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O futuro da advocacia passa pela profissionalização da gestão

O artigo destaca a profissionalização da gestão em escritórios de advocacia, unindo estratégia, tecnologia e liderança para crescimento sustentável.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Atualizado em 7 de agosto de 2026 17:43

Durante muitos anos, o diferencial competitivo dos escritórios de advocacia esteve concentrado na excelência técnica de seus profissionais. Esse atributo continua sendo indispensável, mas já não é suficiente para sustentar o crescimento de organizações que atuam em um mercado cada vez mais complexo, competitivo e orientado por eficiência.

Hoje, os desafios da advocacia vão muito além da interpretação da lei. Escritórios precisam administrar pessoas, desenvolver lideranças, incorporar tecnologia, acompanhar indicadores, estruturar processos, fortalecer a governança e criar estratégias de crescimento sustentável. Em outras palavras, precisam ser geridos como empresas, sem abrir mão da qualidade técnica que caracteriza a profissão.

Apesar dessa mudança de cenário, ainda é comum encontrar escritórios em que os próprios sócios acumulam a responsabilidade pela gestão administrativa, financeira e estratégica, ao mesmo tempo em que conduzem negociações, atendem clientes e lideram equipes jurídicas. Embora esse modelo tenha funcionado durante muitos anos, ele se mostra cada vez mais limitado diante das exigências atuais do mercado.

Foi justamente a partir dessa percepção que iniciamos um processo de profissionalização da gestão. A decisão de separar a gestão executiva da atuação técnica dos sócios permitiu que cada liderança concentrasse seus esforços naquilo em que gera mais valor para o escritório. Enquanto os sócios passaram a dedicar mais tempo ao relacionamento com clientes, ao desenvolvimento jurídico e à estratégia institucional, a gestão executiva assumiu a responsabilidade pela organização dos processos, pelo planejamento e pela condução das iniciativas de crescimento.

Como administradora e especialista em Gestão Estratégica, sempre acreditei que a advocacia tem muito a ganhar ao incorporar metodologias consolidadas da Administração. Ao longo da minha trajetória, participei da implantação de práticas inspiradas no MEG - Modelo de Excelência da Gestão em diferentes escritórios, experiência que demonstrou, na prática, que ferramentas de gestão não substituem o conhecimento jurídico - elas potencializam sua capacidade de gerar resultados.

Essa visão também orientou projetos de redesenho de processos que proporcionaram ganhos expressivos de produtividade em equipes jurídicas. Mais do que eficiência operacional, essas iniciativas mostraram que uma estrutura organizada libera tempo para aquilo que realmente diferencia um escritório: a qualidade técnica, a inovação e a proximidade com o cliente.

Outro passo importante foi fortalecer a cultura de sociedade. Quando os sócios deixam de olhar apenas para suas áreas de atuação e passam a compartilhar responsabilidades sobre o futuro da organização, as decisões tornam-se mais consistentes, o engajamento aumenta e a estratégia ganha força.

Esse movimento também exigiu maior organização das áreas de negócio. Estruturamos nosso portfólio de serviços, fortalecemos a atuação comercial, ampliamos as oportunidades de integração entre as equipes e criamos uma área dedicada à inovação. Hoje, projetos estratégicos, automação de processos e iniciativas envolvendo IA são conduzidos de forma estruturada, com planejamento, cronogramas e acompanhamento permanente.

Na mesma direção, implantamos uma área de qualidade e melhoria contínua, responsável por mapear processos, revisar procedimentos, acompanhar indicadores e transformar problemas recorrentes em oportunidades de evolução. Mais do que padronizar rotinas, esse trabalho fortalece a governança e reduz riscos operacionais.

Outro aprendizado importante foi compreender que uma gestão eficiente depende, sobretudo, das pessoas. Desenvolver lideranças, investir na formação dos gestores e estimular o benchmarking com outras organizações tornaram-se práticas permanentes. Afinal, inovação não nasce apenas da tecnologia, mas da disposição para aprender, adaptar boas práticas e promover mudanças de forma contínua.

A IA, por exemplo, já ocupa um espaço relevante na transformação da advocacia. No entanto, sua adoção isolada não resolve os desafios de um escritório. Sem processos bem definidos, indicadores confiáveis e uma cultura organizacional estruturada, a tecnologia tende apenas a acelerar ineficiências que já existiam.

Ao longo dessa jornada, ficou evidente que profissionalizar a gestão não significa aproximar a advocacia do mundo empresarial em detrimento de sua essência. Significa criar as condições necessárias para que o conhecimento jurídico alcance seu máximo potencial.

Acredito que esse seja um caminho sem volta. Os escritórios que estarão mais preparados para os desafios dos próximos anos serão aqueles que compreenderem que excelência técnica e excelência em gestão não competem entre si. Pelo contrário: caminham lado a lado e são igualmente essenciais para construir organizações mais sustentáveis, inovadoras e preparadas para o futuro.

Ana Zunino

Ana Zunino

CEO do escritório Lara Martins Advogados.