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Reflexão do caso Craíbas

"A Odisseia" é relacionada à luta dos moradores de Craíbas, destacando a perda do lar, do pertencimento e a busca por justiça e segurança.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Atualizado às 16:37

Há poucos dias eu li nas redes sociais que "A Odisseia" também teria a sua versão em filme. Ora, eu fiquei empolgada, isso virou assunto entre mim e alguns conhecidos, afinal o que faz uma história escrita há 2.800 anos continuar sendo adaptada e sentida como atual?

Tenho tendências a buscar na filosofia caminhos para compreender o mundo, para lidar com as pessoas e também para me fortalecer em meu trabalho como defensora pública. E "A Odisseia" é um clássico que desde a adolescência me ensina sobre vínculos, enfrentamentos, sobre o quanto a glória não é suficiente.

E claro, histórias tão complexas, a cada releitura, são visitadas nos pontos que damos conta e precisamos de nos conectar. Neste momento, "A Odisseia" me prende fortemente no que diz respeito ao lar, aos desafios enfrentados por Odisseu ao fazer de tudo para voltar para sua casa e sua família.

E digo isso porque tenho atuado na tutela coletiva, especificadamente em uma região no Agreste Alagoano que sofre os efeitos da exploração minerária desde 2020. Após meses contínuos de escuta de atingidos, estou constantemente revisitando ideias, aprendendo a ouvir o que cada um entende como moradia e pertencimento.

O direito à moradia está consagrado em nossa Carta Constitucional como direito social de todos. E quando a Constituição assim o prescreveu, também deixou claro que o Estado deveria criar políticas públicas para garantir habitação digna, não bastando garantir um teto para o indivíduo.

Mas o que fazer quando é o próprio Estado que licencia empreendimento altamente degradante, sem ouvir a população envolvida, sem fixar condicionantes que protejam o direito à moradia segura para cada nativo? A população de Craíbas hoje vivencia suas casas sendo trincadas, rachadas, interditadas pela Defesa Civil sem nenhum apoio financeiro ou psicológico.

A mineradora se instalou na área licenciada e está protegida. Mas as tarefas de terras que abrigam histórias de famílias que pertencem àquele local, já não podem mais ser o abrigo dos craibenses. O que se passa de geração em geração não é mais o sentido de lar, mas o fracasso, a certeza de que não estão sendo vistos e de que não há quem se importe, afinal, os recursos não são investidos na melhoria de vida dos habitantes, muito menos se pode chamar de sustentável um desenvolvimento que não repercute no modus de vida de cada cidadão.

Craíbas não possuía atividade industrial antes da implantação de uma mineradora. As famílias, em grande parte, pescavam, plantavam e, quando os filhos cresciam, bastava construir mais uma casa no terreno, pois ali era o lar de todos. As casas são simples, muitas construídas há mais de 20, 40 anos, mas permaneceram intactas até o início das atividades da mineradora. E ainda há os que negam o nexo causal entre a atividade minerária e as rachaduras.

"A Odisseia" merece um filme, pois diferente de "Ilíada", não é uma temática de guerra, mas sim sobre o que vem depois dela. Odisseu não está mais lutando por glória, mas simplesmente faz qualquer coisa para voltar para casa, superando a feiticeira Circe, as Sereias, os Ciclopes e o Reino dos Mortos. Retorno, reencontro e reconstrução só podem acontecer se Odisseu conseguir sobreviver à viagem sem se desintegrar dentro dela.

Existe uma tensão entre quem foram e quem se tornaram os moradores de Craíbas após a implantação de uma mineradora no centro da comunidade. Assim como em "A Odisseia" se entende que casa não é simplesmente um endereço, os moradores de Craíbas já sentem que estão perdendo a atualização de suas memórias, os que partem abandonam tudo e não se pode esperar por eles, não têm como renovarem vínculos se o reencontro está fadado a inexistir.

São pessoas aniquiladas em seus pertencimentos e isso se vê facilmente em uma conversa aleatória na qual uma moradora contou sobre a dor de perder o seu marido, doente de uma depressão, após serem obrigados a sair da casa interditada, casa esta que moraram por 30 anos. O lar é uma ideia e não um lugar, mas como se pode ter qualquer tipo de ideação quando se é expulso da própria casa?

E talvez seja por isso que "A Odisseia" é atual para mim. Seja em forma de peça, de poema ou de filme. A pergunta que mais importa seria sobre quem são aqueles moradores de Craíbas após a implantação da mineradora, milhares de pessoas que não têm motivos para confiar que terão suas casas seguras de novo, que vivem diuturnamente sabendo que não poderão plantar o fumo e viverem com seus descendentes de várias gerações na mesma tarefa de terra, como era de costume.

Odisseu voltou para casa, onde estava seu coração. Ele pôde pisar em um solo seguro depois de toda sua jornada de navegação e sobrevivência. Eu também sonho que os craibenses possam estar seguros em suas casas, que os que foram expulsos, retornem.

É preciso "reflorestar as mentes" através do defensorar de cada dia. O progresso deve estar a serviço da vida e não da destruição do meio ambiente no qual uma comunidade inteira esteve inserida por décadas. Meio ambiente que hoje se apresenta com uma pilha de estéril no quintal de casa ou com uma barragem de rejeito acima de uma população ribeirinha.

E assim, no espírito de "A Odisseia", confio que meu papel institucional seja como o dos feácios, que transportaram Odisseu em um de seus navios até o solo grego. É pelo lar de cada craibense que eu continuarei lutando, pois é a vida de cada um dos integrantes destas casas o coração de toda demanda ajuizada para efetivar o desenvolvimento sustentável daquela região.

Brígida Barbosa de Souza

Brígida Barbosa de Souza

Defensora pública de Alagoas.