Mulheres à margem ganham voz na Literatura: Conheça Bethania Pires Amaro
Advogada leva à ficção personagens femininas que vivem à margem e enfrentam diferentes formas de violência.
Da Redação
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Atualizado em 3 de setembro de 2026 13:37
Antes do Direito, veio a literatura. Advogada pública e escritora, Bethania Pires Amaro conta que começou a escrever ainda criança, assim que foi alfabetizada.
A leitura, por sua vez, tornou-se presença constante:
"Eu acho que não lembro de ter passado um dia sem ler. Ler, para mim, é uma completa obsessão e um amor imenso."
Nascida em Recife e criada em Ilhéus e Salvador, Bethania é graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Direito do Estado pela USP.
Atualmente, trabalha na procuradoria do município de São Paulo, lotada na secretaria municipal de Educação, onde atua com políticas públicas de educação, licitações e contratos administrativos relacionados às escolas da capital.
Na literatura, estreou com o livro de contos O Ninho, publicado pela Record em 2023 e vencedor dos prêmios Sesc, APCA e Jabuti. Em 2026, lançou seu primeiro romance, Ressalga.
Em conversa com o Migalhas para o Instância Literária, Bethania falou sobre os caminhos que aproximam - e também distinguem - sua atuação no Direito e sua produção literária.
Entre o Direito e a literatura
Embora a literatura tenha chegado primeiro, Bethania conta que o interesse pelo Direito surgiu ainda no fim da vida escolar e se consolidou durante a universidade, especialmente no campo do Direito Público.
"Eu gosto muito de trabalhar com políticas públicas e, especialmente, com políticas públicas de educação, porque é algo que realmente reflete diretamente na vida do cidadão."
Questionada sobre a possibilidade de fazer, por meio da literatura, uma espécie de justiça a experiências que dificilmente chegariam aos autos ou seriam tuteladas pelo Direito, a escritora faz uma ressalva. Para ela, promover justiça não é propriamente o que move sua produção literária.
"Eu trabalho mais no sentido de trazer para o centro vozes de mulheres, em especial, que passaram, historicamente, à margem dos registros oficiais ou das grandes discussões."
São mulheres observadas em diferentes espaços e relações: dentro de casa, na família, na convivência com outras mulheres e nos papéis que ocupam como esposas, mães e profissionais.
A intenção, explica, não é afirmar que a literatura possa reparar as injustiças vividas pelas mulheres representadas em suas histórias, mas convidar o leitor a se aproximar de experiências que muitas vezes permanecem à margem.
"A ideia é justamente colocar o holofote em algumas questões que, por vezes, ficam ali às sombras, ficam ali nas margens de outros temas, e convidar o leitor a se comover com essas histórias e, eventualmente, refletir sobre elas e sobre o que está acontecendo ali."
Exercício de empatia
É nessa capacidade de aproximação que Bethania identifica uma das forças da literatura. Para a escritora, o contato com histórias e experiências diferentes das próprias pode contribuir para o desenvolvimento da empatia.
"Eu acho que é assim que a gente vai desenvolvendo e amadurecendo a nossa humanidade, nesse exercício de empatia e nesse contato realmente com algo que a arte permite."
A literatura ocupa, para ela, um espaço de conexão com aquilo que é compartilhado pela experiência humana - inclusive o "estranhamento de estar vivo".
Bethania também reconhece os limites tanto da literatura quanto do Direito. Segundo ela, a maneira como trabalhos jurídicos ou literários repercutem na vida de cada pessoa depende das experiências particulares de quem entra em contato com eles.
Mulheres que escrevem mulheres
Entre as principais referências literárias de Bethania estão, sobretudo nos últimos anos, escritoras brasileiras e latino-americanas.
Giovana Madalosso, Ana Maria Gonçalves, Pilar Quintana, María Fernanda Ampuero e Ariana Harwicz estão entre os nomes citados pela autora como leituras recorrentes e próximas de sua própria produção.
Para Bethania, essas escritoras integram um movimento da literatura produzida por mulheres que tem revisitado conflitos antigos a partir de novas perspectivas.
"É uma literatura que conversa de muito perto aqui com a minha literatura."
OFF: Advogada pública e escritora, Bethania Pires Amaro venceu os prêmios Sesc, APCA e Jabuti com o livro de contos O Ninho. Em 2026, lançou o primeiro romance, Ressalga, obra que acompanha três gerações de mulheres na Bahia e aborda experiências femininas muitas vezes deixadas à margem dos registros oficiais. Confira a conversa no novo episódio de Instância Literária.
Raio-x das obras
O ninho

Livro de estreia de Bethania Pires Amaro, reúne 15 contos centrados nas relações familiares e, sobretudo, nas experiências de personagens femininas dentro de casa. As narrativas questionam a ideia do lar como espaço necessariamente seguro e afetivo e atravessam temas como maternidade, abuso, violência, suicídio, vícios e desigualdade social.
Publicado pela Record em 2023, o livro venceu o Prêmio Sesc de Literatura, o APCA e o Jabuti na categoria Contos.
Ressalga

Primeiro romance da autora, acompanha três gerações de mulheres na Bahia e percorre diferentes regiões do Estado, do sertão a Salvador, em uma narrativa marcada por memória, ancestralidade e relações familiares. Janaína, Graça e Flora têm suas trajetórias ligadas por deslocamentos, rupturas e pela tentativa de reconstruir uma história familiar atravessada por realidade e mito.
Publicado pela Record em 2026, o romance aborda as heranças transmitidas entre gerações de mulheres e as formas encontradas por elas para enfrentar limites impostos pelo tempo e pelo contexto social em que vivem.