Mendonça reage a post de Gilmar e fala em "truculência" e "verborragia"
Em nota, gabinete de André acusa tentativa de constranger julgador e defende código de ética no Supremo após ataques do decano.
Da Redação
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Atualizado às 10:31
O gabinete do ministro André Mendonça, do STF, divulgou nesta quinta-feira, 17, dura nota após publicação do ministro Gilmar Mendes nas redes sociais. Mendonça não assina a nota, e também não cita o nome de Gilmar Mendes.
O texto afirma que Mendonça jamais transformou o plenário em "palanque ou picadeiro", nem ficou "vociferando aos berros", e acusa o interlocutor de recorrer à "truculência" para sustentar "ilações vazias".
Ao final, o gabinete de Mendonça fala em "verborragia", defende a criação de um código de ética para o Supremo e cobra "serenidade", "liturgia" e "decoro".
- Veja a íntegra do texto.
A manifestação veio após Gilmar Mendes publicar no X críticas contundentes à atuação de Mendonça no caso Master. O decano acusou o relator de expor injustamente o procurador-Geral da República, Paulo Gonet, de buscar dividendos políticos com a divulgação de informações do processo e chegou a chamar Mendonça de "boneco de campanha" e "pixuleco eleitoral".
É justamente a essa manifestação que o gabinete de Mendonça reage ao abrir a nota com uma referência à Loman - Lei Orgânica da Magistratura Nacional. O texto recorda que o art. 36, III, da norma veda a magistrados manifestarem publicamente opinião sobre processo pendente de julgamento, próprio ou de outro juiz, assim como fazerem juízo depreciativo sobre decisões judiciais, ressalvadas as críticas feitas nos autos ou em obras técnicas.
Na sequência, passa diretamente à controvérsia envolvendo o levantamento de sigilo de procedimentos relacionados ao caso Master.
Segundo o gabinete, a pretensão de tornar públicos todos os procedimentos "não partiu do relator", mas de quem agora se declara indignado com a divulgação dos autos.
"A pretensão de levantamento do sigilo de todo e qualquer procedimento, sem exceção, não partiu do relator. Veio de quem hoje se diz indignado com a publicidade dos autos."
A nota sustenta que Mendonça retirou o sigilo apenas de procedimento específico, em decisão fundamentada e dentro dos limites de sua competência, e acrescenta:
"É no mínimo curioso que a crítica venha de quem sempre pleiteou publicidade irrestrita, da integralidade de toda a investigação."
O gabinete também rejeita a acusação de complacência com vazamentos. Afirma que Mendonça determinou a apuração de divulgações indevidas ocorridas durante a investigação e que houve até a deflagração de fase específica diante da suspeita de participação de servidor da Polícia Federal.
Em seguida, o tom sobe.
A nota afirma ser "seletiva" a preocupação com a exposição de pessoas e relaciona essa crítica à requisição de acesso ao celular de investigado e à posterior divulgação, pela imprensa, de conversas que, segundo o gabinete, teriam constrangido "apenas ministros de entendimento diverso".
Para Mendonça, eventual uso indevido da publicidade não estaria em decisões fundamentadas e publicadas nos autos, mas na "tentativa de constrangimento dirigido a pares".
O gabinete menciona ainda "insinuações de que determinados conteúdos poderão ou não vir a público conforme o rumo de certos julgamentos".
Na sequência, a nota diz o seguinte:
"O relator jamais ameaçou quem quer que seja de execração pública, nem se valeu de linguajar impróprio para que alguém se retirasse de julgamento."
E prossegue:
"Tampouco transformou o plenário num palanque ou picadeiro, vociferando aos berros, para tentar mascarar com truculência ilações vazias e que carecem de qualquer fundamento jurídico minimamente aceitável."
Para o ministro André Mendonça, a divergência entre integrantes de um tribunal é legítima. "Ilegítima é a tentativa de constranger o julgador."
Código de ética no Supremo
A nota termina defendendo a aprovação de um código de ética específico para os ministros do STF, que discipline a postura esperada dos magistrados "dentro e fora da Corte", inclusive na relação entre os próprios integrantes do Tribunal.
"Quando se invoca a necessidade de um Judiciário que transmita segurança à população, convém lembrar que a verborragia produz efeito exatamente oposto."
Segundo o gabinete, o momento exige "serenidade, respeito às instituições e apego às normas da República, à liturgia e ao decoro".
Críticas de Gilmar
Na publicação, Gilmar concentrou as críticas no levantamento do sigilo de conversas envolvendo o procurador-Geral da República, Paulo Gonet.
Segundo o decano, nada de ilícito havia nas mensagens divulgadas e, ainda assim, a exposição teria produzido dano imediato à reputação do chefe do Ministério Público. Para Gilmar, o reconhecimento posterior, em plenário, de que não havia irregularidade na conduta de Gonet não seria suficiente para reparar os efeitos da divulgação.
O ministro também atribuiu motivação política à condução do episódio e criticou a publicação de vídeo de agradecimento por apoio popular após a divulgação do caso.
"Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral."
O ministro comparou o episódio à Operação Lava Jato e afirmou que Deltan Dallagnol e Sergio Moro teriam transformado "vazamento seletivo em método", criando fatos consumados antes do julgamento.
Gilmar também relacionou o levantamento do sigilo ao calendário eleitoral. Segundo ele, a divulgação às vésperas do 7 de setembro teria servido para "inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe a esse método".
Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, tem reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita. Isso nunca foi objeto de disputa: é reconhecido em todos os espectros, por quem concorda e por quem discorda dele. Mesmo assim, teve a honra injustamente manchada pelo…
— Gilmar Mendes (@gilmarmendes) September 17, 2026
Embate no plenário
As manifestações desta quinta-feira são mais um capítulo do confronto público entre Gilmar e Mendonça.
Na sessão extraordinária do STF de terça-feira, 15, os dois ministros já haviam protagonizado duros embates durante a discussão envolvendo as Petições 16.662 e 16.704, relacionadas ao caso Master. O mérito da Pet 16.662 não chegou a ser analisado, e a discussão sobre o julgamento conjunto dos procedimentos foi suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Naquela sessão, Gilmar acusou Mendonça de dar viés político-eleitoral à condução dos procedimentos e usou expressões como "pixuleco" e "boneco eleitoral". Mendonça reagiu, chamou a acusação de "leviana" e pediu ao decano que não apontasse o dedo para ele.
Outro foco do embate foi a decisão de Mendonça que havia determinado, dias antes, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.
Gilmar classificou o afastamento de Andrei como um "vexame".
"Qualquer cidadão que tem o mínimo de noção do que significa a PF [...] não faria o afastamento do diretor-geral."
Relembre:
Fux, que preside a 2ª turma e havia votado para referendar a decisão de Mendonça, defendeu a atuação do colegiado e afirmou que a Turma identificou desvios de finalidade na atuação do diretor-geral da PF.
Sessão em minutos e crítica a Fux
A forma como o afastamento da cúpula da PF foi levado à 2ª turma também entrou no centro do conflito.
Em ofício enviado a Fux em 11 de setembro, Gilmar afirmou que a decisão de Mendonça foi lançada no sistema às 8h43, incluída em pauta às 9h29 e comunicada oficialmente ao seu gabinete apenas às 9h38, para uma sessão marcada para as 10h.
"A comunicação oficial da convocação chegou ao meu gabinete vinte e dois minutos antes do início da sessão."
Para o decano, a sequência indicaria um "entendimento direto" entre Fux e Mendonça, sem comunicação prévia aos demais integrantes do colegiado.
Gilmar também afirma que pediu vista às 10h01 e que, mesmo depois disso, Fux e Nunes Marques registraram votos acompanhando o relator.
No documento, Gilmar critica a condução de Fux e afirma que o episódio contrariou a colegialidade, a equidistância esperada da presidência da Turma e a "lealdade institucional" entre ministros.