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O fenômeno dos textos jurídicos assinados por qualquer um ou ninguém

No Direito, o modo como alguém escreve faz parte da autoridade: para que esse traço não se perca, o editor não pode pesar a mão, e precisa voltar à entrevista para dar vida ao que recebe direto de IA.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Atualizado às 14:02

Em qualquer ramo do Direito existem nomes cuja escrita você reconhece antes de chegar ao rodapé. Um jeito de armar o argumento, uma cadência, certa teimosia em algumas palavras. Antes de ornamento, isso são traços autorais que ajudam na consolidação da autoridade: o leitor identifica quem está falando e confia antes de conferir a assinatura.

Acontece que esses traços são mais frágeis do que parece. Eles costumam morrer num lugar que quase ninguém fiscaliza.

Faça o teste com qualquer texto: cubra o nome no alto de um artigo ou de um parecer e veja se ainda dá para dizer quem escreveu. Se o autor desaparece junto com a assinatura, não havia voz ali. Havia um texto correto que qualquer colega de mesmo nível poderia ter entregado. O desconforto é perceber onde esse apagamento acontece. Raramente na captação: na entrevista, no áudio gravado a caminho do fórum, no primeiro rascunho. Quase sempre depois, na edição.

Editar puxa para um lado só. Apara o que sobra e uniformiza o que destoa. Um texto bem aparado pela régua de sempre é, por definição, um texto sem dono. O paradoxo do ofício está aí: quanto mais competente a edição parece, mais ela apaga o autor. Corrigir e achatar viram a mesma coisa quando o editor não está atento.

A dificuldade real é que defeito e voz às vezes se confundem. A muleta verbal sai, o lugar-comum doutrinário repetido sem pensar sai, mas a repetição que o autor faz porque é assim que ele raciocina fica. A hesitação que não é insegurança, e sim a forma dele de encarar uma questão difícil, também. O copidesque marca as duas como erro. Editar voz é saber qual desses "erros" é o único sinal de presença, ou seja, de que existe gente no texto.

A régua para essa decisão não está em nenhum manual de redação. Está na maneira como o jurista argumenta quando ninguém está formatando a fala dele. A pergunta da edição não pode ser apenas se "está correto", precisa ser: "soa como ele?" Quem não separa as duas coisas se refugia no padrão de segurança, persegue a correção e achata sem perceber que está achatando.

A IA tornou a atenção do editor ainda mais fundamental. Isso porque o que a máquina devolve já vem pré-uniformizado, com a média embutida e a competência média pronta. Aí, o trabalho do editor inverteu. Não é mais empurrar o texto rumo à competência, porque disso a máquina dá conta rápido demais. É desfazer essa média e devolver ao texto a marca que faz o leitor saber de quem é antes de ler o nome. Para isso, a solução é voltar à entrevista com o autor.

O custo de errar é maior do que parece. Um texto cru, com a voz certa, se conserta numa tarde. Um texto bem escrito com a voz errada pode passar sem que ninguém estranhe, e vai se somando, edição após edição, até o dia em que o autor não soa mais como ele em parte alguma. E nem ele sabe quando deixou de soar. O texto falso bem-acabado é mais perigoso que o erro escancarado: o erro pede conserto, a falsificação pede elogio.

Por isso, as edições de que mais me orgulho são aquelas em que resisti a consertar. Deixei no texto algo que eu poderia corrigir, mas corrigir custaria a única coisa que valia a pena manter. Nunca temos certeza absoluta de onde passa a fronteira entre a muleta e o traço de pensamento. Ela se move a cada autor, às vezes a cada peça. Talvez seja isso o que separa quem revisa de quem edita voz: conviver com essa dúvida, em vez de fugir dela para a régua.

Desenvolvi esse argumento por inteiro na edição desta quinzena da newsletter da Cellera, a Authority Brief.

Cesar Roberto de Lima e Silva Junior

VIP Cesar Roberto de Lima e Silva Junior

Editor de Reputação | Há 25+ anos, transformo complexas reflexões de liderança em posts claros para o LinkedIn, cursos por email, newsletters e artigos | Sócio da Cellera Comunicações