quinta-feira, 24 de setembro de 2020

MIGALHAS QUENTES

Declinações latinas


Declinações latinas


Confira
texto sobre a precisão das línguas flexionáveis que utilizam declinações, enviado pelo migalheiro José Renato M. de Almeida. Ao final confira um quadro completo das declinações latinas.

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A precisão das palavras


José Renato M. de Almeida*


O ser humano enfrenta desde sua origem a dificuldade de expressar em gestos, sons e símbolos o que perpassa ou elabora em sua mente. A dificuldade de interpretar textos e discursos é um dos testes mais temidos por estudantes e vestibulandos. A linguagem, que nos parece tão fácil no dia-a-dia, revela suas armadilhas quando é necessário descrever fatos, documentar e registrar dados importantes. Esse drama está considerado na alegoria da construção da torre de Babel. Hoje, num país em que, surpreendentemente, falamos um mesmo idioma a maldição permanece, dificultando o perfeito entendimento do que é dito, pelo que é ouvido, quando não falamos com sinceridade e cuidado.

 

É só atentar para ver a quantidade de conflitos gerados por uma comunicação inconsistente que carrega em si mesma várias interpretações. O título desse comentário usa, propositalmente, o vocábulo precisão que no conhecido verso de Fernando Pessoa tem significado diverso do que usualmente se imagina que o poeta quis dizer: "navegar é preciso, viver não é preciso". Nesse verso, o termo preciso tem significado de certeza da rota calculada por instrumentos de navegação... Enquanto que a vida vivida não permite ser dirigida com tanta certeza. Mas o comum é interpretar o verso como se para os portugueses fosse imprescindível navegar, já viver seria opcional.

 

Infelizmente, a língua portuguesa abandonou a precisão que o latim clássico possuía em suas seis declinações ou modos: nominativo, vocativo, genitivo, dativo, ablativo e acusativo. É usual ouvir-se dizer que só é possível filosofar em alemão, visto que é uma das raras línguas flexivas atuais que manteve íntegras suas declinações. Certamente não é só por isso, pois o finlandês possui quinze declinações...

 

Quando foram retomadas as negociações diplomáticas e comerciais com a China, os brasileiros foram alertados às imprecisões da redação de acordos, devido uma mesma palavra ou frase permitir múltiplas interpretações!

 

Lembro que era costume, até uns dez anos atrás, as previsões do tempo registrarem: tempo bom. Tempo bom para quê? Bom para quem? Depois de ouvir as queixas enviadas por um agricultor à redação do Jornal Nacional, escrevi para A TARDE chamando atenção ao uso impreciso desse termo "bom" no quadro de previsões. Três semanas depois as definições do tempo foram alteradas para o que lemos hoje: sol, chuva, nublado, instável...

 

Em outra ocasião, A TARDE abria manchete diária nas reportagens de acompanhamento de um crime que abalou Salvador e a mim particularmente, visto as vítimas morarem perto de casa. Foi quando uma empresária, que conduzia o seu carro com duas crianças - Giovanna sua filha e Leandro seu sobrinho - foi seqüestrada por Zito, o gordo, que os induziu a tomar veneno mortal, dizendo ser tranqüilizante... As duas crianças tomaram e não resistiram. A empresária reagiu, não tomou e sobreviveu. O jornal fazia as chamadas diárias com o tópico O crime das crianças. Num dia de sábado, sentindo-me incomodado com isso, liguei para o plantão alertando de que as crianças não haviam cometido nenhum crime! Na segunda-feira houve mudança do tópico para O assassinato das crianças. Também foi só esse dia, na terça voltou a constar O crime das crianças. Desisti.

 

Em jornalismo é costume abrir manchetes com o tempo do verbo propositalmente impreciso para atrair a atenção do leitor à notícia. Exemplo muito comum: "Médicos fazem no Rio cirurgia com uso de células-tronco"; no texto é dito que "fazem nesta semana". Por que não usar o tempo verdadeiro do verbo? Médicos farão... Farão nesta semana...

 

Se no jornalismo a precisão das palavras é importante, nos meios acadêmicos é fundamental. Na coluna Judiciárias da edição de 29/7/05 do jornal A TARDE, Cinthia Lerner inicia seu artigo intitulado O direito e a relação homossexual, com a seguinte frase: "Mesmo estando no século 21, os casais homossexuais ainda têm muita dificuldade em configurar a união estável por estrita concepção jurídica." É notável sua intenção de considerar os pares homossexuais que mantêm laços afetivos como casais, distorcendo o significado específico do termo. Na Grécia Antiga, onde as relações homossexuais eram bastante difundidas, denominavam os pares homossexuais de amantes, nunca de casal. Talvez isso se deva à mentalidade lógica e precisa da cultura grega em sua incessante busca pelo exato e verdadeiro, que chamamos de realidade, transmitida até nós através dos textos de seus inúmeros filósofos e pensadores: amantes da sabedoria.

 

Algo semelhante de uso inadequado das palavras também é tentado atualmente com o termo casamento, quando se refere a união civil entre homossexuais. Não vejo necessidade de tentar distorcer o significado específico da palavra casamento, para que os homossexuais obtenham direitos semelhantes aos existentes para a união homem-mulher, reconhecido núcleo basilar na formação de uma comunidade e de um povo... Se meu sobrinho de 10 anos, me pede um casal de cachorrinhos, ele não aceitará do vendedor dois cães do mesmo sexo!

 

Quanto maior for a precisão no uso das palavras e nas construções gramaticais, maior será o entendimento obtido com o exercício permanente de uma comunicação de verdade.

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* Pesquisador do desenvolvimento técnico-científico comparado à evolução do conhecimento humano-social ao longo da história da humanidade.

 

** As idéias não têm dono, mas têm autoria.
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Por: Redação do Migalhas

Atualizado em: 1/1/1900 12:00