Advogado elenca pontos de atenção antes de expandir para os EUA
Planejamento migratório, dólar, estrutura societária e estratégia de crescimento passaram a caminhar juntos.
Da Redação
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Atualizado às 14:06
Durante muitos anos, a decisão de levar uma empresa para os Estados Unidos começava pela escolha do visto. Em 2026, essa lógica mudou. A internacionalização deixou de ser uma decisão exclusivamente comercial para se tornar um projeto estratégico que envolve planejamento financeiro, tributário, societário e migratório. Para empresários brasileiros, o visto passou a ser apenas uma das etapas de um processo muito mais amplo, que pode definir o sucesso, ou o fracasso, da expansão internacional.
O movimento acontece em um momento em que os Estados Unidos continuam atraindo investimentos globais. Dados do U.S. Bureau of Economic Analysis (BEA) mostram que os investimentos estrangeiros diretos destinados à aquisição, abertura e expansão de empresas no país alcançaram US$ 232,2 bilhões em 2025, alta de 49,5% em relação ao ano anterior, refletindo o interesse crescente de empresas internacionais pelo mercado americano.
No Brasil, a busca pela internacionalização também acelera. Segundo estudo da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o número de operações de franquias brasileiras no exterior cresceu 37%, ultrapassando 4,1 mil unidades distribuídas por 104 países, demonstrando que empresas nacionais estão cada vez mais estruturando projetos globais.
Esse movimento não está restrito ao franchising. Empresas de tecnologia, inteligência artificial, desenvolvimento de software, cibersegurança, saúde, engenharia, indústria, agronegócio e serviços especializados vêm ampliando o interesse pela abertura de operações internacionais, seja para atender clientes locais, captar investimentos, contratar talentos ou proteger patrimônio em moeda forte.
Segundo Daniel Toledo, advogado especialista em Direito Internacional do Toledo Advogados Associados, esse novo cenário mudou completamente o perfil dos empresários que procuram orientação. "Até poucos anos atrás, a maior parte das consultas era de profissionais que desejavam morar nos Estados Unidos. Hoje recebemos empresários que já chegam discutindo expansão internacional, abertura de empresas, estrutura societária, planejamento tributário, sucessão patrimonial e mobilidade de executivos. O visto continua importante, mas passou a ser apenas uma ferramenta dentro de uma estratégia muito maior", alerta.
Outro fator que ganhou relevância em 2026 é a necessidade de planejamento financeiro em dólar.
Com custos operacionais, investimentos, contratação de equipes e aquisição de ativos concentrados na moeda americana, muitas empresas passaram a estruturar caixa dolarizado antes mesmo da abertura da operação internacional. "O empresário que deixa para pensar em câmbio, tributação e estrutura societária apenas quando decide mudar perde eficiência financeira e assume riscos desnecessários. O planejamento internacional começa muito antes da mudança física para outro país", afirma Toledo.
As mudanças também impactam diretamente empresas que dependem da mobilidade de profissionais altamente qualificados.
Nos setores de tecnologia, inteligência artificial, engenharia, saúde e pesquisa, por exemplo, a contratação de especialistas estrangeiros ou a transferência de executivos tornou-se parte da estratégia de crescimento das empresas brasileiras que desejam competir globalmente.
Além disso, o segundo semestre costuma marcar o início do planejamento estratégico das empresas para o ano seguinte, tornando este um período decisivo para quem pretende iniciar operações internacionais em 2027.
Segundo o advogado, outro erro comum é imaginar que a preparação documental pode ser feita rapidamente. Dependendo da categoria migratória escolhida, a organização do histórico profissional, documentos societários, demonstrações financeiras, contratos, registros empresariais e comprovação técnica pode exigir meses de preparação.
"Os processos mais sólidos são aqueles que começam a ser estruturados com antecedência. Quem inicia o planejamento agora ganha tempo para organizar documentação, corrigir fragilidades e construir uma estratégia consistente de expansão internacional."
Para o especialista, a internacionalização deixou definitivamente de ser uma decisão tomada apenas pelo departamento jurídico. "Hoje ela envolve conselho administrativo, planejamento financeiro, estratégia comercial, governança e gestão de riscos. Empresas que enxergam esse movimento de forma integrada tendem a entrar no mercado americano com muito mais segurança e competitividade", destaca.
Daniel separou cinco pontos que empresários devem avaliar antes de iniciar um processo de internacionalização
1. Não trate o visto como o primeiro passo
Antes da imigração, é fundamental definir o modelo de negócio, a estrutura societária, o planejamento tributário e os objetivos da operação internacional.
2. Estruture a operação financeira em dólar
Criar caixa em moeda americana e planejar a exposição cambial reduz riscos e aumenta a previsibilidade dos investimentos necessários para a expansão.
3. Organize toda a documentação empresarial com antecedência
Contratos sociais, balanços financeiros, histórico profissional dos executivos e documentos corporativos podem levar meses para serem preparados corretamente.
4. Avalie qual categoria migratória faz sentido para o negócio
Cada visto possui requisitos específicos. Escolher a categoria apenas pelo tempo de processamento ou pelo menor custo pode comprometer toda a estratégia da empresa.
5. Faça da imigração parte do planejamento estratégico
A expansão internacional deve envolver as áreas jurídica, financeira, tributária, operacional e comercial. Quanto mais integrado for o planejamento, maiores são as chances de sucesso da operação.
A volta de Trump à Casa Branca consolidou uma das agendas migratórias mais rigorosas da história recente do país. Desde janeiro, o governo ampliou operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE), acelerou deportações, endureceu critérios para pedidos de asilo e passou a pressionar estados considerados mais permissivos em relação à imigração irregular. Paralelamente, diversas medidas enfrentam contestações judiciais em cortes federais e na Suprema Corte, reacendendo o debate sobre os limites constitucionais do Poder Executivo.
Segundo Toledo, é importante separar o direito soberano de um país controlar suas fronteiras da obrigação internacional de respeitar a dignidade humana.
"Todo Estado possui legitimidade para definir sua política migratória. O problema surge quando a execução dessas políticas passa a colocar em risco princípios consolidados pelo Direito Internacional Humanitário, como proporcionalidade, não discriminação e respeito à dignidade da pessoa humana. Segurança pública e direitos fundamentais não são conceitos incompatíveis; precisam caminhar juntos."
Guerra, segurança nacional e imigração passaram a fazer parte do mesmo debate
Os conflitos internacionais também ampliaram o peso da imigração na política americana. As guerras envolvendo Ucrânia, Rússia e Oriente Médio fizeram crescer preocupações relacionadas à segurança nacional, espionagem, terrorismo e controle de fronteiras.
Para especialistas, esse contexto fortaleceu o discurso político favorável ao endurecimento migratório, especialmente entre o eleitorado republicano.
Na avaliação de Daniel Toledo, embora guerras e imigração sejam frequentemente associadas no debate político, o tratamento jurídico dessas questões exige cautela. "Existe uma tendência natural de governos ampliarem mecanismos de controle em períodos de maior instabilidade internacional. No entanto, isso não elimina obrigações assumidas pelos Estados Unidos em tratados internacionais relacionados aos refugiados, ao devido processo legal e à proteção de pessoas vulneráveis. O desafio está justamente em encontrar esse equilíbrio."
Grande parte das medidas implementadas pelo governo Trump passou a ser discutida no Judiciário. Decisões recentes da Suprema Corte envolvendo cidadania por nascimento, limites das ordens executivas e atuação de juízes federais demonstram que o tribunal voltou ao centro das disputas institucionais envolvendo imigração.
Para Daniel Toledo, esse protagonismo reforça a importância do sistema de freios e contrapesos previsto na Constituição americana. "A independência do Judiciário funciona como um mecanismo de proteção institucional. Mesmo quando existe forte apoio político para determinadas medidas, cabe às cortes verificar se elas respeitam a Constituição e os compromissos internacionais assumidos pelo país. Esse controle é essencial para qualquer democracia consolidada."
O que muda para brasileiros
Apesar do endurecimento das políticas migratórias, Toledo ressalta que brasileiros interessados em viver legalmente nos Estados Unidos não devem interpretar o cenário como fechamento absoluto das portas.
Segundo ele, vistos destinados a profissionais qualificados, investidores, pesquisadores, empresários e trabalhadores continuam sendo instrumentos importantes para atender às necessidades econômicas americanas.
"O governo pode endurecer o combate à imigração irregular sem necessariamente restringir a imigração legal. Os Estados Unidos continuam precisando de mão de obra especializada, investimentos estrangeiros e profissionais altamente qualificados. O maior erro é acreditar que todos os caminhos migratórios foram interrompidos."
Para o advogado, o principal aprendizado neste novo momento é que o planejamento jurídico passou a ser ainda mais relevante. "Hoje, improvisar uma estratégia migratória tornou-se muito mais arriscado. Quanto maior a fiscalização, maior também a necessidade de processos bem estruturados, documentação consistente e absoluto respeito às regras da imigração."
