Sigam o dinheiro
Foco em personagens pode desviar atenção do essencial, enquanto rastreamento de bilhões revela o núcleo do escândalo.
Da Redação
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Atualizado às 08:21
Migalhas já disse, mas certos casos exigem a virtude da repetição, essa velha aliada da prudência: no episódio Banco Master, convém não deixar que o brilho do palco esconda o conteúdo do cofre.
Toda delação premiada tem algo de confissão e algo de estratégia. Santo Agostinho, em suas Confissões, entregava os pecados para salvar a alma. Aqui, o método costuma ser um pouco mais terreno: entrega-se o que convém para salvar o patrimônio.
E é justamente nesse ponto que mora o perigo.
Quando começam a surgir nomes de políticos, autoridades, figuras influentes e personagens de relevo social, instala-se imediatamente o fascínio nacional pelo enredo paralelo.
O brasileiro, convenhamos, nunca desprezou uma boa lista de envolvidos. Mas talvez resida aí a grande armadilha.
Porque toda essa fauna de personagens pode corresponder a uma fração mínima da história. Quatro, cinco por cento, quem sabe. O bastante para dominar manchetes, monopolizar indignações e, sobretudo, embaralhar a percepção pública.
Enquanto isso, os outros 95% — justamente onde mora a questão essencial — correm o risco de passar discretamente ao fundo da cena.
E o que seriam esses 95%? Dinheiro.
Não o dinheiro como abstração contábil, mas em escala de espantar. Fortuna cuja dimensão desloca o caso do terreno da mera malandragem financeira para algo muito mais ambicioso. Estamos a falar de 10 bilhões de dólares.
Por isso, antes de discutir quem vendeu proximidade ou favores, é preciso responder ao básico, esse velho e quase singelo básico investigativo: onde está o dinheiro? Para onde foi?
E para não dizer que não se deve apurar de antemão corrupção, existe uma que não pode ser olvidada. Com efeito, quem permitiu a complacência regulatória, quem se anestesiou na fiscalização, esses devem ser imediatamente apresentados. São, digamos, os autores do pecado original de toda essa narrativa.
O resto — amizades compradas, boa vontade adquirida, celebridades periféricas do escândalo — entra como literatura suplementar. Boa, mas para capítulos seguintes.
A delação realmente relevante, portanto, não será a que distribuir personagens para consumo público, como quem escala elenco para uma série de streaming.
A peça decisiva será a autodelação patrimonial: a confissão integral dos valores, fluxos, ocultações e destinos do capital.
Sem isso, corre-se o risco de produzir apenas fumaça.
Sigamos atentos. Porque estamos diante de um escândalo enciclopédico: um pilantra que vestiu fraque de banqueiro e resolveu entrar para a história não pela via de Rothschild, mas pela de Ali Babá.





