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Helaena Targaryen: (sobre)Viver

Na ficção dramática de "A Casa do Dragão", Helaena Targaryen verbaliza uma acusação devastadora antes de saltar das muralhas da corte: "Você acha que viver é apenas não estar morta".

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Atualizado às 13:27

Um necessário Setembro Amarelo: O direito de viver (e não o de apenas sobreviver)

Todo mês de setembro, o espaço público e os corredores dos tribunais são tomados por laços amarelos, iluminações temáticas e campanhas institucionais de conscientização. Sob a justificativa da urgência na preservação da vida, erguem-se discursos e cartilhas que apelam à permanência a qualquer preço. Contudo, há um silêncio sintomático nesse coro uníssono: as campanhas tradicionais costumam erguer muros onde deveriam abrir janelas. Reduzem o mistério do existir à mecânica fria do respirar, tratando o abismo do sofrimento psíquico como mera avaria biológica ou falha técnica na engrenagem - um descompasso químico a ser medicado, e não um clamor ético que interpela a própria estrutura do mundo.

Na ficção dramática de A "Casa do Dragão", Helaena Targaryen verbaliza uma acusação devastadora antes de saltar das muralhas da corte: "Você acha que viver é apenas não estar morta". A frase, inspirada no clássico julgamento de Joana d'Arc por Bernard Shaw, desmascara a farsa do poder. O cárcere dinástico exigia que Helaena continuasse respirando apenas para cumprir funções reprodutivas e servir de moeda política nas disputas da coroa. Seu corpo precisava permanecer biologicamente vivo, enquanto sua humanidade, sua fala e sua dor eram tratadas como insignificantes. Reduzida à função de peça de reposição, sua permanência orgânica não passava de uma morte continuada.

A interrogação formulada por Albert Camus em 1942, na abertura de "O Mito de Sísifo", ganha aqui a sua dimensão mais contundente: julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é a questão preliminar de toda a reflexão humana. Camus adverte que o suicídio físico carrega a ilusão de extirpar o absurdo da existência, quando na verdade apenas destrói a consciência que o testemunhava. A tarefa humana legítima residiria na revolta e na recusa lúcida em aceitar que o silêncio do universo anule a dignidade do sujeito.

Essa exigência de revolta, no entanto, não opera no vácuo. Não se pode exigir a resistência heroica de Sísifo quando as amarras que o asfixiam são construções sociais concretas. Émile Durkheim, em sua obra clássica "O Suicídio", já demonstrava que o colapso do indivíduo não decorre de uma fraqueza estritamente íntima, mas de fatos sociais objetivos: da falta de pertencimento coletivo (egoísmo), da desorientação das normas em tempos de crise (anomia) ou da opressão de regras implacáveis e desumanas que bloqueiam qualquer futuro (fatalismo).

É nesse ponto que o debate contemporâneo da teoria crítica ilumina o drama existencial. Judith Butler nos ensina que o vínculo primário garante a sobrevivência física da criança, mas o ingresso na vida adulta impõe a necessidade imperiosa de sobrevivência social. Não basta a respiração autômata; o sujeito precisa ser inteligível, reconhecido pelo outro e validado em sua dignidade. Quando as instituições recusam essa escuta, o indivíduo é empurrado para uma morte social que antecede o túmulo.

A essa exigência de reconhecimento, Nancy Fraser acrescenta o imperativo da justiça material. Fraser demonstra que a cidadania plena requer paridade de participação, um princípio universalista que exige condições objetivas de subsistência aliadas à desinstitucionalização de padrões que desvalorizam determinados grupos. Ninguém participa como par na vida social quando é submetido à exaustão, ao desamparo econômico e à invisibilidade perante a lei.

Essa fratura é sensível na realidade brasileira. Os dados do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelam, por exemplo, que as mulheres negras representam 28,5% da população e chefiam mais de um quarto dos lares no país, mas se apropriam de apenas 10,7% da renda do trabalho, arcando desproporcionalmente com a sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado.

Como advertia Angela Davis, as estruturas materiais e culturais da sociedade só se transformam de fato quando as bases dessa pirâmide são alcançadas e postas em movimento. Tratar o adoecimento mental de quem sustenta o peso da base como um problema puramente individual ou "químico" é ignorar que a exaustão psíquica decorre da ausência de paridade material e institucional.

A advocacia e o meio jurídico conhecem de perto o peso dessas engrenagens. Metas desumanas, ritos formais que sufocam a sensibilidade ética e a naturalização de rotinas extenuantes geram uma epidemia silenciosa de esgotamento. O direito não pode funcionar como um tribunal meursaultiano - aludindo ao protagonista de "O Estrangeiro", de Camus -, que condena os sujeitos pelo rompimento com a encenação de equilíbrios artificiais, exigindo que todos desempenhem serenidade enquanto suas estruturas vitais desmoronam.

Um Setembro Amarelo precisa superar a superficialidade dos apelos à conformidade. A preservação da vida não consiste em policiar a respiração do autômato nem em prescrever a permanência sob condições degradantes. A autêntica misericórdia institucional e comunitária não reside em exigir que a máquina continue girando a seco sobre o sofrimento alheio, mas em desarmar as prensas da opressão, democratizar o reconhecimento social e garantir condições materiais que tornem a existência habitável.

Salvar a vida exige, antes de tudo, transformar as condições que a sustentam. É tempo de assumir o compromisso de construir uma ordem jurídica e social onde viver seja, verdadeiramente, muito mais do que apenas sobreviver.

Luiz Vilar De Araújo Neto

VIP Luiz Vilar De Araújo Neto

Parecerista, Professor, Jurista, Perito, Autor, Ativista. Palestrante. Pesquisador certificado no CNJ em SST e relações de trabalho;Compliance e gestão pública; Dir. Internacional. Expert. #TEA