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Produtividade: O que ninguém mede

Com o envelhecimento da população, o Brasil precisará elevar a produtividade para sustentar o crescimento e enfrentar a redução da força de trabalho.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Atualizado às 14:39

Há uma pergunta que o Brasil terá de responder nesta década e para a qual ainda não existe resposta convincente: como fazer cada trabalhador produzir mais quando já não houver trabalhadores de sobra.

Durante quarenta anos o país não precisou respondê-la. Entre 1981 e 2024, segundo o Relatório Anual de Produtividade do FGV Ibre, a renda per capita cresceu 1,0% ao ano e a produtividade por hora trabalhada, 0,5% - e o bônus demográfico respondeu sozinho por 0,4 ponto ao ano. Em 2024, a produtividade do trabalho avançou 0,1%. O pouco que crescemos veio de ter mais gente em idade de trabalhar, não de trabalhar melhor: crescimento por adição.

Essa aritmética se inverte. Pelas Projeções da População do IBGE (Revisão 2024), o país chega ao pico de 220,4 milhões de habitantes em 2041. A leitura que a Fipe fez delas, no boletim de informações 528, é mais dura para quem produz: a faixa de 15 a 59 anos começa a encolher em 2034, e a população em idade ativa cai de 146,8 milhões para 113,6 milhões até 2070. Na década de 1990 havia cinco contribuintes ativos por beneficiário da Previdência; hoje são 1,8, e a FecomercioSP projetou, em maio de 2025, 1,2 em 2050. O país que crescia somando gente terá de crescer subtraindo.

Restam três caminhos: aumentar a participação, atrair imigrantes ou elevar a produtividade. Os dois primeiros têm teto. O terceiro não tem - e é o que menos sabemos fazer. Produtividade é fácil de invocar em discurso e difícil de medir numa empresa real: não há um botão, há fatores, e eles são teimosamente pouco econômicos à primeira vista. É aqui que a discussão brasileira costuma parar - e onde ela deveria começar.

O envelhecimento derruba o produto por um caminho que a intuição não antecipa. No estudo de Nicole Maestas, Kathleen Mullen e David Powell publicado em 2023 no American Economic Journal: Macroeconomics, cada aumento de 10% na parcela da população com 60 anos ou mais reduziu o PIB per capita em 5,5% - dois terços disso pela queda da produtividade, não pela redução do emprego. Uma economia mais velha não produz menos apenas porque tem menos braços: produz menos por braço.

E o que faz produzir menos por braço não está no maquinário. Está na jornada, no absenteísmo, na rotatividade, no adoecimento, no desenho das metas, na qualidade da chefia, no vínculo oferecido. Em novembro de 2025, ao Jornal de Brasília, José Pastore, da FEA-USP, lembrou que o trabalhador formal é cerca de quatro vezes mais produtivo que o informal e que a informalidade não sai dos 40% - 40,8 milhões de pessoas - há uma década. Os determinantes da produtividade de uma firma são, quase todos, relações de trabalho.

E essas relações não são um dado da natureza: foram escritas. Estão em contratos, convenções coletivas, normas regulamentadoras e decisões judiciais. Quando a NR 1, alterada pela portaria MTE 1.419/24, passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais, com autuação possível desde maio de 2026, uma norma de segurança do trabalho passou a governar um fator de produtividade. Quando uma convenção coletiva muda a remuneração variável, reescreve o incentivo de milhares de pessoas. O economista mede o que sai da linha de produção; boa parte do que determina o que sai dali foi assinada antes, em documentos que ele raramente lê - e cujos efeitos econômicos o advogado raramente calcula.

Não propomos aqui um método, mas algo anterior: a pergunta certa ainda não foi feita com o rigor que ela exige. E ela se desdobra em muitas.

Uma empresa sabe qual é a diferença de produtividade entre duas de suas unidades, e quanto dela sobra depois de descontar capital, escala e mix? Sabe quanto lhe custa, em curva de aprendizado perdida, a rotatividade que ela mesma pratica? Consegue dizer o que a última cláusula negociada fez com a produção - não com a folha, com a produção? E, se responder a isso exige ler contrato e norma tanto quanto série estatística, por que seguimos tratando produtividade como assunto de uma disciplina só?

Não são perguntas retóricas: são as que aparecem quando se tenta, de fato, medir.

Em 2034 a força de trabalho brasileira começa a encolher. Até lá, o país ainda tem braço de sobra para financiar a própria transição. O primeiro bônus demográfico foi um presente da natalidade; o segundo, o da produtividade, ninguém recebe: é preciso ir buscar. E não se busca o que não se sabe medir.

Guilhermo A. Pastore

Guilhermo A. Pastore

Economista.

Eduardo Pastore

Eduardo Pastore

Advogado trabalhista.