Em Milão, Migalhas revisita crime que marcou a história da família Gucci
Herdeiro da grife foi morto a tiros em 1995; disputa patrimonial entre mãe e filhas só foi encerrada em 2026.
Da Redação
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Atualizado em 20 de setembro de 2026 14:00
Por trás de um dos sobrenomes mais famosos da moda existe uma história de luxo, disputas familiares, assassinato e uma sequência de processos judiciais que atravessou décadas.
No número 20 da Via Palestro, no centro de Milão, Maurizio Gucci foi morto a tiros na manhã de 27 de março de 1995, quando chegava ao escritório. Neto de Guccio Gucci, fundador da grife em Florença, Maurizio tinha 46 anos.
Criada em 1921, a Gucci se tornaria uma das principais marcas italianas de luxo.
Migalhas esteve em Milão e revisita um dos crimes mais conhecidos ligados ao mundo da moda.
Veja:
O assassinato só seria esclarecido quase dois anos depois. E os desdobramentos jurídicos atravessariam décadas: uma disputa patrimonial envolvendo Patrizia Reggiani e as duas filhas do casal chegou à Corte Europeia de Direitos Humanos e só foi encerrada em 2026.
À época do crime, Maurizio já não tinha participação na empresa que carregava seu sobrenome. Em 1993, ele vendeu os 50% que ainda detinha da Gucci à Investcorp, encerrando a presença da família no controle da companhia.
As investigações inicialmente seguiram diferentes hipóteses, inclusive possíveis relações do crime com os negócios de Maurizio. A virada ocorreu após uma informação chegar aos investigadores e conduzi-los ao grupo envolvido na execução. Interceptações telefônicas ajudaram a revelar a trama.
No centro do caso estava Patrizia Reggiani, ex-mulher de Maurizio.
Mandante, intermediários e executor
Segundo a acusação acolhida pela Justiça italiana, Reggiani encomendou a morte do ex-marido e contou com a intermediação de Giuseppina "Pina" Auriemma, sua amiga e confidente.
Auriemma recorreu a Ivano Savioni, porteiro noturno de hotel, na busca por quem executaria o plano. Benedetto Ceraulo foi apontado como o autor dos disparos, enquanto Orazio Cicala conduziu o veículo utilizado na fuga.
Durante o ataque, Giuseppe Onorato, porteiro do edifício, também foi baleado e sobreviveu.
No processo, a acusação relacionou a decisão de Reggiani ao ressentimento após a separação e às preocupações patrimoniais em torno de uma eventual nova união de Maurizio. A defesa negava que ela tivesse encomendado o assassinato. Reggiani sustentou que havia sido envolvida na trama e chantageada por Auriemma.
O julgamento
Após meses de julgamento, em 3 de novembro de 1998, a Corte de Assise de Milão considerou culpados os cinco acusados.
Patrizia Reggiani foi condenada a 29 anos de prisão como mandante do assassinato. Benedetto Ceraulo, considerado autor dos disparos, recebeu prisão perpétua. Orazio Cicala foi condenado a 29 anos; Ivano Savioni, a 26; e Pina Auriemma, a 25 anos. A acusação havia pedido prisão perpétua para os cinco.
Capacidade mental em discussão
Uma das teses apresentadas pela defesa dizia respeito às condições mentais de Reggiani.
Anos antes do crime, ela havia passado por uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral. A defesa buscou demonstrar comprometimento de sua capacidade de compreender e determinar os próprios atos, mas a tese não prevaleceu.
Em março de 2000, a Corte de Apelação de Milão reduziu a pena de Reggiani de 29 para 26 anos. As penas dos demais condenados também foram revistas.
Em 2001, a Corte de Cassação tornou definitiva a condenação de Patrizia a 26 anos e afastou a tese de enfermidade mental.
Da prisão à liberdade
Depois de 16 anos no cárcere, Reggiani passou a trabalhar fora da prisão em 2013. No ano seguinte, foi admitida ao cumprimento do restante da pena por meio de serviços sociais.
Em outubro de 2016, terminou de cumprir a pena, considerados os benefícios previstos pela legislação italiana. Em fevereiro de 2017, a Justiça decidiu não submetê-la aos três anos de liberdade vigiada ainda previstos. A Promotoria também havia se manifestado favoravelmente à medida.
Do assassinato à disputa patrimonial
O processo criminal havia terminado, mas os efeitos jurídicos da relação entre Maurizio e Patrizia ainda renderiam uma controvérsia de longa duração.
Em 1993, no contexto da separação, os dois celebraram um acordo patrimonial que previa o pagamento a Patrizia de uma renda vitalícia de 1,1 milhão de francos suíços por ano. A documentação examinada posteriormente pela Justiça italiana também registra um protocolo firmado em Lugano, em 1994.
Depois da morte de Maurizio, surgiu uma questão peculiar: a obrigação havia sido extinta com a morte do devedor ou poderia ser transmitida às filhas Alessandra e Allegra Gucci, herdeiras do pai?
A discussão ganhou contornos ainda mais incomuns por causa de outra ação judicial.
Em 2004, Patrizia e os demais responsáveis pelo assassinato foram condenados solidariamente a pagar € 692.758,30 a Paola Franchi, companheira de Maurizio à época da morte, a título de indenização pelos danos sofridos.
Diante da insolvência de Reggiani, Franchi buscou receber a indenização alcançando justamente o crédito que Patrizia afirmava possuir contra as filhas em razão do acordo firmado com Maurizio. Reggiani aderiu à ação.
Começava, assim, uma longa discussão sobre a existência e a transmissibilidade dessa obrigação.
Em 2009, o Tribunal de Milão decidiu que a obrigação era de natureza pessoal e havia se extinguido com a morte de Maurizio. A Corte de Apelação confirmou o entendimento.
Em 2015, contudo, a Corte de Cassação anulou a decisão. Segundo a Corte, era necessário interpretar o acordo em seu conjunto, considerando não apenas a expressão "vitalício", mas também as demais cláusulas e a finalidade do ajuste celebrado entre os ex-cônjuges.
No novo julgamento, a Corte de Apelação de Milão concluiu que o acordo tinha caráter compositivo, destinado a encerrar as controvérsias patrimoniais decorrentes do divórcio, e não simplesmente natureza alimentar. Por essa interpretação, o compromisso poderia continuar produzindo efeitos após a morte de Maurizio e havia sido transmitido às filhas.
Em decisão de janeiro de 2017, a Corte de Apelação reconheceu, portanto, a continuidade da obrigação apesar da condenação de Patrizia pelo assassinato do ex-marido.
Quem manda matar o devedor pode continuar sendo credor?
Alessandra e Allegra recorreram à Corte de Cassação.
Entre os argumentos apresentados estava justamente o ponto mais peculiar da controvérsia: poderia alguém provocar deliberadamente a morte do devedor e, ainda assim, exigir dos herdeiros o cumprimento da obrigação?
As filhas invocaram princípios de boa-fé contratual e sustentaram que o assassinato teria tornado impossível o cumprimento por fato imputável à própria credora. Também defenderam a aplicação analógica das regras italianas sobre indignidade sucessória, previstas no art. 463 do Código Civil.
Em 2020, a Corte de Cassação declarou o recurso inadmissível. Parte dessas teses, porém, não chegou a ser examinada no mérito: a Corte entendeu que as recorrentes não haviam demonstrado que as questões tinham sido oportunamente levantadas e mantidas nas instâncias anteriores.
O resultado manteve a decisão que reconhecia a transmissibilidade da obrigação.
Caso chegou à Corte Europeia
A controvérsia foi então levada à Corte Europeia de Direitos Humanos.
Em maio de 2021, Alessandra e Allegra ajuizaram a demanda Gucci Barbieri e Gucci contra Itália.
As filhas alegaram violação ao art. 8º da Convenção Europeia, que protege a vida privada e familiar, e ao art. 1º do Protocolo nº 1, relativo à proteção da propriedade. Também invocaram o art. 6º, § 1º, sustentando que a Cassação italiana havia incorrido em formalismo excessivo ao não apreciar parte de seus argumentos.
A Corte Europeia, entretanto, nunca respondeu ao mérito da questão.
Em fevereiro de 2023, as filhas celebraram acordo com Patrizia. Pelo ajuste, comprometeram-se a pagar € 3,9 milhões à mãe e as partes renunciaram às demais pretensões relacionadas à disputa, ressalvada uma controvérsia tributária específica.
Diante do acordo, a Corte Europeia considerou que as reclamações haviam perdido atualidade e que não se justificava prosseguir com a análise do caso. Em 30 de abril de 2026, decidiu, por unanimidade, retirar a demanda de sua lista, sem examinar o mérito.
Casa Gucci
O assassinato de Gucci ganhou projeção para uma nova geração em 2021, com o lançamento de Casa Gucci, dirigido por Ridley Scott.
Lady Gaga interpretou Patrizia Reggiani, enquanto Adam Driver viveu Maurizio Gucci.