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O Brasil e o seu xadrez de outubro. Há uma última jogada?

O Direito que é a última trincheira da civilidade, em alguns momentos, dá a impressão de estar rendido a interesses de viés político.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Atualizado às 09:09

Existe uma célebre obra de arte do século XIX, criada pelo pintor alemão Friedrich Moritz August Retzsch, que ficou popularmente conhecida pelo nome de “xeque-mate”. A tela, cujo título original é "Os Jogadores de Xadrez" (Die Schachspieler), esconde uma das narrativas mais fascinantes e cheias de simbolismo da história da arte, envolvendo uma lenda que desafia a própria lógica do jogo.

Esse quadro tem servido, ao longo dos tempos, como metáfora poderosa da luta entre o bem e o mal, entre desespero e a resistência.

A tela ilustra um momento de extrema angústia: em uma extremidade da mesa, o Demônio exala pura autoconfiança, enquanto na outra, um rapaz se mostra completamente derrotado e sem forças. Diante deles, o cenário no tabuleiro parece definitivo: o Mal se diverte com o triunfo iminente, e o jovem se vê encurralado por uma desvantagem esmagadora. Contudo, ignorando o que os olhos mostram, resta uma esperança oculta: o rei permanece ativo na partida. Ainda resta um movimento possível.

Essa imagem tem sido utilizada, através das gerações, como um forte símbolo do embate entre a luz e as trevas, e da capacidade humana de resistir mesmo diante do mais profundo e talvez não haja figura mais apropriada para ilustrar o momento que vivemos no Brasil. Vivemos um tempo em que o tabuleiro nacional parece dominado por forças hostis à racionalidade, à liberdade e ao senso comum. A política se vê encurralada por polarizações que se retroalimentam. A sociedade, fraturada, busca identidade em extremos.

E o Direito que é a última trincheira da civilidade, em alguns momentos, dá a impressão de estar rendido a interesses de viés político, a excessos de atuação de órgãos públicos ou a omissões calculadas.

Justificativas ideológicas fazem com que os valores fundamentais sejam deixados de lado.

Sob o pretexto de manter a estabilidade, anula-se o cumprimento das leis.

Sob a desculpa do interesse coletivo, aceitam-se excessos que jamais seriam permitidos em uma democracia consolidada.

A população de forma idêntica ao rapaz da pintura acompanha o cenário com um desânimo cada vez maior, como se o destino já estivesse selado e não houvesse mais chance de reação.

Contudo, quem sabe, de forma semelhante à tela de Retzsch, a partida ainda tenha salvação.

Conta-se que um grande enxadrista, ao observar essa pintura, exclamou: "O jogo ainda não acabou! O rei ainda tem uma última jogada!". Essa frase, que virou quase uma lenda, carrega um ensinamento poderoso: a esperança não está em negar a gravidade do cenário, mas em enxergar além do óbvio. O que parece xeque- mate pode ser apenas aparência (desde que existam discernimento e bravura).

Para que o Brasil reencontre essa última jogada, talvez deva procurar na redescoberta dos valores republicanos, na restauração dos freios e contrapesos constitucionais, na recuperação da confiança entre as instituições e os cidadãos. Talvez,também esteja na sociedade civil, que pode e deve abandonar a passividade e exigir ética, técnica e decência na política. Talvez também esteja na juventude, nos educadores, nos pequenos atos de resistência ao cinismo e à mentira.

A democracia brasileira não pode ser reduzida a um duelo de torcidas nem a um teatro de vaidades togadas.

É tempo de nos lembrar de que o jogo da história nunca está encerrado enquanto houver um povo disposto a lutar, pensar criticamente e analisar com racionalidade e civilidade,sua realidade.

Assim como na obra de Retzsch, o Mal pode dar a impressão de ter triunfado. Contudo, o rei ainda tem saída. Ainda há uma última jogada, nas mãos do povo, em um movimento final de superação, que em uma democracia madura, sempre pertence à população.

Mariana Cotta

Mariana Cotta

Advogada OAB /DF 82358.Pós graduada em Penal e Processo Penal ,pela Escola Paulista de Direito (EPD)