MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. O que vem depois da análise jurídica?

O que vem depois da análise jurídica?

O artigo discute como o profissional jurídico pode ir além da análise técnica, traduzindo riscos e contexto para qualificar decisões sem relativizar os limites do Direito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Atualizado às 13:32

Ao longo da minha trajetória profissional, uma situação começou a chamar minha atenção.

Uma demanda chega ao jurídico com uma pergunta aparentemente objetiva. Depois da análise, identifica-se que o caminho inicialmente imaginado não é possível, ou que envolve riscos relevantes. A fundamentação está correta, o problema jurídico foi identificado e a resposta, do ponto de vista técnico, está dada.

Mas, algumas vezes, fica a sensação de que a questão que originou aquela consulta continua ali.

O que aquela área precisava resolver?

Foi a partir dessa inquietação que comecei a pensar com mais cuidado sobre a diferença entre produzir uma boa análise jurídica e conseguir transformar essa análise em uma contribuição útil para quem precisa decidir.

Não vejo essas duas capacidades como opostas. Pelo contrário. A segunda depende da primeira. Sem domínio técnico, não há análise jurídica consistente. O que me interessa é perceber o que acontece depois que o risco, o limite ou a desconformidade são identificados.

Essa reflexão ganhou outra perpectiva quando comecei a olhar para as discussões mais amplas sobre transformação do trabalho.

O que está mudando nas competências profissionais?

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, reuniu respostas de mais de mil empregadores, representando mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias. Segundo o levantamento, 39% das competências atualmente utilizadas pelos trabalhadores deverão ser transformadas ou ficar desatualizadas até 2030.

Naturalmente, diante do crescente impacto da tecnologia, competências ligadas à inteligência artificial, big data, segurança cibernética e letramento tecnológico aparecem entre aquelas cuja importância mais cresce.

Mas o relatório me chamou atenção por outro motivo.

Ao lado das competências tecnológicas continuam aparecendo pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade, liderança, curiosidade e aprendizagem contínua. Ou seja, competências essencialmente humanas. Portanto, a transformação não parece apontar simplesmente para a substituição das competências tradicionais por competências tecnológicas. O movimento é mais complexo e indica que diferentes capacidades passam a precisar conviver.

O estudo não trata especificamente das profissões jurídicas e não deve ser lido como se suas conclusões fossem automaticamente aplicáveis ao Direito. Ainda assim, ele oferece um contexto interessante para uma pergunta que já vinha me acompanhando: o que significa, hoje, estar bem preparado para exercer uma profissão essencialmente técnica?

No Direito, essa pergunta ganha contornos próprios.

Conhecer legislação, jurisprudência, interpretar normas e construir argumentos continua sendo indispensável. Só que boa parte dos problemas que chegam ao jurídico não nasce propriamente no Direito. Surge de uma decisão de gestão, de uma contratação, de um projeto, de uma política pública, de uma relação de trabalho, de uma estratégia empresarial.

O Direito entra porque há uma decisão a ser tomada dentro de determinados limites.

E talvez seja justamente aí que a atuação profissional comece a exigir algo além da identificação desses limites.

Depois de identificar o risco, o que fazemos com ele?

Imagine a seguinte situação: uma área que consulta o jurídico sobre determinada solução.

A análise demonstra que aquela solução, da forma como foi concebida, encontra um obstáculo jurídico relevante. Em algumas situações, essa constatação encerra a questão. Não há alternativa legítima e o papel do jurídico é deixar isso claro.

Em outras, porém, a conclusão de que o caminho A não é possível não significa necessariamente que o objetivo pretendido também seja inviável.

Essa diferença muda a conversa.

Antes de procurar uma alternativa, é preciso entender o que se pretendia alcançar. A partir daí, talvez seja possível identificar outro caminho. Talvez não seja. Pode ser necessário adaptar a proposta, rever o procedimento ou assumir que determinado objetivo não pode ser perseguido daquela forma.

É nesse ponto que tenho associado a atuação jurídica à ideia de qualificação da decisão.

Não se trata de o profissional jurídico decidir no lugar de quem possui competência para isso. Tampouco de encontrar justificativas para decisões previamente tomadas.

Trata-se de oferecer elementos para que a decisão seja tomada com uma compreensão mais clara dos limites, das alternativas e das consequências envolvidas.

Essa diferença parece pequena quando colocada dessa forma. Na prática, exige outro tipo de repertório do profissional do Direito.

Foi justamente por isso que me interessou o projeto Foundations for Practice, do IAALS - Institute for the Advancement of the American Legal System.

A pesquisa original, realizada em 2016 com mais de 24 mil advogados nos Estados Unidos, procurou identificar conhecimentos, habilidades e características importantes para o início da prática profissional. A partir dos resultados, foram estruturadas diferentes categorias de competências.

Entre elas, aparecem separadamente Practitioner e Problem-Solver.

A primeira está relacionada à capacidade de pesquisar, sintetizar, analisar e aplicar o Direito. A segunda, à capacidade de lidar com problemas imediatos e de longo prazo considerando os diferentes envolvidos.

Essa separação me parece particularmente interessante porque ajuda a nomear algo que a prática profissional revela com frequência: saber analisar juridicamente uma questão e saber trabalhar a partir dessa análise para enfrentar um problema são capacidades próximas, mas não exatamente iguais.

É importante colocar a pesquisa em perspectiva. O estudo é de 2016, o próprio IAALS está atualmente revisitando o trabalho por meio do Foundations for Practice 2.0 e, além disso, trata-se de uma investigação realizada em um mercado distinto do brasileiro. Portanto, ela não deve ser utilizada como retrato estatístico da advocacia atual no Brasil.

O que ela oferece, para esta reflexão, é uma distinção conceitual.

E essa distinção leva a uma pergunta mais interessante do que simplesmente discutir se a formação jurídica é ou não adequada: em que momento aprendemos a transformar conhecimento técnico em capacidade de lidar com problemas reais?

Qualificar a decisão não é relativizar o Direito

Essa discussão exige um cuidado.

Quando se fala em aproximar o jurídico do negócio ou da tomada de decisão, é fácil produzir uma interpretação que considero equivocada: a de que um jurídico mais estratégico seria aquele capaz de encontrar uma maneira de viabilizar qualquer pretensão.

Não é disso que estou falando.

Há situações em que a contribuição mais importante do jurídico será justamente demonstrar que determinado caminho não pode ser adotado. Independência técnica também significa sustentar uma conclusão quando ela contraria a solução inicialmente pretendida.

A diferença está no que acontece ao redor dessa conclusão.

Dizer que algo não pode ser feito pode ser suficiente. Mas, quando existem alternativas legítimas, compreender o problema que está por trás da demanda permite que a análise avance: quais caminhos permanecem disponíveis? Que riscos cada um deles envolve? Há medidas capazes de reduzir esses riscos? Existem consequências financeiras, operacionais ou reputacionais que precisam ser consideradas por outras áreas?

Nem todas essas perguntas serão respondidas pelo jurídico. Na verdade, muitas delas não deveriam ser.

Isso não diminui a importância da atuação jurídica. Apenas reconhece que problemas organizacionais raramente cabem integralmente dentro das fronteiras de uma única área.

No setor público, essa distinção se torna ainda mais importante.

Construir alternativas não significa procurar maneiras de contornar competências, procedimentos ou princípios que condicionam a atuação administrativa. Significa justamente compreender esses limites e, dentro deles, verificar se existem caminhos juridicamente possíveis para alcançar determinado objetivo.

Às vezes existirão. Em outras situações, não.

Saber fazer essa distinção talvez seja uma das manifestações mais concretas da maturidade profissional.

Do risco como obstáculo ao risco como informação para a decisão

Foi nesse contexto que encontrei um caso apresentado em 2026 pela CLOC - Corporate Legal Operations Consortium.

Ao relatar a transformação de um departamento jurídico, a organização utilizou a expressão Risk Avoidance para Risk Enablement. A ideia era descrever a passagem de uma atuação predominantemente voltada a evitar riscos para outra em que o jurídico buscava compreender melhor as necessidades da organização e contribuir para que objetivos legítimos fossem perseguidos com segurança.

Não vejo essa experiência como um modelo a ser simplesmente importado, muito menos como uma autorização para assumir riscos indiscriminadamente.

O que me interessa nela é a mudança da pergunta.

Em vez de tratar a existência de risco como o fim da análise, passa-se a perguntar que tipo de risco está presente, qual a sua relevância, se ele pode ser mitigado e, principalmente, se estamos diante de um risco administrável ou de um limite que não deve ser ultrapassado.

Essa distinção importa.

Falar genericamente que determinada decisão “tem risco” pode produzir pouca informação para quem precisa decidir. Quase toda decisão relevante envolve algum tipo de risco. A contribuição profissional está justamente em tornar esse risco compreensível.

Nesse sentido, comecei a enxergar o profissional jurídico também como uma espécie de tradutor.

Não apenas porque o Direito utiliza uma linguagem própria, mas porque uma conclusão jurídica precisa muitas vezes ser compreendida por pessoas que enxergam o mesmo problema a partir de outras perspectivas.

Traduzir, aqui, não significa simplificar o Direito até perder precisão. Significa conseguir preservar a precisão e, ao mesmo tempo, mostrar o que aquela análise representa para a decisão concreta.

E o que isso tem a ver com formação jurídica?

Se essa leitura estiver correta, ela produz uma consequência para a formação profissional.

Não me parece necessário substituir conteúdos jurídicos por uma grande coleção de conhecimentos gerenciais. Também não acredito que o profissional do Direito precise se transformar em especialista em finanças, dados, tecnologia ou gestão de projetos.

A questão talvez seja mais simples.

É difícil compreender plenamente determinados problemas organizacionais sem entender minimamente a linguagem das áreas que participam deles.

Um profissional jurídico não precisa saber elaborar um modelo financeiro para perceber que determinada alternativa produz impacto orçamentário. Não precisa ser cientista de dados para conseguir discutir como uma decisão será apoiada por informações. Nem precisa dominar gestão de projetos para compreender que prazos, dependências e capacidade de execução também influenciam uma solução.

Esse repertório não substitui o conhecimento jurídico.

Ele ajuda a fazer perguntas melhores.

E talvez essa seja uma mudança importante de perspectiva na formação profissional. Durante muito tempo, avançar na carreira esteve fortemente associado a saber mais Direito. Especializar-se, aprofundar-se, dominar um campo específico.

Isso continua fazendo sentido.

O que a prática parece acrescentar é que profundidade técnica e capacidade de compreender contexto não precisam disputar espaço. Uma pode tornar a outra mais útil.

Foi trabalhando que percebi o quanto comunicação, negociação, relacionamento, tomada de decisão e compreensão das organizações interferem na qualidade de uma entrega técnica. Não porque transformem uma conclusão jurídica incorreta em correta, mas porque ajudam a perceber o problema sobre o qual aquela conclusão precisa atuar.

Por isso, quando penso hoje em maturidade profissional no Direito, não penso em um profissional que abandona a técnica para se aproximar do negócio. Penso justamente no contrário: alguém que domina o Direito o suficiente para reconhecer seus limites, mas que também consegue compreender o contexto em que esses limites operam.

É essa combinação que me parece mais relevante.

A boa formação jurídica continua sendo indispensável. Mas, diante de problemas cada vez mais complexos, ela precisa se converter em capacidade de análise, comunicação, leitura de contexto e compreensão de consequências. Não basta saber onde está o risco; é preciso saber explicá-lo. Não basta identificar o impedimento; é preciso compreender se existem alternativas legítimas. E, quando não existirem, também é preciso saber sustentar essa conclusão com clareza e independência.

Talvez esteja aí uma das principais mudanças na atuação profissional: o valor do conhecimento jurídico não diminui quando ele se conecta a outras competências. Ao contrário, ele se torna mais útil.

No fim, a maturidade profissional no Direito aparece justamente nessa passagem: da análise correta para a análise capaz de orientar, esclarecer e qualificar decisões sem relativizar a legalidade.

É esse movimento que pode transformar conhecimento técnico em contribuição profissional efetiva.

_______

WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. 2025.

INSTITUTE FOR THE ADVANCEMENT OF THE AMERICAN LEGAL SYSTEM - IAALS. Foundations for Practice; Foundations for Practice 2.0.

CORPORATE LEGAL OPERATIONS CONSORTIUM - CLOC. From Bottleneck to Business Partner: Legal Ops Redesign for Driving Higher NPS. 2026.

Alice Lima Silva Motta

VIP Alice Lima Silva Motta

Profissional do Direito com experiência em gestão e liderança no setor público. Atua com Gestão de Pessoas e pesquisa maturidade, autonomia e desenvolvimento profissional no campo jurídico.