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Sharenting: quando a infância vira conteúdo

Do ponto de vista psicológico, a questão merece atenção porque a infância é justamente o período em que a identidade, a autoestima e a percepção de valor pessoal estão em formação.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Atualizado às 10:33

O avanço das redes sociais mudou profundamente a maneira como as famílias registram e compartilham suas experiências. Fotografar os filhos, publicar uma apresentação escolar, uma viagem ou uma comemoração tornou-se algo cotidiano. O problema surge quando essa exposição deixa de ser ocasional e passa a fazer parte da própria construção da imagem pública da criança. É nesse contexto que aparece o termo sharenting, utilizado para definir o compartilhamento, por pais ou responsáveis, de imagens, informações e momentos da vida dos filhos na internet.

Do ponto de vista psicológico, a questão merece atenção porque a infância é justamente o período em que a identidade, a autoestima e a percepção de valor pessoal estão em formação. Uma criança que cresce sendo constantemente fotografada, elogiada e apresentada a uma audiência pode aprender, ainda muito cedo, a associar reconhecimento à exposição. Curtidas, comentários e compartilhamentos podem funcionar como sinais de aprovação, criando uma relação delicada entre “ser visto” e “ser valorizado”. Isso não significa que toda criança exposta nas redes desenvolverá problemas emocionais, mas a repetição desse padrão pode contribuir para uma necessidade precoce de aprovação externa.

Existe ainda outro aspecto: a criança pode começar a se identificar com o personagem que os adultos construíram para ela. Se é constantemente apresentada como “a criança perfeita”, “a pequena artista”, “a mais bonita” ou “a criança talentosa”, pode surgir a sensação de que precisa continuar desempenhando aquele papel para manter o reconhecimento recebido. O problema não está no elogio ou no incentivo, mas na possibilidade de a criança passar a acreditar que precisa corresponder permanentemente à expectativa do público. Isso pode comprometer o desenvolvimento da personalidade da criança. A infância deveria permitir experimentação, erros, mudanças, descobertas e até o direito de não querer aparecer.

A questão ganha uma dimensão ainda mais complexa quando a exposição possui finalidade comercial. Quando imagens e vídeos da criança passam a gerar audiência, publicidade, contratos ou remuneração, já não estamos apenas diante de um álbum de família. Surge uma discussão sobre os limites da utilização da imagem de uma pessoa em desenvolvimento. E aqui aparece o gancho jurídico: no Brasil, crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e possuem proteção especial à dignidade, à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem. A autoridade dos pais não deve ser confundida com propriedade sobre a personalidade dos filhos. O fato de os responsáveis autorizarem uma publicação não significa, automaticamente, que qualquer forma de exposição seja adequada ou esteja acima de questionamentos.

Também é preciso considerar que aquilo que é publicado na infância pode permanecer acessível durante muitos anos. Uma fotografia que hoje parece divertida pode ser vista de maneira completamente diferente pela própria pessoa quando adulta. A criança de hoje será o adulto que amanhã terá de conviver com a identidade digital construída, em grande parte, por outras pessoas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante antes de publicar uma imagem infantil não seja apenas “eu posso publicar?”, mas “isso atende ao interesse da criança?”. É diferente registrar uma memória familiar de transformar a infância em conteúdo permanente. Também é diferente compartilhar ocasionalmente uma conquista de utilizar sistematicamente a imagem do filho para gerar audiência, aprovação ou dinheiro. O debate sobre sharenting, portanto, não pretende demonizar os pais nem defender que crianças jamais apareçam nas redes sociais. O objetivo é lembrar que existe uma pessoa por trás daquela imagem, uma pessoa que ainda está construindo sua identidade e que, no futuro, poderá desejar ter escolhido por si mesma aquilo que o mundo conheceria sobre sua infância. Entre o direito dos pais de compartilhar suas experiências e o direito da criança de construir a própria identidade existe uma fronteira que merece ser discutida com responsabilidade psicológica, familiar e também jurídica.

Andreia Soares Calçada

VIP Andreia Soares Calçada

Psicóloga clínica e jurídica. Perita do TJ/RJ em varas de família e assistente técnica judicial em varas de família e criminais em todo o Brasil. Membro do IBDFAM e autora de livros e artigos na área.