O Pix assusta Washington
Por que o sistema de pagamento brasileiro incomoda tanto os EUA?
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Atualizado às 10:39
A maior potência econômica do planeta incluiu, em um relatório oficial de retaliação comercial, reclamações sobre um aplicativo de transferência bancária gratuito criado pelo Banco Central do Brasil. O Pix, ferramenta que nasceu da competência técnica dos servidores públicos da autoridade monetária brasileira e que hoje movimenta trilhões de reais por ano, virou alvo diplomático de Washington - porque incomoda quem lucrava com a ineficiência que ele varreu.
As declarações dos EUA e o que está nas entrelinhas
O USTR - Escritório do Representante de Comércio dos EUA concluiu investigação comercial contra o Brasil com base na seção 301 da lei de comércio de 1974, instrumento que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos, e declarou que "os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios".
Na avaliação norte-americana, o Banco Central brasileiro "tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix", citando especificamente a exigência de que o sistema seja exibido em destaque nos aplicativos bancários e ofertado sem taxas aos usuários.
Numa clara tradução, os EUA estão reclamando que o Brasil criou um sistema de pagamentos eficiente, gratuito e soberano, e que isso prejudica empresas privadas americanas como Visa e Mastercard, que cobram taxas por cada transação realizada. A "injustiça", portanto, é a competência brasileira. O USTR afirma que o Brasil "prejudicou injustamente empresas dos EUA envolvidas em serviços de pagamento eletrônico concorrentes, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional", referência direta à concorrência que o Pix oferece ao setor privado americano.
"Campeão nacional", no vocabulário de Washington, virou sinônimo de ameaça. No vocabulário da soberania, chama-se política pública de qualidade.
Uma obra técnica do quadro funcional do Banco Central (Nem de governo - nem de político)
O Pix foi criado pelo Banco Central do Brasil por meio do trabalho técnico de seus servidores - não por um governo ou político específico. Seu desenvolvimento ocorreu entre 2014 e 2020, atravessando diferentes gestões presidenciais e envolvendo mais de 130 instituições financeiras.
O ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn foi direto ao reconstituir essa história: "Quem criou o Pix? Na minha opinião, o Banco Central. O funcionalismo. Não foi fulano ou ciclano." A ideia surgiu em 2016, e em 2018 o BC formalizou um grupo de trabalho dedicado ao desenvolvimento do sistema.
O próprio Banco Central, em seu Relatório de Gestão do Pix, registra que o sucesso é "resultado do trabalho do corpo técnico de servidores públicos do BC, bem como de colaboradores de todas as instituições envolvidas, que construíram o Pix a múltiplas mãos" - o que encerra qualquer dúvida sobre a paternidade do sistema.
O Pix pertence ao Brasil. Foi construído por brasileiros que passaram anos desenvolvendo uma das maiores inovações financeiras do mundo sem pedir crédito, sem aparecer em palanque, sem precisar de holofote. Qualquer tentativa de se apropriar desse legado é desonestidade com a história e desrespeito a quem realmente o construiu.
Os robustos números do Pix
O Pix vai muito além de uma ferramenta de pagamento, e os dados do Banco Central mostram por quê.
No segundo semestre de 2025, mais da metade de todas as transações financeiras do Brasil (54,7%) foram realizadas pelo Pix. Ao todo, foram 42,9 bilhões de operações, movimentando R$ 68,2 trilhões, com crescimento de 24,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Pagamentos por Pix levam em média apenas 3 segundos para serem concluídos, segundo relatório do FMI, contra dois dias para transações de débito e até 28 dias para crédito. Enquanto o Pix cobra 0,33% do valor para empresas, as taxas de débito nos EUA giram em torno de 1,13% e as de crédito chegam a 2,34%. Para pessoas físicas no Brasil, o Pix é completamente gratuito.
Mais de 70 milhões de brasileiros realizaram sua primeira transação bancária por meio do Pix, sendo incluídos no sistema financeiro por uma ferramenta de Estado, sem custo, sem burocracia, sem intermediários privados cobrando pedágio.
Em 2022, o Brasil já era o segundo país do mundo em uso de pagamentos instantâneos, atrás apenas da Índia, representando 15% do total mundial de transações desse tipo, com crescimento de 228,9% em um único ano.
Esses números representam receitas que deixaram de fluir para bandeiras internacionais. É sobre isso, fundamentalmente, que Washington reclama.
A revolução que nenhuma empresa privada faria
Antes do Pix, ter acesso ao sistema financeiro no Brasil era, para milhões de pessoas, um privilégio de quem tinha endereço fixo, vínculo formal de emprego e paciência para enfrentar filas, burocracia e tarifas. Transferir dinheiro custava caro, tinha horário para funcionar e excluía quem não se encaixava no perfil exigido pelos grandes bancos.
Nos últimos anos, aproximadamente 60 milhões de brasileiros ingressaram no sistema financeiro (mais da metade da força de trabalho do país) e o Pix foi o principal motor dessa transformação.
Em setembro de 2025, o sistema já contava com mais de 890 milhões de chaves registradas e 177 milhões de usuários cadastrados, tendo contribuído diretamente para a bancarização de mais de 70 milhões de pessoas que antes viviam completamente à margem do sistema formal. Vendedores ambulantes, artesãos e pequenos prestadores de serviço passaram a usar o Pix como principal meio de pagamento - e, em muitos casos, ele foi o primeiro contato dessas pessoas com o sistema financeiro formal.
O Banco Central, em seu Relatório de Cidadania Financeira de 2025, reconhece que a batalha pela bancarização e inclusão financeira, que parecia intratável por décadas, ficou para trás - e grande parte dessa virada está diretamente ligada ao Pix. Esses números têm rosto. São o trabalhador informal que esperava dias por um pagamento e hoje recebe em três segundos, a microempreendedora que nunca teve conta em banco e hoje emite nota fiscal pelo celular, a pessoa idosa do interior que nunca pisou numa agência bancária e hoje paga a conta de luz sem sair de casa. Nenhuma empresa privada, orientada pelo lucro, teria feito isso - porque, para o mercado, quem não tem renda não é cliente. Para o Estado brasileiro, é cidadão. E foi exatamente isso que o Pix reconheceu.
O veredicto de quem entende
A avaliação sobre o Pix não vem apenas do Brasil. Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, publicou artigo intitulado "O Brasil inventou o futuro do dinheiro?", descrevendo o sistema como referência mundial de inovação financeira e afirmando que o Pix "está conseguindo de fato o que os defensores de criptomoedas alegaram, falsamente, ser capaz de se alcançar por meio do blockchain - baixos custos de transação e inclusão financeira".
Krugman aponta ainda o nó que impede os EUA de replicar a experiência: "o poder do setor financeiro privado americano inviabiliza a competição com um sistema público, ainda mais se a ferramenta for superior". E vai além ao notar que o governo Trump sugere que "a mera existência do Pix no Brasil constitui uma concorrência desleal para as empresas de cartão de crédito e débito dos EUA".
Em outras palavras: o problema norte-americano com o Pix não é técnico, não é jurídico e não é comercial, é a confissão de que o setor privado americano, apoiado pelo seu governo, não consegue competir com uma solução pública superior, e prefere eliminar a concorrência a melhorar o produto.
A maior contradição do livre mercado
Os Estados Unidos, a nação que mais exportou ao mundo a ideologia do livre mercado, da concorrência saudável, da não intervenção do Estado na economia e da liberdade de escolha do consumidor, estão usando o aparato diplomático e jurídico do seu próprio governo para reclamar que outro país concorre de forma eficiente demais.
O país que construiu sua hegemonia pregando que o mercado se regula sozinho está exigindo que o Brasil enfraqueça um serviço público gratuito e superior para proteger empresas privadas americanas que não conseguem competir com ele. O livre mercado é princípio inegociável - exceto quando o mercado americano perde. A concorrência é virtuosa - exceto quando quem vence é brasileiro. A eficiência deve ser recompensada - exceto quando a eficiência é do Estado brasileiro. As regras do jogo que Washington escreveu, ao que parece, só valem quando Washington ganha.
O Pix não feriu nenhuma regra de comércio. Fez o que o capitalismo sempre prometeu recompensar: entregou um produto melhor, mais barato e mais acessível. Se o princípio americano fosse aplicado com honestidade, Washington deveria estudar o Pix, não taxá-lo. Essa postura não é deslize retórico - é a demonstração de que, para os Estados Unidos, livre mercado sempre foi argumento de conveniência, não compromisso real.
Quando o inimigo é de casa
No mesmo período em que o governo norte-americano formalizava sua investigação e preparava a proposta de tarifas contra o Brasil, um senador brasileiro e pré-candidato à presidência foi pessoalmente à Casa Branca pedir ao presidente Trump que classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas, e o pedido foi atendido em menos de 48 horas.
O mesmo parlamentar declarou que, se eleito, o Brasil passará a integrar o "Escudo das Américas", iniciativa criada por Trump em março de 2026 com o objetivo declarado de combater a influência da China na América Latina.
A questão que se impõe não é somente ideológica, mas de subordinação e lealdade. Um representante eleito pelo povo brasileiro foi a Washington pedir sanções que prejudicam o Brasil, negociar sua candidatura com uma potência estrangeira e oferecer, em troca, o alinhamento automático do país às prioridades geopolíticas americanas. Isso é usar o interesse nacional como moeda de troca pessoal, é vender a soberania do país antes mesmo de tê-la nas mãos.
O Pix virou instrumento dessa barganha. A ferramenta que mais democratizou o acesso financeiro na história do Brasil passou a ser citada em documentos americanos não porque seja injusta, mas porque alguém, de dentro do próprio país, ajudou a pintá-la como problema.
O colonialismo que não precisa de canhões
Há uma forma de colonialismo (ou tentativa) que dispensa armadas, soldados e ocupação territorial. Usa relatórios jurídicos, ameaças de tarifa e lobby corporativo. Seu mecanismo é simples e eficaz: impedir que países em desenvolvimento construam soluções próprias que reduzam a dependência de empresas dos países centrais.
Exigir que o Brasil enfraqueça o Pix para que Visa e Mastercard recuperem fatia de mercado é exigir que o Brasil seja menos soberano em prol do lucro privado estrangeiro. O argumento de que oferecer um serviço gratuito à população é "discriminatório" contra concorrentes que cobram taxas inverte completamente a lógica do interesse público, pois transforma o Estado que serve seus cidadãos em ameaça à livre concorrência.
O relatório do USTR vai além do Pix e inclui críticas a decisões do STF sobre remoção de conteúdos em redes sociais, revelando que a pressão americana também mira a capacidade do Brasil de regular plataformas digitais estrangeiras que operam em solo nacional. Não se trata mais de disputa comercial, mas de violação da soberania nacional, em que um governo estrangeiro exige que o Judiciário brasileiro se curve aos interesses de empresas americanas, que o Estado brasileiro abra mão do direito de regular quem opera dentro de suas fronteiras e que o país trate como "discriminação" o simples exercício de governar.
E enquanto diplomatas brasileiros trabalham para defender esses direitos nas mesas de negociação, um senador da república, candidato a presidente, percorre os corredores de Washington pedindo exatamente o que o relatório americano quer, mais pressão, mais sanções, mais ingerência sobre o próprio país que jurou defender. A coincidência é perfeita demais para ser casual.
O que Brasil construiu e tem razões para defender
O Pix está no celular do vendedor de pipoca na esquina, na barraca da feira, na farmácia do bairro, no caixa do supermercado, na conta da microempresária que nunca teve acesso a maquininha. É tecnologia pública a serviço de gente real, gratuita, instantânea, disponível 24 horas por dia, construída com o talento e a dedicação dos servidores do Banco Central do Brasil.
Nenhuma potência estrangeira tem o direito de exigir que o Brasil desmonte isso. A soberania financeira não é capricho ideológico, é condição de desenvolvimento. O Brasil tem estrutura econômica sólida, tradição institucional robusta e capital humano qualificado para fazer suas próprias escolhas sobre o que serve melhor ao seu povo.
A pressão norte-americana sobre o Pix não é sobre comércio justo, é sobre quem controla os fluxos financeiros da maior economia da América Latina. E o Brasil já deu sua resposta, construída ao longo de anos por servidores públicos anônimos que nunca precisaram de palanque, criou o melhor sistema de pagamentos instantâneos do mundo, e o deu de graça para seus cidadãos.
Defender o Pix é defender uma conquista que pertence ao Brasil e a quem a construiu.
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Correio Braziliense;
Estado de Minas;
Diário do Grande ABC;
Correio 24 Horas;
CNN Brasil;
Banco Central do Brasil - Relatório de Gestão do Pix, Estatísticas de Pagamentos de Varejo (2º semestre de 2025) e Relatório de Cidadania Financeira 2025;
Payments & Commerce Market Intelligence (PCMI);
Money Times;
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Revista Fórum;
Fundação Perseu Abramo;
Economic News Brasil;
Finsiders Brasil;
Portal Tela;
DataRudder - Data Report Pix 2025.
