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Desenvolvimento sem consciência? Desafios do Brasil

Reflexão da 7ª Plenária do Conselhão, limites do desenvolvimento sem formação cidadã, democracia sólida exige consciência coletiva e compromisso com o bem comum.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Atualizado às 09:44

A 7ª Reunião Plenária do CDESS - Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, realizada no Palácio do Itamaraty, em Brasília, sob o tema “Da soberania nacional ao protagonismo global”, trouxe ao debate uma questão cuja relevância transcende governos, ciclos eleitorais e conjunturas partidárias. Em meio às discussões sobre desenvolvimento econômico, fortalecimento institucional, inovação, sustentabilidade e inclusão social, emergiu uma inquietação que há anos desafia não apenas o Brasil, mas grande parte das democracias contemporâneas: por que avanços concretos produzidos pelo Estado nem sempre se convertem em reconhecimento social proporcional? E, mais profundamente, por que resultados objetivos frequentemente parecem insuficientes para produzir consensos mínimos acerca dos rumos desejáveis para a sociedade?

A resposta mais imediata costuma apontar para a necessidade de ampliar as entregas governamentais. Segundo essa interpretação, a persistência de níveis elevados de insatisfação decorreria de uma insuficiência quantitativa das políticas públicas, exigindo mais investimentos, mais programas, mais obras e maior presença do Estado na promoção do desenvolvimento. Embora tal raciocínio possua coerência administrativa, ele parece incapaz de explicar integralmente o fenômeno observado. Afinal, a experiência histórica demonstra que a relação entre desempenho governamental e apoio popular raramente se estabelece de forma linear, automática ou racionalmente previsível.

Se os processos políticos fossem determinados exclusivamente por indicadores objetivos, seria relativamente simples compreender os movimentos da opinião pública. Bastaria comparar índices de crescimento econômico, geração de empregos, expansão educacional, investimentos públicos ou redução da pobreza para antecipar tendências eleitorais e níveis de aprovação governamental. Contudo, a realidade demonstra algo substancialmente mais complexo. As sociedades não se organizam apenas em torno de interesses materiais; elas também se estruturam a partir de identidades, valores, símbolos, crenças e percepções compartilhadas que, muitas vezes, possuem maior capacidade de mobilização do que os próprios fatos objetivos.

É precisamente nesse ponto que se encontra uma das fragilidades mais profundas da experiência democrática brasileira contemporânea. Nas últimas décadas, o país promoveu avanços significativos na democratização do acesso à educação, ampliando de forma inédita a presença de grupos historicamente excluídos nos espaços de formação acadêmica e profissional. Sob diversos aspectos, trata-se de uma transformação civilizatória. Milhões de brasileiros passaram a frequentar universidades, institutos federais e centros de formação técnica, alterando profundamente a estrutura de oportunidades existente no país.

Entretanto, a expansão da escolarização não foi acompanhada, na mesma intensidade, pela construção de uma cultura cívica capaz de fortalecer a compreensão do interesse coletivo, o compromisso democrático e o sentimento de pertencimento a uma comunidade nacional fundada em princípios de solidariedade social. Em outras palavras, formamos mais profissionais, mas não necessariamente formamos mais cidadãos.

Essa distinção é fundamental. A educação formal produz competências técnicas indispensáveis para o desenvolvimento econômico, mas a consolidação democrática exige algo adicional: a capacidade de compreender que a vida em sociedade pressupõe responsabilidades compartilhadas, respeito à diversidade, valorização das instituições e reconhecimento da legitimidade daqueles que pensam de forma diferente. Sem essa dimensão, o conhecimento técnico pode coexistir com formas sofisticadas de intolerância, radicalização e fragmentação social.

O resultado desse processo é a crescente dificuldade de construção de uma consciência coletiva orientada pelo bem comum. Questões que deveriam ser analisadas a partir de seus impactos sociais passam a ser interpretadas primordialmente por meio de filtros identitários. A pergunta sobre o que beneficia a sociedade como um todo cede espaço à pergunta sobre o que reforça a identidade de determinado grupo, confirma determinadas crenças ou produz sensação de pertencimento. Nessa lógica, a adesão a certas narrativas deixa de decorrer de sua coerência empírica ou de sua utilidade prática e passa a desempenhar uma função emocional, oferecendo reconhecimento, acolhimento e significado existencial aos indivíduos.

Diversos estudos sobre polarização política demonstram que esse fenômeno não constitui uma anomalia brasileira, mas uma característica recorrente de sociedades submetidas a intensos processos de transformação econômica, tecnológica e cultural. Em contextos marcados por incertezas, a busca por pertencimento frequentemente supera a busca por verdade, e a fidelidade ao grupo passa a ser percebida como valor superior à análise crítica da realidade. A consequência é a formação de comunidades políticas cada vez mais impermeáveis ao diálogo, resistentes à revisão de suas próprias convicções e propensas a interpretar divergências legítimas como ameaças existenciais.

Nesse ambiente, preconceitos históricos, discursos anticientíficos, teorias conspiratórias e diferentes formas de desinformação encontram condições particularmente favoráveis para prosperar. Mais grave ainda, a normalização dessas práticas contribui para a deterioração dos vínculos sociais que sustentam a convivência democrática. A hostilidade contra mulheres, minorias, populações vulneráveis, instituições científicas e defensores dos direitos humanos não surge de maneira espontânea; ela se alimenta de uma cultura política que gradualmente substitui a complexidade dos problemas sociais por narrativas simplificadoras baseadas na identificação de inimigos e na rejeição do pluralismo.

Por essa razão, talvez um dos maiores equívocos de nosso tempo seja imaginar que a superação dessas tensões possa ocorrer exclusivamente por meio da ampliação das entregas governamentais. Evidentemente, investimentos públicos, crescimento econômico, geração de empregos e expansão de direitos permanecem essenciais. Nenhuma democracia se fortalece em meio à exclusão social ou à precarização das condições de vida. Todavia, acreditar que resultados materiais serão suficientes para enfrentar problemas cuja origem é também cultural e simbólica equivale a confundir consequências com causas.

A questão central não reside apenas na capacidade do Estado de produzir desenvolvimento, mas também em sua capacidade, juntamente com a sociedade civil, o sistema educacional e os meios de comunicação, de construir uma cultura democrática capaz de conferir sentido a esse desenvolvimento. Sem esse esforço, corre-se o risco de produzir avanços concretos cuja relevância social permanece incompreendida ou, em situações mais graves, passa a ser percebida como ameaça por parcelas da própria população beneficiada por eles.

Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 constituem um exemplo eloquente dos riscos associados a esse processo. Mais do que um episódio isolado de radicalização política, aqueles eventos evidenciaram a existência de fissuras profundas na relação entre parte da sociedade e as instituições democráticas. Quando cidadãos deixam de reconhecer a legitimidade das regras constitucionais e passam a enxergar adversários políticos como inimigos a serem eliminados, o problema deixa de ser apenas político e assume natureza institucional, comprometendo os próprios fundamentos do Estado de Direito.

É precisamente por isso que a discussão suscitada na plenária do Conselhão merece ser compreendida em sua dimensão mais ampla. O desenvolvimento nacional não pode ser reduzido a indicadores econômicos, assim como a democracia não pode ser compreendida apenas como um arranjo jurídico-eleitoral. Ambos dependem da existência de uma sociedade capaz de compartilhar valores mínimos de convivência, reconhecer a importância das instituições e compreender que a prosperidade coletiva exige cooperação, confiança e responsabilidade recíproca.

A verdadeira soberania nacional, tão justamente debatida naquele encontro, não será alcançada apenas por meio do crescimento econômico ou da ampliação da presença brasileira nos fóruns internacionais. Ela dependerá, sobretudo, da capacidade de formar cidadãos comprometidos com a democracia, conscientes de seu papel na vida pública e capazes de reconhecer que nenhuma sociedade se desenvolve de forma sustentável quando parcelas significativas de sua população deixam de perceber a si mesmas como parte de um destino comum.

Em última análise, o maior desafio brasileiro talvez não seja apenas produzir mais desenvolvimento, mas produzir mais consciência sobre o significado do próprio desenvolvimento. Porque obras podem ser inauguradas, programas podem ser implementados e indicadores podem melhorar; entretanto, sem uma cultura democrática robusta que permita à sociedade compreender, valorizar e proteger essas conquistas, continuaremos enfrentando o risco de avançar materialmente sem alcançar a maturidade cívica necessária para sustentar tais avanços ao longo do tempo.

Éberton Guimarães Dias

VIP Éberton Guimarães Dias

Procurador Jurídico, sociólogo e administrador público. Atua há mais de 10 anos em Direito e Gestão, com formação multidisciplinar, especializações USP, UNB, Ufscar, etc.