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Holding familiar resolve a sucessão empresarial?

A sucessão empresarial envolve mais do que a transferência de patrimônio. Sem governança e um bom planejamento societário, os conflitos podem apenas ser adiados.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Atualizado às 08:42

A promessa de simplificação da sucessão, proteção patrimonial e organização dos bens familiares fez com que o instituto da holding familiar passasse a integrar praticamente toda discussão envolvendo continuidade empresarial e preservação do patrimônio, se tornando uma das ferramentas mais utilizadas no planejamento patrimonial e sucessório brasileiro.

Não há dúvida de que a holding familiar representa instrumento relevante de planejamento. Ao concentrar bens e participações societárias em uma única estrutura, permite maior organização patrimonial, facilita a transmissão de quotas aos herdeiros e reduz parte das dificuldades normalmente encontradas em processos sucessórios tradicionais.

Entretanto, uma questão merece reflexão: a constituição de uma holding familiar, por si só, é suficiente para garantir a continuidade da empresa após a sucessão?

Na prática, a resposta frequentemente é negativa.

Muitas famílias empresárias concentram seus esforços na estrutura patrimonial da sucessão, mas deixam em segundo plano um aspecto igualmente importante: a governança das relações entre os futuros sócios.

A transferência do patrimônio pode ocorrer de forma organizada, mas, comumente o desafio surge quando os herdeiros passam a conviver como proprietários da empresa.

Questões relacionadas à distribuição de lucros, reinvestimento dos resultados, ingresso de familiares na gestão, venda de participações societárias e exercício do poder de controle costumam surgir justamente após a sucessão. Em muitos casos, o patrimônio foi adequadamente planejado, mas a convivência societária não.

É nesse momento que se percebe uma distinção fundamental entre planejamento patrimonial e planejamento societário.

Enquanto a holding organiza a titularidade dos bens, ela não necessariamente disciplina a forma como os futuros sócios tomarão decisões ou resolverão seus conflitos.

A experiência demonstra que muitos litígios familiares não decorrem do patrimônio por si só, mas da ausência de regras claras sobre sua administração.

Não é raro encontrar empresas que concluíram complexas reorganizações societárias, realizaram doações de quotas com reserva de usufruto e instituíram cláusulas de incomunicabilidade e inalienabilidade, mas nunca discutiram temas básicos como critérios para ingresso de familiares na administração, quóruns de deliberação ou mecanismos de solução de impasses entre os sócios.

O resultado costuma ser previsível: a sucessão patrimonial ocorre, mas os conflitos societários permanecem.

Por essa razão, a governança corporativa vem ocupando espaço cada vez mais relevante nas empresas familiares. Mais do que organizar bens, se torna necessário organizar expectativas, responsabilidades e processos decisórios como forma de viabilizar a perenidade da organização.

Nesse contexto, instrumentos como acordos de sócios, protocolos familiares e regras de governança passam a desempenhar papel complementar à holding familiar, contribuindo para reduzir incertezas e aumentar a previsibilidade das relações entre os membros da família empresária.

A sucessão não deve ser compreendida apenas como a transmissão de patrimônio. Trata-se da transferência de poder, responsabilidades e decisões que influenciarão o futuro do negócio.

Talvez o maior equívoco das famílias empresárias seja acreditar que o conflito nasce com a sucessão. Na realidade, ele costuma surgir muito antes, apenas permanece invisível enquanto existe uma figura central capaz de concentrar decisões e acomodar divergências. Quando essa figura deixa de existir, os problemas aparecem com rapidez e intensidade surpreendentes.

Por isso, a pergunta mais importante não é quem herdará a empresa, mas se a empresa está preparada para ser herdada. Afinal, patrimônios são transferidos por documentos. Empresas familiares sobrevivem por meio de planejamento, governança e regras capazes de manter unidas pessoas que, apesar de pertencerem à mesma família, nem sempre compartilham os mesmos interesses.

Ana Paula Balzan Rossi

VIP Ana Paula Balzan Rossi

Advogada e sócia-fundadora do escritório Balzan & Rossi Advogados. Especialista em Direito Processual Civil, Empresarial Societário e Imobiliário. Mestranda com ênfase em Governança Empresarial.