Ser mãe ou pai vai muito além da capacidade de gerar um filho
A construção do vínculo afetivo depende de presença, disponibilidade emocional, cuidado contínuo e responsabilidade.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Atualizado às 10:12
Recentemente, um caso julgado pela Justiça de São Paulo trouxe à tona um debate delicado sobre maternidade, vínculos afetivos e os limites entre a verdade biológica e a realidade emocional. Uma mulher de 28 anos, vítima de graves abusos durante a infância, solicitou a retirada do nome da mãe de sua certidão de nascimento. A Justiça autorizou a exclusão do sobrenome materno, mas negou a retirada completa do nome da mãe do campo de filiação, fundamentando a decisão no princípio da veracidade registral e na máxima do Direito Romano mater semper certa est ("a mãe é sempre certa"). Segundo o entendimento judicial, o registro civil deve retratar a origem biológica e não pode apagar fatos históricos.
A defesa da jovem recorreu da decisão, argumentando que obrigá-la a manter o nome da agressora em seus documentos representa uma violação de sua dignidade e de sua saúde mental. Independentemente do desfecho jurídico, o caso nos convida a refletir sobre um tema ainda cercado de tabus: a idealização da maternidade e da paternidade.
A sociedade costuma transmitir a ideia de que o nascimento de um filho desperta, automaticamente, um amor incondicional e um profundo sentimento de realização. Essa expectativa, amplamente reforçada pela cultura, pela mídia e até pelas relações familiares, ignora uma realidade muito mais complexa. Nem toda gestação é planejada ou desejada, e nem todas as pessoas possuem disponibilidade emocional e mental para exercer a parentalidade. Isso é ainda mais forte quando se trata do amor de uma mãe por um filho. É o mito do amor materno, aquele amor incondicional que a mãe deve ter por quem gerou.
Ser mãe ou pai vai muito além da capacidade biológica de gerar um filho. A construção do vínculo afetivo depende de presença, disponibilidade emocional, cuidado contínuo e responsabilidade. O amor parental não nasce obrigatoriamente com o parto; ele pode ser construído na convivência diária, assim como também pode nunca se desenvolver quando não existem condições psíquicas para isso, como foi o caso da moça de São Paulo, que conviveu com uma mãe abusiva e agressora. Em muitos casos, crianças são geradas por pessoas que apresentam sérios comprometimentos psíquicos para viver em sociedade, como o caso de pais que cometem crimes contra seus filhos.
Mesmo em casos não extremos como o citado, vale lembrar que o vínculo parental é construído na relação. Alimentar, acolher, proteger, brincar, estabelecer limites e oferecer segurança emocional são experiências que fortalecem o apego e favorecem o desenvolvimento saudável da criança. O amor não é apenas um sentimento espontâneo; ele também é fruto do investimento afetivo cotidiano.
É importante lembrar, ainda, que a maternidade, mesmo em mulheres afetuosas com seus filhos, costuma ser acompanhada por sentimentos ambivalentes. Especialmente no período pós-parto e durante a amamentação, muitas mulheres vivenciam medo, insegurança, exaustão, tristeza e até rejeição temporária ao novo papel. Muitas vezes, essas emoções são frequentemente incompatíveis com a imagem romantizada da "mãe perfeita", gerando culpa e sofrimento. Existe um grande conflito entre a maternidade idealizada e a maternidade real.
Enquanto persistirmos na crença de que toda mulher nasce naturalmente preparada para amar e cuidar de um filho, continuaremos invisibilizando e negligenciando a importância da construção consciente da maternidade, além de abrir espaço para decisões judiciais, como a citada aqui neste artigo, que legitimam a permanência do vínculo formal com uma mãe abusadora na certidão de nascimento apenas em razão da maternidade biológica, sob o argumento de que o registro civil deve retratar a origem biológica e não pode apagar fatos históricos.
Crianças necessitam de adultos disponíveis para construir vínculos de confiança, acolhimento e proteção. Precisam de amor genuíno, cuidado consistente e responsabilidade emocional e não da manutenção de uma idealização que, muitas vezes, não corresponde à realidade.
