O melhor interesse da criança deve ser a prioridade nas separações judiciais?
Do ponto de vista psicológico, quando o melhor interesse da criança não é observado, podem surgir consequências significativas para seu desenvolvimento.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
Atualizado às 11:25
As separações e disputas familiares envolvendo guarda e convivência exigem que o Poder Judiciário tome decisões que impactam diretamente a vida de crianças e adolescentes. Atualmente, o princípio que orienta essas decisões é o do melhor interesse da criança, que determina que as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais dos filhos devem prevalecer sobre os interesses dos adultos. Essa visão ganhou força no Brasil a partir da CF/88, que estabeleceu a proteção integral à infância, e foi consolidada pelo ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, que reconheceu crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e prioridade absoluta nas políticas públicas e decisões judiciais.
Na prática, isso significa que juízes não analisam apenas os direitos dos pais, mas principalmente aquilo que proporcionará mais estabilidade, segurança e qualidade de vida para os filhos. Em uma disputa de convivência, por exemplo, não basta avaliar quanto tempo cada genitor deseja passar com a criança. É preciso considerar fatores como rotina escolar, distância entre as residências, vínculos afetivos, atividades sociais e o impacto emocional das mudanças constantes.
Do ponto de vista psicológico, quando o melhor interesse da criança não é observado, podem surgir consequências significativas para seu desenvolvimento. Quando as necessidades emocionais, afetivas, sociais e educacionais da criança deixam de ser prioridade durante uma separação ou disputa familiar, os reflexos podem aparecer de diversas formas. Entre os sinais mais frequentes estão a queda no rendimento escolar, dificuldades de relacionamento com colegas e professores, ansiedade, insegurança, tristeza persistente, conflitos de lealdade entre os pais, dificuldade para expressar sentimentos, comportamentos regressivos e problemas de autoestima.
Em situações marcadas por elevado grau de conflito, manipulação emocional ou exposição constante às disputas dos adultos, algumas crianças podem desenvolver quadros psicológicos ou psiquiátricos mais graves. Outras, embora aparentem estar bem e adaptadas à situação, vivem um intenso sofrimento emocional, tentando agradar ambos os pais ao mesmo tempo e evitando demonstrar seus verdadeiros sentimentos por medo de gerar novos conflitos ou decepcionar uma das partes. Por isso, é fundamental que as decisões judiciais e familiares estejam sempre voltadas para a proteção e o bem-estar da criança, minimizando os impactos emocionais que podem comprometer seu desenvolvimento saudável.
Diante dessa realidade, a Justiça frequentemente recorre à perícia psicológica e ao estudo social para compreender de forma ampla a dinâmica familiar. Essas avaliações analisam as condições emocionais dos envolvidos, os vínculos estabelecidos e os fatores que podem favorecer ou prejudicar o desenvolvimento da criança. A escuta da criança e do adolescente também é considerada fundamental, desde que realizada de forma técnica e adequada à sua idade e nível de desenvolvimento, permitindo que seus sentimentos e necessidades sejam compreendidos sem que ela assuma a responsabilidade pela decisão judicial.
Embora a prioridade seja a proteção dos filhos, isso não significa afastar um dos pais. Salvo situações que envolvam abuso, violência ou risco à integridade da criança, a convivência equilibrada com ambos os genitores costuma ser considerada essencial para um desenvolvimento saudável. A participação conjunta nas decisões importantes da vida dos filhos fortalece vínculos afetivos, promove segurança emocional e contribui para relações familiares mais estáveis e protetivas.
Nesse contexto, a psicologia desempenha papel fundamental ao auxiliar o Judiciário e as famílias na compreensão das necessidades da criança. Mais do que resolver disputas entre adultos, o objetivo é garantir que cada decisão preserve o desenvolvimento emocional, social e psicológico daqueles que são os mais vulneráveis em um processo de separação: os filhos. Dessa forma, o princípio do melhor interesse da criança deixa de ser apenas um conceito jurídico e se torna uma ferramenta essencial para assegurar que crianças e adolescentes possam crescer em ambientes que favoreçam sua saúde emocional, sua segurança e seu pleno desenvolvimento.
