplificado se tornaram a face mais conhecida do ME - Estatuto Nacional da Microempresa e da EPP - Empresa de Pequeno Porte. Mas essa leitura é incompleta.

A LC 123/06 deve ser lida em duas camadas. A primeira é a camada tributária: o Simples Nacional, com regras próprias de opção, exclusão, cálculo, arrecadação e limitações setoriais. A segunda é a camada jurídica não tributária: um conjunto de regras de simplificação administrativa, fiscalização orientadora, acesso a mercados, crédito, inovação, cooperação e proteção regulatória. Essa segunda camada é o foco deste artigo.

O erro de limitar a LC 123/06 ao Simples Nacional, camada tributária, faz com que muitas empresas deixem de usar direitos importantes, como:

BENEFÍCIOS JURÍDICOS NÃO TRIBUTÁRIOS - LC 123/06

   

 licenciamento simplificado

 acesso facilitado a crédito

 baixa empresarial desburocratizada

 estruturas de cooperação empresarial

 fiscalização orientadora

 desburocratização societária

 critério da dupla visita antes de multa

 investidor-anjo

 preferência em licitações

 acesso aos Juizados Especiais

 regularização fiscal tardia em licitações

 alvará provisório

A consequência prática é grave: a empresa pode pagar taxas indevidas, aceitar multas nulas, perder licitações, deixar de captar investimentos, suportar exigências burocráticas inexigíveis e não utilizar instrumentos legais criados justamente para equilibrar a competição.

A CF/88 reconhece que ME e EPP precisam de tratamento favorecido. Não por privilégio, mas por uma razão econômica simples: elas não possuem a mesma estrutura, o mesmo caixa, o mesmo acesso a crédito, o mesmo departamento jurídico, a mesma força de compliance nem o mesmo poder de negociação das grandes empresas.

É por isso que os arts. 170, IX, e 179 da CF impõem ao Estado o dever de dispensar tratamento diferenciado às pequenas empresas, inclusive mediante simplificação, redução ou eliminação de obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias.

A lógica é de igualdade material. Tratar igualmente empresas desiguais pode produzir desigualdade real. Uma grande companhia consegue manter equipe fiscal, jurídica, trabalhista, regulatória e licitatória. Uma pequena empresa, muitas vezes, concentra tudo no sócio, no contador e em poucos colaboradores. Imagine três situações comuns.

Exemplo 1 - fiscalização: Uma pequena oficina recebe uma fiscalização sanitária ou ambiental. O fiscal identifica uma irregularidade corrigível, mas lavra multa imediatamente, sem prévia orientação. Se a hipótese exigia dupla visita, o auto de infração pode ser nulo. Mesmo assim, muitas empresas pagam a multa por desconhecimento.

Exemplo 2 - licitação: Uma EPP participa de um pregão e fica em segundo lugar, com preço 4% superior ao da primeira colocada, que não é ME/EPP. Pela regra do empate ficto, ela pode ter direito de apresentar nova proposta e vencer. Se não souber disso, perde o contrato.

Exemplo 3 - baixa empresarial: Uma ME encerra suas atividades, mas possui pendências fiscais. O empresário acredita que não pode baixar o CNPJ antes de regularizar tudo. A LC 123/06 permite a baixa independentemente da regularidade fiscal, sem extinguir a responsabilidade pelos débitos. O desconhecimento mantém empresas “mortas-vivas”, acumulando obrigações e riscos.

Um ponto essencial: muitos benefícios jurídicos não tributários não dependem, necessariamente, de a empresa ser optante pelo Simples Nacional. O relevante é o enquadramento como ME ou EPP, nos termos da LC 123/06, observadas as hipóteses legais de exclusão do tratamento favorecido. Portanto, a ME ou EPP, inclusive se optante pelo Lucro Presumido, pode gozar dos benefícios não tributários, alguns exigem explicação individual.

Fiscalização orientadora e critério da dupla visita

A LC 123/06 determina que a fiscalização das ME e EPP deve ter natureza prioritariamente orientadora, especialmente nas áreas trabalhista, sanitária, ambiental, de segurança e de uso e ocupação do solo. O principal instrumento dessa lógica é o critério da dupla visita: em situações aplicáveis, o fiscal deve primeiro orientar a empresa, indicar a irregularidade e conceder oportunidade de correção, sendo a multa lavrada apenas se a irregularidade persistir ou se houver hipótese legal de exceção. A dupla visita pode ser afastada, por exemplo, em casos de:

DUPLA VISITA NÃO SE APLICA - HIPÓTESES DE EXCEÇÃO

   

 falta de registro de empregado

 ausência de anotação na CTPS

 reincidência

 fraude

 resistência ou embaraço à fiscalização

 infrações graves que envolvam risco incompatível com a orientação prévia

 situações específicas previstas em lei, como determinadas infrações em área de preservação permanente ou ocupação irregular de solo público

   

Quando a dupla visita era obrigatória e não foi observada, a consequência pode ser a nulidade do auto de infração.

Licitações: Acesso favorecido ao mercado público

LC 123/06 utiliza as contratações públicas como instrumento de desenvolvimento econômico, garantindo às ME e EPP condições diferenciadas para disputar contratos com a Administração Pública. Esse tratamento favorecido permanece aplicável sob a lei 14.133/21. Entre os principais benefícios estão:

Regularização fiscal e trabalhista posterior: A ME ou EPP pode participar da licitação mesmo com restrições fiscais ou trabalhistas. Se for declarada vencedora, terá 5 dias úteis, prorrogáveis por igual período, para regularizar a documentação.

Empate ficto: A ME ou EPP pode apresentar nova proposta quando seu preço for até 10% superior ao da melhor proposta classificada. No pregão, o limite é de 5%. Esse benefício não se aplica se a melhor proposta já tiver sido apresentada por outra ME ou EPP.

Licitações exclusivas: Itens de contratação de até R$ 80.000,00 devem, em regra, ser destinados exclusivamente à participação de ME e EPP, observadas as exceções legais.

Cota reservada: Nas aquisições de bens de natureza divisível, a Administração deve reservar cota de até 25% do objeto para disputa entre ME e EPP. Exemplo: em uma compra de 1.000 unidades, até 250 unidades podem ser reservadas às pequenas empresas.

Subcontratação: Em determinadas contratações, o edital pode exigir ou estimular a subcontratação de ME e EPP, permitindo que pequenas empresas participem de contratos maiores por meio da execução de parcelas específicas do objeto.

Acesso aos Juizados Especiais

A LC 123/06 também facilita o acesso das ME e EPP aos Juizados Especiais, observadas as regras de competência e valor aplicáveis. Esse ponto é relevante porque pequenas empresas frequentemente enfrentam litígios de menor complexidade: cobrança de valores, inadimplemento de clientes, problemas com fornecedores, pequenos contratos e conflitos de consumo.

Deliberações sociais e estrutura organizacional simplificada

A LC 123/06 também simplifica a governança das ME e EPP. A lei reduz formalidades societárias para empresas de menor porte, evitando que atos ordinários dependam de procedimentos complexos de convocação, instalação de reunião, lavratura de ata e demais ritos próprios de estruturas empresariais maiores.

Essa simplificação, contudo, não é absoluta. A dispensa de reunião ou assembleia não se aplica quando: (i) o contrato social exigir expressamente a realização de reunião ou assembleia; e (ii) houver hipótese de exclusão de sócio por justa causa ou um ou mais sócios colocarem em risco a continuidade da empresa por atos de inegável gravidade.

Além disso, o art. 71 da LC 123/06 dispensa as ME e EPP da publicação de atos societários, nos termos da legislação civil. Trata-se de benefício relevante, pois elimina custos e formalidades que, para pequenas empresas, podem representar ônus desproporcional. Essa dispensa, porém, não elimina a necessidade de formalizar e arquivar os atos societários obrigatórios perante a Junta Comercial.

A LC 123/06 é mais que Simples Nacional, é uma política jurídica de equilíbrio competitivo. A lei é muito maior do que a guia única de arrecadação. Ela cria um sistema de proteção jurídica para que ME e EPP possam nascer, operar, contratar, inovar, captar recursos, participar de licitações, ser fiscalizadas com orientação e encerrar suas atividades com menor custo burocrático.

O tratamento diferenciado não é favor gratuito. É instrumento constitucional de desenvolvimento econômico, redução de desigualdades e correção de assimetrias competitivas. A pergunta que empresários, advogados e contadores devem fazer não é apenas: “a empresa está no Simples?”. A pergunta correta é: a empresa está usando todos os direitos que a LC 123/06 garante ao seu porte?

Porque, muitas vezes, o maior benefício da LC 123/06 não está no imposto. Está na proteção jurídica que impede que a pequena empresa seja esmagada pela burocracia, pela fiscalização punitiva, pela concorrência desproporcional e pelo desconhecimento dos seus próprios direitos.

Esse é o verdadeiro uso estratégico da LC 123/06: transformar o Estatuto da ME e EPP em ferramenta de proteção, crescimento e competitividade.

Deyvid Correa

VIP Deyvid Correa

Adv. Especialista em Direito Societário e Planejamento Patrimonial e Sucessório pela FGV/SP, com imersões internacionais focadas em proteção patrimonial e sucessão, realizadas no Uruguai e Reino Unido

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