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Me tornei líder, recebi um cliente novo e uma equipe. E agora?

Na advocacia, liderar vai além da técnica: exige gestão, estratégia, escuta e desenvolvimento contínuo de pessoas e processos.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Atualizado em 29 de maio de 2026 17:39

No universo da advocacia, especialmente nos escritórios com forte atuação contenciosa, é comum que a liderança surja como consequência natural de uma trajetória construída pela excelência técnica, comprometimento e capacidade de entrega.

O estagiário se desenvolve, torna-se advogado júnior, amadurece tecnicamente, passa a lidar com demandas mais complexas, clientes mais exigentes, prazos mais sensíveis e, em determinado momento, é convidado a liderar uma área, uma carteira ou uma equipe.

A transição, porém, nem sempre é simples.

Afinal, no curso de Direito, somos preparados para interpretar leis, construir teses, elaborar peças processuais, participar de audiências, sustentações orais, reuniões estratégicas e pareceres jurídicos. Mas, em regra, não somos formalmente preparados para liderar pessoas, gerir indicadores, desenvolver talentos, estruturar fluxos, acompanhar rentabilidade, interpretar contratos de prestação de serviços sob a ótica operacional e transformar obrigações contratuais em rotinas eficientes.

De repente, aquele profissional que sempre se destacou por trabalhar bem passa a enfrentar um desafio muito mais complexo: fazer com que outras pessoas também trabalhem bem, de forma coordenada, produtiva, saudável e alinhada às expectativas do cliente e do escritório.

E aqui reside uma das maiores descobertas da liderança: executar bem é importante, mas liderar exige outra dimensão de habilidade.

Liderar envolve técnica, método, presença, escuta, autoconhecimento, observação e uma dose significativa de sensibilidade. É preciso perceber as habilidades de cada colaborador, compreender seus pontos de desenvolvimento, alocar as pessoas nas atividades corretas, acompanhar entregas, corrigir rotas, dar feedbacks, criar espaços de diálogo e, ao mesmo tempo, sustentar a qualidade técnica e a eficiência operacional.

Não se trata apenas de distribuir tarefas. Trata-se de construir um ambiente em que as pessoas saibam o que se espera delas, compreendam o propósito da atividade que executam e tenham clareza sobre como seu trabalho impacta o cliente, a equipe e o resultado do escritório.

Liderar também é aprender uma nova linguagem

Ao assumir uma equipe ou uma nova carteira de cliente, o advogado passa a lidar com um vocabulário que nem sempre esteve presente em sua formação jurídica: turnover, retenção de talentos, dimensionamento de equipe, indicadores, volumetria, rentabilidade, produtividade, fluxos internos, compliance contratual, controladoria, faturamento, eficiência operacional e gestão do tempo.

Esse novo cenário exige que o líder amplie sua visão. A atuação deixa de ser exclusivamente jurídica e passa a ser também estratégica, administrativa, financeira e humana.

É nesse momento que se torna indispensável “colocar fogo no barco” e seguir em frente, sem possibilidade de retorno à zona de conforto. A liderança exige movimento. Exige buscar novas ferramentas, estudar gestão, compreender pessoas, analisar dados, aprender com erros e desenvolver repertório para navegar por águas que, muitas vezes, não foram apresentadas ao advogado durante sua formação acadêmica.

Por onde começar?

Quando um líder recebe um novo cliente e uma equipe, o primeiro passo não deve ser a pressa pela execução, mas a compreensão profunda do cenário.

É essencial ler atentamente o contrato de prestação de serviços firmado entre o escritório e o cliente. Esse documento não deve ser visto apenas como uma formalidade jurídica, mas como uma verdadeira matriz de gestão. Dele devem ser extraídas informações relevantes para o jurídico, a controladoria, o financeiro, o administrativo, o compliance e a própria liderança da equipe.

Quais são as obrigações contratuais? Quais prazos foram assumidos? Como será a forma de faturamento? Existem exigências específicas de relatórios, sistemas, auditorias, fluxos ou padrões de atendimento? Quais áreas internas precisam ser envolvidas para que a operação funcione corretamente?

A partir dessas respostas, é possível criar mini manuais, fluxos objetivos e indicadores que permitam acompanhar a carteira com método e previsibilidade.

Sem dados, não há gestão

A liderança eficiente não se sustenta apenas na intuição. A percepção do líder é relevante, mas precisa ser acompanhada de dados.

É necessário conhecer o tamanho da carteira, a volumetria atual, a entrada mensal de novos processos, a quantidade de defesas, recursos, audiências, manifestações simples, relatórios, pareceres e demais atos praticados por mês, semana e dia.

Também é importante avaliar o tempo médio de execução de cada atividade, identificar temas repetitivos que podem ser endereçados a ferramentas de automação ou inteligência artificial, mapear assuntos que exigem atuação do setor corporativo e compreender quais demandas precisam de acompanhamento mais próximo por envolverem maior risco financeiro, institucional ou estratégico.

Esses dados permitem dimensionar a equipe de forma mais adequada, organizar prioridades, evitar sobrecarga, reduzir gargalos e melhorar a comunicação com o cliente.

A pergunta central deixa de ser apenas “quem fará a tarefa?” e passa a ser: qual é a melhor estrutura para entregar qualidade, eficiência e resultado de forma sustentável?

O líder como ponto de integração

Na prática, o líder de uma área contenciosa não atua isoladamente. Ele é um ponto de integração entre cliente, equipe jurídica, controladoria, financeiro, RH, administrativo e demais setores do escritório.

Por isso, sua rotina deve contemplar não apenas a análise processual, mas também a auditoria periódica da carteira, o cruzamento da base do cliente com a base do escritório, a verificação de processos aptos ao encerramento, a identificação de casos com potencial de acordo, o acompanhamento de sucumbências, a conferência do faturamento e a revisão constante dos fluxos internos.

Também cabe ao líder manter conversas periódicas com o cliente, não apenas para prestar contas, mas para ouvir. A prestação de serviços está atendendo às expectativas? Há pontos de melhoria? Existem oportunidades consultivas ou novas frentes de atuação? A comunicação está adequada? Os relatórios são úteis? Os prazos estão sendo cumpridos da forma esperada?

Essa escuta ativa fortalece a relação institucional e permite ajustes antes que pequenos ruídos se transformem em problemas maiores.

Liderar pessoas exige presença

Embora os números sejam indispensáveis, a liderança não se resume a planilhas.

Gerir pessoas exige presença, disponibilidade e consistência. Reuniões periódicas com a equipe são importantes, mas não substituem conversas individuais, escuta genuína e acompanhamento próximo.

O feedback, tão mencionado no ambiente corporativo, não deve ser compreendido como uma conversa esporádica e formal, realizada apenas diante de um problema. Ele deve fazer parte da cultura da equipe. Feedback é alinhamento, orientação, reconhecimento, correção de rota e desenvolvimento.

Além disso, é fundamental conversar com os liderados sobre suas expectativas profissionais. As atividades desempenhadas estão alinhadas ao momento de carreira daquele colaborador? Ele deseja desenvolver outras habilidades? Está realizando algum curso? Tem interesse em escrever artigos, participar de eventos, estudar novas teses ou atuar em demandas mais estratégicas?

Liderar também é ajudar o outro a enxergar possibilidades.

Para isso, é necessário descrever expressamente as responsabilidades de cada colaborador, alinhar expectativas de forma clara e confirmar se aquilo que o escritório e o cliente esperam também faz sentido para o profissional envolvido. A clareza reduz ruídos, evita frustrações e aumenta o senso de responsabilidade.

Gestão compartilhada e desenvolvimento contínuo

Uma liderança madura não centraliza tudo. Ao contrário, desenvolve autonomia, cria corresponsabilidade e estimula a participação da equipe na melhoria dos processos.

A gestão compartilhada permite que os colaboradores contribuam com ideias, apontem gargalos, proponham soluções e se sintam parte da construção da área. Isso é especialmente importante em ambientes contenciosos, nos quais o volume de trabalho pode ser intenso e a padronização precisa conviver com a análise individualizada dos casos.

Também é papel do líder incentivar a atualização técnica da equipe, o desenvolvimento de artigos, o acompanhamento de jurisprudência, a revisão de teses e a participação em eventos relevantes. A advocacia exige aprendizado contínuo, e a liderança deve estimular essa cultura.

A liderança como construção diária

Tornar-se líder em um escritório de advocacia é assumir uma função que ultrapassa a excelência técnica. É aprender a gerir pessoas, números, expectativas, riscos, contratos, fluxos, indicadores e relacionamentos.

É compreender que cada cliente possui exigências próprias, cada equipe possui uma dinâmica específica e cada carteira demanda uma estratégia de acompanhamento.

Não existe fórmula única. Mas existem caminhos: estudar, observar, ouvir, mensurar, organizar, ajustar e comunicar.

A liderança é construída no cotidiano, nas pequenas decisões, nas conversas difíceis, nos alinhamentos claros, na capacidade de reconhecer talentos, corrigir desvios, sustentar padrões de qualidade e, principalmente, formar pessoas melhores do que nós mesmos.

No fim, liderar talvez seja exatamente isso: deixar de ser apenas quem entrega bem para se tornar quem cria condições para que outros também entreguem, cresçam e encontrem sentido no que fazem.

E, nesse percurso, o advogado descobre que a gestão de pessoas não é um desvio da advocacia. É uma das formas mais sofisticadas de exercê-la.

Maria Fernanda Pastorello

Maria Fernanda Pastorello

Sócia - Advogada com atuação em Direito Securitário, gestão de equipes e soluções jurídicas inovadoras.