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Racismo

Advogado negro é confundido com motorista no STF; episódio gera debate

Para o advogado Nauê Bernardo, o episódio de racismo não pode ser tratado como isolado: é preciso uma mudança estrutural.

Da Redação

quinta-feira, 31 de março de 2022

Atualizado às 11:07

Na última terça-feira, 29, o advogado Nauê Bernardo viveu um episódio de racismo dentro do STF: no estacionamento, ele diz ter sido confundido com motorista.

Migalhas conversou com o causídico. O episódio levanta debate sobre a questão do racismo estrutural no Brasil.  "Não é sobre mim ou sobre o segurança, é sobre a estrutura."

Assista:

"A sociedade normalizou que apenas pessoas brancas têm espaço aos lugares mais disputados da sociedade, às profissões mais disputadas. Essa normalização disso também trouxe a normalização de que pessoas como eu não têm acesso a esses espaços. Então, é uma questão institucional, é uma questão estrutural, que vai além do indivíduo. Calhou de eu ter voz, amplificar isso e a coisa chegar longe. Mas acontece todo dia com várias pessoas, que só conseguem engolir caladas e seguir em frente."

Relato

Nauê é formado em Ciência Política pela UNB e em Direito. Ele conta que teve uma trajetória muito rica como advogado, trabalhou em grandes escritórios em Brasília, e resolveu advogar por conta própria a partir de 2018. Em 2021, passou a integrar o Observatório do Clima como advogado, onde trabalha na área de Direito Ambiental. Ele conta que trabalha em várias áreas, principalmente cobrindo Tribunais Superiores.

Nauê relatou que, na última terça-feira, chegou ao estacionamento do Supremo dirigindo seu carro, acompanhado de outros três advogados, todos brancos.

No local, ele teria sido orientado a seguir para a área de desembarque, e não entendeu a indicação. O segurança não saiu da guarita, e teria chamado Nauê, mostrando que estava tirando o cone. Ele perguntou: é para ir para a garagem? Ao que o funcionário orientou que ele deveria deixar o pessoal na rampa e ir embora. Foi quando um dos advogados que estava no carro esclareceu que estavam juntos.

"Parei o carro todo torto, de tão perturbado que eu fiquei", disse Nauê. Só então o segurança teria percebido que ele não era motorista.

 (Imagem: Reprodução/Twitter)

(Imagem: Reprodução/Twitter)

Racismo estrutural

Em conversa com o Migalhas, Nauê disse que não foi a primeira vez que enfrentou o racismo. "Já aconteceu várias vezes. E eu sempre reagi com elegância, não foi diferente. Mas assusta." O advogado esclareceu que não espera punição do funcionário. Para ele, é necessário um olhar mais amplo para o problema do racismo no Brasil, que certamente é estrutural.

"Não é sobre eu, Nauê. Não é sobre a pessoa que fez isso. É até uma preocupação minha, não quero que a pessoa seja punida, não quero que essa pessoa seja demitida. Principalmente no contexto que a gente está vivendo. Eu acho que a boa-fé se presume. É porque é enraizado mesmo. A questão não é a profissão, é a quantidade de vezes que isso acontece, e como isso acontece sempre, o que vai negando nossos acessos." 

No Twitter, o advogado comentou o episódio:

"Digo de novo: não há problema em ser motorista. O problema é achar que um negro de terno SÓ PODE ser motorista. É sutil, mas é firme: é uma negativa muito expressa de nos aceitar de outra forma."

Nauê, que é conselheiro da OAB/DF, disse que a Ordem tem feito campanhas muito consciêntes de combate ao racismo.

Anti-racismo

O advogado ?Beethoven Andrade, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/DF, informou que a seccional decidiu oficiar o STF sobre o ocorrido. Ele também informou que a Comissão está acompanhando o caso e que, como o próprio Nauê se manifestou no sentido de não individualizar o fato, mas sim de que seja tratado institucionalmente, a OAB/DF vai retomar a campanha "Racismo não é mal-entendido. Racismo é crime!" no próximos dias. 

 (Imagem: Divulgação)

(Imagem: Divulgação)

Beethoven informou que a Ordem também promove a campanha "A (não) abolição" em referência ao dia da abolição, e tem por intuito abordar as consequências da não inserção da população negra na sociedade após a Lei áurea e, ainda, aborda as consequências do Racismo (estrutural, institucional, ambiental e individualizado) na população negra até os dias de hoje.

Por meio de nota, o STF se manifestou, informando que rechaça qualquer tipo de tratamento preconceituoso e que está sempre atento para melhoria de suas práticas internas.

Leia:

O Supremo Tribunal Federal apura mais informações sobre o ocorrido, mas, desde já, informa que os funcionários são treinados para tratar todos os visitantes com cordialidade e respeito, e as abordagens são previstas em manuais de orientação e referência.

O STF rechaça qualquer tipo de tratamento desrespeitoso ou preconceituoso, e está sempre atento para melhoria de suas práticas internas.

O presidente do STF, ministro Luiz Fux, conversou nesta quarta (30) com o advogado, informou que o caso está em apuração e lamentou o episódio.

O Observatório do Clima, grupo da sociedade civil para discutir mudanças climáticas, no qual Nauê atua como assessor jurídico, divulgou nota sobre o episódio de racismo, manifestando repulsa e repúdio.

Leia a íntegra: 

Assessor jurídico do OC sofreu discriminação no STF

30.03.2022

O Observatório do Clima manifesta sua repulsa e seu repúdio em relação ao caso de racismo contra o advogado Nauê Pinheiro de Azevedo, ocorrido na tarde da última terça-feira (29) no estacionamento do Supremo Tribunal Federal. Assessor jurídico do OC e membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil, Azevedo foi tratado como se fosse motorista de três colegas quando tentava estacionar seu carro para reuniões com ministros da Corte por ocasião do julgamento histórico de sete ações ambientais hoje (30).

Para além das necessárias responsabilizações institucionais, o episódio expõe quão estrutural é o racismo no Brasil, e quão racistas são as lentes pelas quais a sociedade de minoria branca enxerga não apenas negros, mas também mulheres e indígenas.

Nauê Pinheiro é um advogado brilhante, escolhido pelo OC para representar a rede no julgamento histórico de sete ações ambientais nesta quarta-feira pelo STF. Tê-lo na nossa equipe é uma honra, e o papel que ele desempenhará no julgamento de hoje nos enche de orgulho.

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