MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. Banca 100% IA #1: Desmontei uma banca de 80 advogados, 120 mil processos depois

Banca 100% IA #1: Desmontei uma banca de 80 advogados, 120 mil processos depois

Artigo revela a decisão de encerrar a estrutura tradicional e reconstruir o escritório como operação automatizada. O primeiro artigo da série sobre a banca 100% IA.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Atualizado às 15:16

Toda banca de contencioso massificado guarda, em algum servidor, uma planilha que ninguém quer abrir. A minha eu abri. E o que encontrei nela me levou a fazer o que nenhum manual de gestão de escritórios recomenda: desmontar, peça por peça, uma estrutura que chegou a reunir 80 advogados, espalhada por mais de duas mil comarcas, responsável por um acervo que superou 120 mil processos. Este artigo inaugura uma série sobre o que construí no lugar - uma banca que atende, qualifica, negocia, contrata e cobra sem que nenhum ser humano toque no fluxo, exceto onde o toque humano é a única coisa que importa. Mas antes de explicar o que nasceu, preciso ser honesto sobre o que morreu. E por quê.

Escrevo, de novo, do lugar menos suspeito possível. Quem passou anos na trincheira da defesa bancária conhece o contencioso de massa por dentro: as audiências em série, os prazos em cascata, a logística insana de fazer um advogado comparecer a uma comarca a quatro horas de estrada de qualquer aeroporto. Conheci esse mundo no seu auge e no seu esgotamento. E a primeira verdade incômoda desta série é esta: o modelo tradicional de banca massificada não quebra por falta de processo - quebra por excesso de gente.

A fábrica invisível

Ninguém conta isso nas palestras de inovação, então conto eu. Uma banca de contencioso de volume não é um escritório de advocacia no sentido romântico da expressão: é uma fábrica. Há uma esteira de entrada (a distribuição), uma linha de produção (as peças), um controle de qualidade (a revisão), uma expedição (o protocolo) e um pós-venda (o cumprimento de sentença alheio). O que a distingue de qualquer fábrica do mundo físico é que toda a sua linha de produção é feita de pessoas - e pessoas, ao contrário de máquinas, têm férias, rescisões, vaidades, dias ruins, propostas da concorrência e, sobretudo, canetas próprias.

Faça as contas comigo, amigo leitor, porque a aritmética é impiedosa. Cada advogado da estrutura carrega, além dos honorários, o custo integral da sua existência corporativa: estação de trabalho, licenças de software, supervisão, treinamento, o tempo de gestão consumido para mantê-lo produtivo e alinhado. Esse custo é fixo, vence todo dia 5 e não negocia. A receita, em contrapartida, é variável, sazonal e disputada centavo a centavo em um mercado que remunera o ato processual como commodity. Quando o volume sobe, contrata-se às pressas e a qualidade despenca; quando o volume cai, a folha continua lá, imóvel, comendo a margem com a serenidade de quem sabe que vai ganhar. O ponto de equilíbrio de uma banca de massa é uma linha que se move todos os meses - e sempre na direção errada.

Mas o custo visível é o menor dos problemas. O custo invisível tem nome e sobrenome: gestão de advogados. Digo isso com o carinho de quem é um e o realismo de quem geriu dezenas. O advogado é, por formação e por temperamento, um profissional treinado para discordar - é o que fazemos a vida inteira, e é ótimo que seja assim no plenário. Dentro de uma linha de produção, porém, essa virtude vira atrito. Cada associado tem sua tese preferida, seu jeito de escrever, sua convicção inegociável sobre a vírgula do pedido. O resultado é que a mesma contestação, sobre o mesmo contrato, contra a mesma tese, sai da fábrica em oitenta versões diferentes - oitenta parametrizações distintas da mesma realidade, para usar desde já o conceito que atravessará esta série. E quando o associado que dominava determinada carteira pede desligamento, ele não leva apenas a força de trabalho: leva o conhecimento tácito que nunca foi documentado, porque documentar não dá honorário. A banca tradicional é uma organização que esquece. Todo turnover é uma lobotomia parcial.

O escritório já era um algoritmo - Só que péssimo

Foi na pesquisa de mestrado, na Faculdade de Direito da USP, que a ficha caiu por inteiro. Ao estudar os limites da inteligência artificial na decisão judicial, desenvolvi o conceito de "parametrização da realidade": todo sistema de dados converte fenômenos complexos e qualitativos em variáveis mensuráveis, e esse recorte jamais é neutro - quem escolhe os parâmetros escolhe o mundo que o sistema enxerga (e o mundo que ele ignora). Usei o conceito para criticar a triagem algorítmica dos tribunais, que aprende a correlacionar CEP de periferia e gratuidade de justiça com o rótulo de demanda suspeita, reproduzindo exclusão sob o verniz da objetividade.

O que eu não esperava era que o conceito se voltasse contra mim. Porque, olhando para a minha própria operação, a conclusão era inescapável: a banca tradicional já era um algoritmo. Um algoritmo feito de gente. A triagem do caso novo era um estagiário parametrizando a realidade segundo o humor da manhã; a tese aplicável era o associado parametrizando segundo a última decisão que leu; o valor do acordo era o coordenador parametrizando segundo a pressão da meta. Oitenta processadores humanos, cada qual rodando um modelo próprio, não auditável, não versionado, não reprodutível - e caríssimo. O escritório de advocacia convencional é exatamente aquilo que a doutrina crítica condena nos sistemas de IA: uma caixa-preta. A diferença é que a caixa-preta de silício pode ser aberta, testada, corrigida e documentada. A de carne e osso, não - ela pede aumento.

A pergunta, portanto, inverteu-se. A questão nunca foi "a máquina pode substituir o advogado?" - essa é a pergunta errada, e minha dissertação sustenta em 134 páginas por que o ato de julgar, e por extensão o ato de advogar em sua dimensão criativa e argumentativa, é irredutivelmente humano. A pergunta certa é outra: quanto do que uma banca de massa faz é, de fato, advocacia? A resposta honesta: uma fração. O restante - captar, triar, qualificar, agendar, cobrar documento, conferir dado, preencher minuta, emitir cobrança, conciliar pagamento - é operação. E operação parametrizada por gente cansada é o pior dos dois mundos: tem o custo do humano e o descuido da máquina.

O que eu fiz - e a regra que não se negocia

Desmontei a estrutura. Não somente por decadência - por tese. Encerrei o modelo de folha, devolvi as salas, e reconstruí o escritório sobre uma arquitetura em que a inteligência artificial conversa com o cliente, entende o caso, formula as perguntas de qualificação, verifica os requisitos objetivos da tese e conduz o interessado até a proposta - enquanto código determinístico, e não IA generativa, preenche cada documento com os números exatos que o cliente aceitou, sem espaço para alucinação. E aqui está a regra de ouro que governa tudo o que esta série vai descrever, a mesma curadoria ativa e o mesmo controle humano final e significativo que defendi academicamente para os tribunais: texto jurídico não é gerado por máquina. Nunca. Petição, tese, estratégia e decisão de mérito são obra humana, deste que assina. A IA cuida da interface; o código cuida da precisão; o advogado cuida do Direito. Quem automatiza a advocacia erra; quem automatiza a operação da advocacia liberta o advogado para advogar.

Os resultados dessa arquitetura - o funil que atende em segundos a qualquer hora, o contrato assinado eletronicamente sem cartório, a cobrança conciliada por webhook antes de qualquer planilha - serão dissecados um a um nos próximos artigos, com a franqueza técnica que devo aos colegas: API oficial do WhatsApp, assinatura eletrônica e sua validade jurídica, integração bancária, triagem com trilha de auditoria, LGPD e sigilo profissional, os limites publicitários do Provimento 205/21 da OAB. Nada de promessa milagrosa: método, arquitetura e os erros que cometi para que o leitor não precise cometê-los.

Há duzentos anos formamos advogados para um mundo de papel. O Judiciário, como sustentei nestas páginas há poucos dias, vem usando a tecnologia para filtrar quem entra. A advocacia pode usá-la para o movimento oposto: derrubar o custo que separa o cliente do seu direito. Uma banca de 80 advogados parametrizava a realidade oitenta vezes por dia, ao acaso e a peso de ouro. A banca que construí parametriza uma vez, às claras, sob controle humano - e atende quem antes não seria atendido. Entre um algoritmo de gente que ninguém audita e um sistema de máquina que eu audito todos os dias, fiquei com o segundo.

No próximo artigo, a fronteira exata: o que a IA pode fazer na advocacia - e o que ela jamais deve tocar.

Danilo Aragão Santos

VIP Danilo Aragão Santos

Bacharel e Mestre em Direito pela USP. Graduado em Administração pela FGV/EAESP. Gestor de toda a operação do DAS Advogados, Danilo atua desde 2014 nas áreas de Direito Bancário e Tecnologia.