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Plenário virtual

Por unanimidade, STF rejeita tese de poder moderador das Forças Armadas

Plenário reforçou que as Forças Armadas não podem intervir nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Da Redação

terça-feira, 2 de abril de 2024

Atualizado em 9 de abril de 2024 08:00

Por unanimidade, o plenário do STF afastou qualquer interpretação de que as Forças Armadas exerçam o poder moderador entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O entendimento foi fixado no julgamento da ADIn 6.457, ajuizada pelo PDT.

No julgamento, o STF assentou, ainda, que a chefia das Forças Armadas tem poder limitado, não sendo possível qualquer interpretação que permita sua utilização para indevidas intromissões no funcionamento independente dos poderes da República.

O plenário considerou que a prerrogativa do presidente da República de autorizar o emprego das Forças Armadas, por iniciativa própria ou a pedido dos presidentes do STF, do Senado ou da Câmara dos Deputados, não pode ser exercida contra os próprios poderes entre si.

 (Imagem: Fellipe Sampaio/SCO/STF)

STF julga "poder moderador" das Forças Armadas.(Imagem: Fellipe Sampaio/SCO/STF)

Caso

O PDT propôs, em junho de 2020, ação que questiona a LC 97/99. A lei regulamentou o art. 142 da CF, relacionada à atuação das Forças Armadas.

O dispositivo afirma que as Forças Armadas são "instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".

O partido questionou a atuação das Forças Armadas como um poder moderador e a "autoridade suprema" do presidente da República para utilizar as forças militares e pediu ao STF a interpretação sobre o dispositivo constitucional.

Na ocasião, em junho de 2020, o relator da ação, ministro Luiz Fux, concedeu liminar esclarecendo que o art. 142 da CF não autoriza a intervenção das Forças Armadas sobre o Legislativo, o Judiciário ou o Executivo.

Voto do relator

Em voto depositado na última sexta-feira, 29, Fux manteve o entendimento e afirmou que as Forças Armadas são instituições de Estado, e não de governo, "indiferentes às disputas que normalmente se desenvolvem no processo político".

Para o ministro, a missão institucional das Forças Armadas na defesa da Pátria, na garantia dos poderes constitucionais e na garantia da lei e da ordem não prevê "qualquer espaço à tese de intervenção militar, tampouco de atuação moderadora das Forças Armadas" entre os Poderes.

"O emprego das Forças Armadas para a 'garantia da lei e da ordem', embora não se limite às hipóteses de intervenção federal, de estados de defesa e de estado sítio, presta-se ao excepcional enfrentamento de grave e concreta violação à segurança pública interna, em caráter subsidiário, após o esgotamento dos mecanismos ordinários e preferenciais de preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, mediante a atuação colaborativa das instituições estatais e sujeita ao controle permanente dos demais poderes, na forma da Constituição e da lei."

S. Exa. explicou que a "garantia dos poderes constitucionais", prevista no art. 142 da Constituição, se refere à proteção de todos os poderes "contra ameaças alheias". Portanto, é uma forma de defesa das instituições democráticas contra "ameaças de golpe, sublevação armada ou movimentos desse tipo".

Para Fux, a chefia do presidente da República sobre as Forças Armadas é "poder limitado" e não é possível qualquer interpretação que permita o uso militar para "indevidas intromissões" no funcionamento dos outros poderes. 

"A prerrogativa do presidente da República de autorizar o emprego das Forças Armadas [.] não pode ser exercida contra os próprios poderes entre si", escreveu, explicando que o líder do Executivo exerce o poder de supervisão administrativo-orçamentária dos organismos militares.

Segundo o ministro, a autoridade do presidente sobre as Forças Armadas está relacionada à hierarquia e à disciplina da conduta militar, como o regramento sobre sua organização e nomeação de comandantes.

Limitações

Entre outras solicitações, o PDT pediu que o STF limite o uso das Forças Armadas nas destinações previstas no art. 142 da CF aos casos de intervenção Federal, estado de defesa e estado de sítio. O relator, entretanto, não viu razão para essa limitação.

"Caso assim agisse, estaria o Supremo Tribunal Federal a realizar recorte interpretativo que a própria Constituição não pretendeu efetuar. Por outro lado, a semântica dos artigos 1º e 15 da Lei Complementar 97/99 pode ser melhor aclarada em conformidade com a Constituição, no afã de eliminar eventuais interpretações que não possuem guarida na sistematicidade de suas normas", escreveu, sugerindo uma atualização da lei que regulamentou o art. 142 da Constituição.

Para o ministro, também aplicar restrição do alcance da atuação de "defesa da pátria" "esvaziaria a previsão constitucional do artigo 142 e reduziria a eficácia dos dispositivos constitucionais que tratam da atuação internacional do país", como as possibilidades de uso das Forças Armadas para proteção das faixas de fronteiras e dos espaços aéreos e marítimos. "Exemplificativamente, cito as missões de controle do fluxo migratório na fronteira com a Venezuela", diz Fux.

Voto de Flávio Dino

No domingo, 31, o ministro Flávio Dino depositou seu voto no plenário virtual da Corte acompanhando o voto do relator e afirmou que "a função militar é subalterna" e que não existe, no regime constitucional brasileiro, um "poder militar".

"O poder é apenas civil, constituído por três ramos [Executivo, Legislativo e Judiciário] ungidos pela soberania popular, direta ou indiretamente", escreveu Dino, lembrando que o dia 31 marca os 60 anos do golpe militar no Brasil, "um período abominável da nossa História Constitucional", ocorrido em 31/3/64.

"Há 60 anos, à revelia das normas consagradas pela Constituição de 1946, o Estado de Direito foi destroçado pelo uso ilegítimo da força", afirmou o ministro.

S. Exa. acrescentou que a decisão seja enviada ao ministro da Defesa para que seja difundida para todas as organizações militares, inclusive escolas de formação, aperfeiçoamento e similares. "A notificação visa expungir desinformações que alcançaram alguns membros das Forças Armadas - com efeitos práticos escassos, mas merecedores de máxima atenção pelo elevado potencial deletério à Pátria", escreveu Dino em seu voto.

Ao se manifestar contra a tese do poder moderador, Gilmar Mendes disse que a Corte está "reafirmando o que deveria ser óbvio". "A hermenêutica da baioneta não cabe na Constituição. A sociedade brasileira nada tem a ganhar com a politização dos quartéis e tampouco a Constituição de 1988 o admite", afirmou. 

Zanin também acompanhou o entendimento do relator, ministro Luiz Fux, com o acréscimo apresentado pelo ministro Flávio Dino, que estabelece que a decisão seja divulgada no meio militar para evitar desinformação.

A decisão foi unânime.

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