Um ano sem o juiz Edinaldo César Santos Júnior
Homenagem relembra magistrado que levou o debate racial aos espaços de poder.
domingo, 31 de maio de 2026
Atualizado às 09:34
Toda a vez que o grande compositor argentino Atahualpa Yupanqui apresentava, em seu violão,a chacareira “la humilde”, recitava em prelúdio que “cada vez que um velho, de mais de oitenta anos, vai para o silêncio – assim respeitosamente me referindo ao final da vida – é assim como se fosse queimar uma biblioteca inteira”.
Na representação dessa frase já quase de domínio público, tem razão o poeta platense quando realçava a percepção de que, com a finitude da vida, a lembrança de algumas pessoas especiais reflete muito mais que memórias afetivas, senão o acervo completo de experiências que, de tão fortes, só caberiam em uma coletânea inteira de livros.
Na flor da maturidade judicante e acadêmica, a enciclopédia Edinaldo já estava completa aos 49 anos, irradiando lições profundas e reflexões enérgicas sobre a democratização da Justiça, a ser alcançada sob a perspectiva inusitada doolhar superior de sua negritude orgulhosa. Quem teve a oportunidade de ouvi-lo lecionarconteúdos de Direitos Humanos, a partir da extirpação de condutas racistas, teve sorte e jamais se esquecerá.
Quantas lições de ancião deixou esse jovem juiz, que de origem humilde sergipana, venceu todas as barreiras do preconceito para conquistar amagistratura e se destacar como eminente humanista. Não chegou, pela pressa do destino, a concluir seu doutorado na Universidade de São Paulo, mas, consolidou sua obra-prima tão somente a partir de sua escolha firme de combater o racismo estruturado nas mais altas posições do Poder Judiciário.
Com inteligência e serenidade, mostrou a quem lhe ouviu, que de pouco adiantam frases, normas ou papéis declarando a indistinção de cor, gênero ou riqueza, se a elite burocrática e política persiste majoritariamente branca e masculina. Entre o discurso e a prática, Santos Júnior conviveu com o topo das autoridades judiciais brasileiras, provocando-lhes em alto e bom tom ponderações sobre a ausência de pessoas negras em tais ambientes, ciclos profissionais ou de amizades. Homem de coragem!
O peso da bandeira que hasteou, contudo, não era carregado com ódio nem rancor. Pelo contrário! Edinaldo foi de uma leveza astral impressionante, distribuidor de sorrisosirradiantes e bem humorados. A seriedade de seu conhecimento profundo era rapidamente quebrada pela alegria de um apaixonado pela música. Sempre que era possível, surpreendia a todos com cantorias repletas de vigor e positividade (em especial, “O que é, o que é?, de Gonzaguinha).
Um ano sem Edinaldo, entre nós, é tempo de boas lembranças mas, também, da grande lição, encrustada nas páginas por ele vividas, de que só prosperará uma Justiça realmente brasileira, se for melhor representada por mulheres, negros e outros invisibilizados, em todas as suas hierarquias!

