MPF pede R$ 10 milhões à Globo por pronúncia errada da palavra "recorde"
Procurador argumentou que a emissora, como concessionária pública, deve seguir a norma da língua portuguesa e evitar erros que comprometem a educação e informação da sociedade.
Da Redação
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Atualizado às 16:40
O Ministério Público Federal em Minas Gerais ajuizou ação civil pública contra a Globo por suposto erro reiterado na pronúncia da palavra “recorde”.
O autor é o procurador da República Cléber Eustáquio Neves, que atribui à emissora a difusão de prosódia incorreta e pede R$ 10 milhões por danos morais coletivos, sob o argumento de que cada transmissão equivocada consolidaria o erro na memória coletiva nacional.
O caso
A iniciativa do MPF/MG partiu do entendimento de que a palavra é paroxítona, com tonicidade na sílaba “cor” reCORde, sem acento gráfico. Na petição, o procurador sustenta que a forma “RÉ-corde”, classificada como proparoxítona, configuraria erro de prosódia.
Para embasar o pedido, foram anexados trechos de programas jornalísticos e esportivos da emissora, entre eles Jornal Nacional, Globo Esporte e Globo Rural.
Em um dos exemplos mencionados, o procurador cita a pronúncia adotada pelo jornalista César Tralli.
Confira:
Na ação, Neves argumenta que a Globo, por operar concessão pública de radiodifusão, tem dever de observância da norma culta da língua portuguesa. Para ele, a repetição do que classifica como erro comprometeria o direito difuso da sociedade a uma programação com finalidade educativa e informativa.
"Ademais, verifica-se que a Língua Portuguesa é a base fundamental da nossa identidade nacional e o veículo primário da nossa cultura, sendo considerada patrimônio cultural imaterial do Brasil (Art. 216, CF). Ao difundir o erro de pronúncia em escala nacional, a requerida descumpre sua missão educativa e cultural, operando um verdadeiro desserviço à padronização linguística necessária para a unidade do país, conforme pretendido pelo Acordo Ortográfico de 1990."
Além disso, a ação invoca o art. 221 da CF/88, que estabelece princípios para a produção e programação das emissoras de rádio e televisão, e o art. 37, § 6º ao tratar da responsabilidade civil de prestadoras de serviço público.
"No caso concreto, a conduta da requerida viola de forma injusta e intolerável os valores da coletividade relacionados ao adequado uso da língua portuguesa, que consiste em patrimônio cultural imaterial. Outrossim, viola o direito difuso da coletividade de ter acesso a uma programação de televisão que cumpra a finalidade educativa e informativa exigida pela Constituição Federal."
Ao final, o MPF requer a procedência integral da ação para confirmar a tutela inibitória e condenar a emissora à obrigação de fazer consistente na adequação da pronúncia em seus telejornais e transmissões.
Requer, ainda, a condenação ao pagamento de indenização por danos morais coletivos em valor não inferior a R$ 10 milhões, em razão de alegada lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa.
- Processo: 6001127-88.2026.4.06.3803
Estrangeirismo cultural?
A polêmica sobre a pronúncia da palavra “recorde” não é nova. Em artigo publicado na coluna Gramatigalhas, José Maria da Costa enfrentou exatamente essa dúvida, comum sobretudo em transmissões esportivas.
Segundo o autor, embora seja generalizada a pronúncia proparoxítona “récorde”, o mais adequado, à luz da norma culta, é a forma paroxítona: reCORde, rimando com acorde, concorde e discorde.
José Maria ressalta que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da ABL - Academia Brasileira de Letras, registra unicamente a forma “recorde”, sem acento gráfico, o que reforça sua plena integração ao idioma e a tonicidade na penúltima sílaba.
O colunista ainda menciona gramáticos como Napoleão Mendes de Almeida, Luiz Antônio Sacconi e Arnaldo Niskier, todos no mesmo sentido: deve-se evitar a pronúncia “récorde” e preferir recorde.
"A pronúncia paroxítona – e não proparoxítona – desse vocábulo é também realçada por Arnaldo Niskier, autor esse que, em outra passagem, assevera que “se pronuncia recórdes e não récordes; nós não falamos inglês."
Em síntese, para José Maria, a forma correta em português é recorde, paroxítona, sem acento e com a sílaba tônica em “cor”.





