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Estudo transformador

Juiz do TJ/DF já vendeu hot dog e hoje tem projeto pela educação

Aragonê Fernandes saiu do trabalho informal, chegou à magistratura e criou instituto social.

Da Redação

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Atualizado às 19:08

Um sorriso largo e a fala serena marcam a personalidade do juiz de Direito Aragonê Fernandes. Por trás da tranquilidade que hoje o caracteriza, há uma trajetória construída desde cedo em meio a provações que exigiram paciência e perseverança.

Batizado em homenagem a um jogador de futebol espanhol, o nome não prenunciava facilidades: sua história esteve longe de ser apenas "bola na rede".

Filho de pais paraibanos que migraram para Brasília/DF em busca de melhores oportunidades, Aragonê cresceu em um ambiente marcado pelo trabalho informal e pela instabilidade financeira.

Ainda criança, vendeu cachorro-quente, picolé, marmitas, roupas e sapatos, aprendendo precocemente a lidar com as dificuldades do cotidiano.

Após uma longa trajetória de estudos e dedicação, tornou-se magistrado do TJ/DF, atuação que vai além dos limites do gabinete.

À frente de um projeto social voltado à educação, busca estimular o estudo entre crianças e adolescentes que não dispõem de condições materiais básicas. Há cerca de 20 anos, também ministra aulas em cursinhos preparatórios.

A partir dessa experiência, procura transmitir uma mensagem simples e direta: é possível.

"Não foi um milagre que aconteceu da noite para o dia, nem no estalar de dedos. Foi um milagre que veio por muito esforço, muito comprometimento, muito estudo, e o estudo tem um grande defeito: ele demora a entregar", resume.

Conheça a história do magistrado.

O exemplo arrasta

O interesse de Aragonê pelo serviço público nasceu a partir do exemplo da irmã mais velha, aprovada em concurso dos Correios.

O cargo, embora de base, trouxe algo até então inexistente: renda fixa, assistência médica e segurança.

"Isso mudou a vida da nossa família na totalidade", recorda.

A partir dali, o estudo passou a ser visto não como obrigação, mas como estratégia de sobrevivência e ascensão social. Aragonê seguiu o mesmo caminho, embora não sem tropeços.

Os primeiros certames

Tentou o concurso do TJ/DF por duas vezes e foi reprovado. Ouviu da irmã que precisava "recalcular a rota".

Assim, decidiu tentar concursos menores e foi aprovado como recenseador temporário do IBGE. Vieram depois a Caesb - Companhia de Saneamento do DF e o técnico do STJ.

Paralelamente, cursou Direito em faculdade particular, custeando os estudos com o próprio salário.

"Não foi a faculdade quem me deu o cargo público, foi o cargo público quem me proporcionou pagar a faculdade", conta.

Do técnico à magistratura

O caminho até a magistratura foi longo e marcado por reprovações - uma etapa que Aragonê faz questão de destacar como parte essencial da própria formação.

"Normalmente, quando as pessoas querem contar a trajetória de sucesso, conta o que deu certo, sabe? Mas eu reprovei ", relembra.

Um dos primeiros episódios de frustração ocorreu no concurso para analista do TST. Ele foi eliminado por um erro banal: esqueceu a chave do carro no bolso e acabou desclassificado ao passar pelo detector de metais.

"Eu fiquei muito chateado com Deus e eu falei: 'Poxa, o Senhor sabe que estudei um ano para esse concurso'", recorda.

Ainda assim, persistiu. Pouco tempo depois, foi aprovado no concurso para analista do STF.

Embora formalmente vinculado à Corte, continuou atuando no STJ, onde já era concursado, após ser requisitado por um ministro para exercer a função de assessor.

A experiência aprofundou o contato diário com a atividade jurisdicional. Foi a partir desse amadurecimento que decidiu disputar concursos mais desafiadores.

Nesse período, conciliava jornadas exaustivas.

Trabalhava em tempo integral no Judiciário, dava aulas em cursinhos preparatórios e estudava de madrugada.

O horário reservado aos livros começava quando o dia já tinha acabado: da meia-noite às duas da manhã.

A privação de sono era constante. Vieram as enxaquecas diárias e o cansaço acumulado.

Ao longo dos anos, prestou concursos para a defensoria pública, o MP e a magistratura. Foi reprovado em seleções para juiz na Paraíba e para promotor de Justiça em diversos Estados, como Rondônia, Sergipe, São Paulo e Goiás.

A cada resultado, positivo ou negativo, o ritual era sempre o mesmo: ligar para os pais.

O pai, de pouca escolaridade formal, repetia sempre a mesma frase: "Não tem nada, meu filho, continue, uma hora você passa".

Em 2012, após a prova oral da magistratura do DF, em que Aragonê foi aprovado, veio a pergunta do pai: "Acabou, meu filho?".

Do outro lado da linha, Aragonê respondeu apenas: "Acabou".

"E eu não consegui falar mais nada, porque naquele momento, o acabou não era para ele. Eu entendi que era para mim", afirma.

"Não precisa ter sangue azul"

A mensagem que Aragonê faz questão de reforçar é direta: não é preciso genialidade nem origem privilegiada para chegar no sonho.

"Com gênio eu nunca disputei vaga. Porque se é gênio, vai passar no que quiser, não está disputando comigo. Eu disputava com pessoas medianas, medianas que se dedicam.

Para ele, essa é a essência da transformação social promovida pelo estudo - lenta, silenciosa, muitas vezes desacreditada, mas profunda.

Hoje, ao dividir a vida em três círculos - o "eu", o "nós" (família) e o "todos nós" (sociedade) -, Aragonê diz ter encontrado sua missão.

"O ‘eu’ está resolvido. O ‘nós’, também. Agora, é cuidar de todos nós."

Essa visão não permaneceu no campo das ideias e transformou-se em compromisso prático com a educação.

Devolver à sociedade

A docência antecede a magistratura na trajetória de Aragonê. Ele é professor há quase 20 anos e vê no ensino uma extensão natural da própria história.

Começou dando aulas de forma voluntária em uma igreja, depois ingressou em cursos preparatórios.

"É como se eu pudesse resgatar pessoas na mesma situação que a minha e falar assim: 'Bora, eu tenho um caminho e dá para fazer'."

Além de dar aulas, Aragonê fundou o "Instituto Sai Pobreza" para apoiar crianças em situação de vulnerabilidade por meio da educação.

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A iniciativa distribui mochilas, estojos e material escolar de qualidade.

Em 2026, a meta é atender 7 mil famílias; para 2027, o objetivo é alcançar 10 mil crianças. O financiamento vem de doações, da venda de livros e do apoio de alunos e parceiros.

O sonho é ambicioso: chegar a 100 mil crianças atendidas.

"Gente sabida e gente interessada tem em todo canto, mas é frustrante você não ter nada para enfrentar. Eu não posso entregar para elas uma escola de qualidade, mas eu posso entregar as ferramentas que elas precisam. Talvez, a missão da minha vida", conclui.

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