Dez temas concentram mais da metade dos pedidos trabalhistas analisados
Em 2025, os dez temas trabalhistas mais frequentes ampliaram sua participação nos registros, com indenizações na liderança e maior concentração dos pedidos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Atualizado às 15:33
Uma ação trabalhista raramente se resume a uma única discussão. Em um mesmo processo podem aparecer pedidos relacionados a férias, FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, horas extras, indenizações e outras questões decorrentes da relação de trabalho.
Quando milhões desses pedidos são observados em conjunto, porém, surge um dado interessante: apesar da variedade possível de conflitos, uma parcela expressiva deles se concentra em um conjunto relativamente pequeno de assuntos.
Em 2025, os dez temas mais frequentes responderam por 54,33% dos registros temáticos analisados na primeira edição do Observatório da Justiça do Trabalho. Foram pouco mais de 8,1 milhões de ocorrências relacionadas aos dez principais temas, diante de aproximadamente 14,96 milhões de registros temáticos no ano.
É importante entender exatamente o que esses números representam. A unidade de análise, nesse caso, não é o processo, mas o pedido. Se uma mesma ação contém cinco pedidos diferentes, cada um deles é contabilizado como uma ocorrência temática independente. Portanto, dizer que os dez principais assuntos representam 54,33% dos registros não significa dizer que eles estão presentes em 54,33% dos processos trabalhistas.
Feita essa distinção, a concentração chama atenção.
Indenização aparece na primeira posição em 2025, com 1.291.315 registros. Em seguida vêm FGTS, com 1.169.501; férias, com 987.935; aviso prévio, com 871.034; e férias proporcionais, com 750.470.
Completam o top 10 o 13º salário, a multa de 40% do FGTS, a multa do art. 477 da CLT, horas extras e saldo de salário.
Mais do que a fotografia do ranking, porém, a comparação com o ano anterior revela uma mudança relevante na forma como esses pedidos estão distribuídos.
Em 2024, os dez temas mais frequentes respondiam por 44,82% dos registros temáticos. Em 2025, passaram a representar 54,33%. São aproximadamente dez pontos percentuais de aumento na concentração em apenas um ano.
Isso ocorreu mesmo com a redução do universo total de registros temáticos. A base passou de 18.439.508 ocorrências em 2024 para 14.957.882 em 2025, uma queda próxima de 19%. O volume do próprio top 10 também caiu, de 8.264.976 para 8.126.076 registros, mas em proporção muito menor.
É essa combinação que merece atenção: houve menos registros temáticos no conjunto da base, mas os dez assuntos mais frequentes passaram a ocupar uma parcela maior desse universo.
Isso significa que a queda no total de registros temáticos se concentrou muito mais fora do top 10 do que dentro dele: os assuntos fora do núcleo principal recuaram cerca de 33%, contra menos de 2% de queda entre os dez temas mais frequentes.
O comportamento individual dos temas ajuda a perceber por que simplesmente olhar para a posição no ranking também pode ser insuficiente.
Férias proporcionais foi a principal alta entre os dez primeiros, com crescimento de 14% entre 2024 e 2025. Saldo de Salário avançou 2,7%. Na direção oposta, horas extras recuaram 10,9%. Indenização, apesar de ocupar a primeira posição, teve redução de 2% no número de registros. FGTS caiu 4,4%, e Férias, 1,4%.
Esse é um exemplo interessante de como concentração e crescimento são conceitos diferentes. Um tema pode perder ocorrências em números absolutos e, ainda assim, permanecer entre os assuntos que estruturam a maior parcela das demandas analisadas.
Há outra cautela importante. “Indenização”, líder do ranking, não representa uma controvérsia jurídica única. A categoria reúne situações distintas, que podem envolver danos morais e materiais, acidentes de trabalho, doenças ocupacionais, assédio, discriminação, danos estéticos, estabilidade provisória e outras hipóteses. O número agregado, portanto, não permite identificar qual dessas modalidades responde pela maior parcela dos registros.
Essa limitação é importante porque rankings produzem uma tentação natural de buscar explicações imediatas. Por que férias proporcionais cresceram? Por que horas extras diminuíram? Por que determinado tema ganhou ou perdeu espaço?
Os dados mostram o que mudou, mas não são suficientes, isoladamente, para explicar por que mudou.
Para empresas, advogados e gestores que acompanham o contencioso, talvez esteja aí a informação mais útil. Não basta observar quantos processos chegam à Justiça do Trabalho. A composição interna das demandas também muda e pode revelar quais assuntos estão ocupando maior ou menor espaço relativo ao longo do tempo.
Uma fotografia dos temas mais frequentes mostra o que está no topo. A comparação entre períodos acrescenta outra dimensão: permite observar se esse núcleo está se expandindo, se dispersando ou se concentrando.
Entre 2024 e 2025, o resultado foi claro. Os pedidos trabalhistas analisados ficaram mais concentrados em um grupo relativamente pequeno de temas.
Mais da metade dos registros temáticos de 2025 estava reunida em apenas dez assuntos. A questão para os próximos anos será saber se essa concentração continuará avançando ou se veremos novamente uma pauta mais dispersa.
Rafael Lima
Advogado e fundador da BT Créditos, empresa pioneira em cessão de créditos trabalhistas no Brasil.
