O ritual da soberania popular: Celebrar as urnas e cobrar o compromisso democrático
Eleições reafirmam a igualdade civil e a participação cidadã, mas exigem compromisso permanente com instituições, regras democráticas e cidadania ativa.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Atualizado às 11:16
Poucas cenas sintetizam com tanta força a igualdade civil quanto o dia de eleição no Brasil. Em um país marcado por abismos econômicos e sociais históricos, o domingo de votação opera uma suspensão momentânea das hierarquias: todos eleitores ocupam o mesmo espaço, aguardam na mesma fila e exercem, com idêntico peso, a sua cota de poder soberano. A cada ciclo eleitoral, o Brasil reafirma um dos maiores e mais complexos rituais cívicos do planeta - uma conquista que merece ser celebrada, mas que impõe a todos cidadãos brasileiros a responsabilidade de garantir sua perenidade.
O sucesso operacional dessa jornada é indissociável do trabalho da Justiça Eleitoral. Coordenar uma votação continental, mobilizando centenas de milhares de urnas eletrônicas, mesários voluntários, servidores dedicados e forças de segurança em mais de 5.500 municípios - das capitais aos rincões da Amazônia profunda -, é uma façanha logística e institucional ímpar no mundo contemporâneo.
A urna eletrônica, brasileira em sua concepção e aperfeiçoada ao longo de quase três décadas, não apenas conferiu celeridade e transparência à apuração, mas encerrou o longo histórico republicano de fraudes em cédulas de papel e mapas eleitorais adulterados. Celebrar a Justiça Eleitoral é reconhecer a existência de um árbitro técnico indispensável, capaz de assegurar que a vontade manifestada no silêncio da cabine de votação seja rigorosamente traduzida no resultado final.
A infraestrutura eleitoral, no entanto, oferece apenas o tabuleiro; o destino da Democracia depende das posturas adotadas por quem joga. O voto não é um ponto final, tampouco uma procuração em branco concedida a vencedores de plantão. O exercício da cidadania plena exige que a sociedade civil imponha aos candidatos e aos eleitos um padrão inegociável de lealdade institucional.
Mais do que planos de governo, promessas de campanha ou retóricas carismáticas, é dever urgente do cidadão cobrar dos postulantes aos cargos públicos o compromisso irrestrito com o Estado Democrático de Direito. Isso implica exigir, especialmente: respeito prévio e posterior às regras do jogo; defesa da separação de Poderes e preservação do debate público saudável.
A alternância pacífica no poder é a alma da Democracia. Governos mudam, maiorias se reconfiguram e projetos políticos distintos se sucedem conforme a vontade popular. O que não pode mudar é o solo institucional sobre o qual essas disputas ocorrem. Nenhum plano econômico, social ou de segurança se sustenta sem estabilidade jurídica, previsibilidade institucional e garantias fundamentais protegidas.
É justamente no intervalo entre uma eleição e outra que a Democracia enfrenta seus testes mais importantes. Instituições fortes são capazes de responder a críticas com transparência, integridade e respeito às próprias regras. Executivo, Legislativo e Judiciário exercem funções distintas, mas compartilham a responsabilidade de preservar os limites constitucionais, respeitar os mecanismos de controle e garantir que nenhuma maioria circunstancial - política, parlamentar ou judicial - se sobreponha às regras que sustentam o próprio sistema democrático.
Por isso, a celebração das eleições deve carregar também uma convocação permanente à responsabilidade. Aos cidadãos cabe votar, acompanhar e cobrar. Aos eleitos, compreender que receber a maioria dos votos significa assumir um mandato constitucional, e não receber autorização para ultrapassar seus limites. E às instituições, reconhecer que credibilidade não decorre apenas da autoridade que lhes foi conferida, nasce da coerência entre aquilo que defendem e aquilo que praticam.
A soberania popular se manifesta no voto; a maturidade democrática se revela nos dias seguintes, quando cidadãos, representantes e instituições escolhem respeitar as regras mesmo quando elas contrariam seus interesses.
Ao encerrar cada pleito e comemorar a participação popular, o Brasil renova a seu compromisso com a Democracia. Mas esse compromisso só permanece vivo e duradouro se o eleitor transferir o entusiasmo da cabine de votação para a vigilância cotidiana: cobrando que aqueles que buscam o voto respeitem, acima de qualquer ambição pessoal ou partidária, o próprio sistema que lhes permitiu disputar o poder.
Leonardo Guerzoni Furtado de Oliveira
Diretor da AASP - Associação dos Advogados e Especialista em Contencioso Cível.

