Legal Operations valoriza trabalho intelectual e turbina área jurídica
A gestão jurídica moderna integra pessoas, processos, tecnologia e dados para tornar o setor mais eficiente, estratégico e alinhado aos negócios.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Atualizado às 16:49
Embora seja importante medir a eficiência de um departamento jurídico pela qualidade técnica de suas entregas, o cenário atual exige um olhar muito mais amplo. A pressão por redução de custos, aumento da produtividade, digitalização de processos e necessidade de respostas mais ágeis fizeram com que empresas passassem a enxergar área também como estratégica para os negócios.
Nesse contexto, ganha força o conceito de Legal Operations. Trata-se de uma abordagem voltada à organização, gestão e aprimoramento das operações jurídicas, por meio da combinação entre pessoas, processos, tecnologia, indicadores de desempenho e boas práticas de administração.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, Legal Operations não substitui o trabalho dos advogados dos departamentos jurídicos, nem altera a essência de sua atuação. Seu objetivo é criar condições para que os profissionais possam dedicar mais tempo às análises técnicas e estratégicas, reduzindo atividades operacionais e tornando a gestão mais eficiente.
A prática envolve diferentes frentes. Dentre elas, estão o mapeamento e a padronização de processos internos, a definição de indicadores de performance (KPIs), gestão de contratos e fornecedores, implantação de ferramentas tecnológicas, automação de fluxos de trabalho, acompanhamento de custos jurídicos e desenvolvimento de modelos de governança.
Essa estrutura permite principalmente que decisões deixem de ser tomadas apenas com base em percepções e passem a considerar dados concretos. Um departamento jurídico consegue, por exemplo, identificar gargalos operacionais, acompanhar o tempo médio de conclusão de demandas, medir o desempenho de fornecedores e correspondentes parceiros, prever necessidades orçamentárias e avaliar as oportunidades de melhoria.
O avanço da transformação digital também contribuiu para ampliar a importância do tema. Soluções de inteligência artificial, softwares de gestão jurídica, automação documental e plataformas de análise de dados passaram a integrar a rotina de departamentos jurídicos de empresas de diferentes portes. No entanto, a adoção dessas tecnologias sozinhas não garante resultados. É justamente nesse ponto que a área de Legal Operations desempenha um papel relevante, ao estruturar processos capazes de extrair valor e eficiência através das ferramentas disponibilizadas.
Outro aspecto importante é aproximação crescente entre o setor jurídico e as demais áreas da organização. Hoje, decisões relacionadas às gestões de riscos, compliance, finanças, tecnologia e governança exigem uma atuação integrada frequente. Com uma visão orientada por processos e indicadores, Legal Operations contribui para que o departamento jurídico possa dialogar de modo mais eficiente com essas áreas, colaborando ativamente para as decisões estratégicas do negócio como um todo.
Esse movimento também acompanha uma mudança no perfil esperado dos profissionais do setor. Além do conhecimento jurídico, agora cresce também a demanda por competências relacionadas à gestão de projetos, análise de dados, inovação e planejamento. Essa multidisciplinaridade passa a ser um diferencial importante para equipes jurídicas que têm como objetivo responder aos desafios de um ambiente cada vez mais complexo e dinâmico.
No mercado financeiro e em grandes empresas, nas quais o volume de contratos, processos e obrigações regulatórias tende a ser elevado, a adoção de práticas de Legal Operations pode representar ganhos significativos em eficiência, previsibilidade e controle. Ao estruturar melhor os fluxos de trabalho, é possível reduzir significativamente o retrabalho, aumentar a transparência das informações e fortalecer o conceito de governança corporativa.
O Legal Operations implica mudanças na forma como a atividade jurídica é administrada. Ao incorporar conceitos de gestão empresarial ao universo do Direito, torna os departamentos jurídicos mais organizados, orientados por dados e alinhados às necessidades estratégicas das organizações, sem perder de vista o rigor técnico que continua caracterizando a advocacia.
Marina Mariotti
Coordenadora de Legal Operations no Reis Advogados.