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Concorrência desleal

iFood processa chinesa Meituan por espionagem corporativa

Empresa brasileira afirma que rival usou consultorias para obter informações sigilosas sobre estratégia, operação e finanças do aplicativo de delivery.

Da Redação

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Atualizado às 15:42

O iFood acionou a Justiça por concorrência desleal contra a Keeta Delivery Brazil e sua controladora chinesa, Meituan, acusando as empresas de promoverem uma estratégia estruturada de espionagem corporativa para obter informações sigilosas sobre o mercado brasileiro de delivery. A ação foi protocolada na última terça-feira, 19, na vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem da Capital paulista.

 (Imagem: Reprodução/Arte Migalhas)

iFood processa chinesa Meituan por concorrência desleal.(Imagem: Reprodução/Arte Migalhas)

Na petição inicial, o iFood sustenta que a concorrente utilizou dezenas de empresas de consultoria, brasileiras e estrangeiras, para abordar funcionários da companhia, principalmente pelo LinkedIn, para agendar "conversas remuneradas" sobre o mercado de delivery brasileiro, supostamente destinadas à produção de relatórios. Segundo a empresa, porém, o verdadeiro objetivo era acessar dados estratégicos e confidenciais relacionados à operação do aplicativo.

De acordo com o processo, mais de 240 colaboradores teriam sido procurados por ao menos 30 consultorias desde março de 2025. As abordagens envolviam ofertas de pagamento em dólar para reuniões virtuais e questionários sobre indicadores financeiros, market share, logística, relação com restaurantes e entregadores, além de planos de expansão e estratégias comerciais do iFood.

A empresa afirma que as investidas começaram justamente no período em que a Keeta preparava sua entrada no mercado brasileiro. Na ação, o iFood sustenta que a coincidência temporal, somada ao teor das perguntas e ao histórico internacional da Meituan em mercados estrangeiros, levantou suspeitas sobre uma possível atuação coordenada para obtenção indevida de segredos de negócio.

Reuniões suspeitas

O principal elemento apontado pelo iFood como prova da suposta espionagem envolve um ex-funcionário da companhia. Segundo a petição, ele participou de reuniões remuneradas promovidas pela consultoria CIC - China Insights Consultancy, nas quais teria compartilhado informações estratégicas da empresa.

A companhia relata que tomou conhecimento do caso após receber denúncias em seu Canal de Integridade. Em mensagens de WhatsApp reproduzidas na inicial, o ex-funcionário teria relatado pagamentos recebidos, enviado listas de perguntas sobre os negócios do iFood e incentivado colegas a participarem das entrevistas.

Conforme a ação, o ex-colaborador confessou em depoimento prestado à polícia que participou das reuniões e respondeu questionamentos sobre dados sensíveis da empresa. Posteriormente, em ação de produção antecipada de provas ajuizada nos Estados Unidos contra a plataforma Zoom, o iFood afirma ter obtido registros técnicos das videoconferências.

Segundo os documentos juntados ao processo, ao menos cinco reuniões ocorreram entre abril e junho de 2025, todas com participação de representantes vinculados à Meituan. O iFood afirma que os participantes utilizavam endereços eletrônicos com domínio “@meituan.com”, identificados apenas por números, sem nomes ou cargos individualizados. Para o iFood, a utilização de e-mails numéricos e a intermediação por consultorias revelariam uma tentativa deliberada de ocultar a identidade dos reais interessados nas informações.

Questionários sobre operação e estratégia

A petição descreve diversas abordagens atribuídas às consultorias. Em uma delas, reproduzida na inicial, uma representante da CIC solicita informações sobre taxas cobradas de supermercados, estrutura logística e gestão de entregadores.

Outra consultoria, a SixDegrees, teria pedido detalhes sobre lucratividade, participação de mercado, crescimento de receita e políticas de retenção de usuários, oferecendo US$ 450 por hora de conversa.

Já uma empresa chinesa chamada BCC Global teria procurado funcionários do iFood para questionar planos de investimento do CEO Diego Barreto e mudanças na estrutura organizacional da empresa.

Há ainda referência a contatos feitos por representantes da empresa GSR, de Hong Kong, oferecendo entre R$ 4 mil e R$ 5,5 mil por hora para que profissionais ajudassem a Keeta na montagem de equipes de pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

Para o iFood, o conjunto de episódios demonstra um “padrão consistente de assédio” a funcionários, executado por uma rede de intermediários com o objetivo de coletar informações estratégicas sobre a companhia.

Concorrência desleal

A ação está fundamentada nos incisos IX e XII do art. 195 da lei de propriedade industrial, que tratam de concorrência desleal. O iFood sustenta que houve promessa de vantagem financeira a empregados de concorrente para obtenção de benefícios comerciais, além da exploração de informações confidenciais obtidas por meios ilícitos.

Segundo a empresa, a contratação de múltiplas consultorias estrangeiras e a ocultação da identidade dos interessados demonstrariam a consciência da ilicitude da prática.

O iFood também argumenta que sofreu danos morais e materiais em razão da exposição de informações estratégicas a um concorrente direto. A empresa pede indenização de R$ 1 milhão por danos morais, além de reparação por danos materiais, incluindo lucros cessantes, a serem calculados em fase posterior do processo.

Na ação, o iFood requer que a Justiça declare a prática de concorrência desleal pela Keeta e pela Meituan e determine que as empresas se abstenham de abordar funcionários e ex-funcionários do aplicativo para “conversas remuneradas” ou solicitações de informações estratégicas, seja diretamente ou por intermédio de consultorias.

A companhia também pede que as rés sejam proibidas de divulgar, utilizar ou explorar quaisquer informações já obtidas por meio dessas abordagens, sob pena de multa diária de R$ 100 mil. À causa foi atribuído o valor de R$ 1 milhão.

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