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100 anos

Centenário de Paulo Bomfim: o poeta que fez história no Judiciário

Autor manteve relação de décadas com o TJ/SP, onde atuou, escreveu hinos e preservou memórias.

Da Redação

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Atualizado às 07:11

"A literatura é o universo paralelo da vida" - Paulo Bomfim

Nesta quarta-feira, 30 de setembro, Paulo Bomfim completaria 100 anos. Conhecido como o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", o paulistano deixou uma obra marcada pela memória, pela história e pelo amor a São Paulo. Sua trajetória, porém, também se ligou de maneira profunda ao universo jurídico, relação que ajuda a explicar por que seu nome permanece tão presente em instituições do Direito.

Paulo Bomfim ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas não concluiu o curso. A escolha por outro caminho profissional não significou, contudo, um afastamento daquele ambiente.

Ao longo da vida, manteve a proximidade com as Arcadas, dedicou mais de meio século ao Judiciário paulista e chegou a definir o TJ/SP como sua "família espiritual".

 (Imagem: Arte Migalhas)

Paulo Bomfim, o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", completaria 100 anos em 30 de setembro de 2026.(Imagem: Arte Migalhas)

Quem foi Paulo Bomfim?

Paulo Lébeis Bomfim nasceu em São Paulo em 30 de setembro de 1926.

Filho do médico Simeão dos Santos Bomfim e de Maria de Lourdes Lébeis Bomfim, cresceu em um ambiente de intensa convivência com as artes. Ainda menino, viu passar por sua casa escritores, músicos e artistas como Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Heitor Villa-Lobos.

Anos depois, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Não chegou, porém, a concluir o curso jurídico. Optou pelo jornalismo e, em 1945, iniciou a carreira no Correio Paulistano.

Na sequência, a convite de Assis Chateaubriand, foi para o Diário de São Paulo, onde assinou por uma década a coluna "Luz e Sombra". Também escreveu "Notas Paulistas" para o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro.

Paulo Bomfim também foi diretor de Relações Públicas da Fundação Cásper Líbero, fundou com Clóvis Graciano a Galeria Atrium e trabalhou na televisão, com programas como "Universidade na TV", "Crônica da Cidade" e "Mappin Movietone". Na Rádio Gazeta, apresentou "Hora do Livro" e "Gazeta é Notícia".

A escolha pelo jornalismo havia mudado o rumo profissional iniciado nas Arcadas, mas o Direito reapareceria pouco depois em sua vida e acabaria ocupando um espaço permanente.

Uma vida no Tribunal

A relação de Paulo Bomfim com o Judiciário paulista começou ao lado do então juiz de menores Aldo de Assis Dias, com quem trabalhou na organização de técnicas do Juizado.

Foi o início de uma ligação que se prolongaria por décadas. No TJ/SP, exerceu diferentes funções, entre elas as de assessor especial da Presidência, secretário de cerimonial, relações públicas e chefe de gabinete.

Com o passar dos anos, o Tribunal deixou de ser apenas seu local de trabalho. Tornou-se também espaço de convivência, memória e pertencimento.

"Ir ao tribunal é ver minha gente", dizia Paulo Bomfim, que se referia ao Judiciário paulista como sua "família espiritual".

Essa proximidade também ficou registrada em símbolos das instituições às quais esteve ligado. Paulo Bomfim escreveu a letra do hino do TJ/SP e também é autor dos hinos da EPM - Escola Paulista da Magistratura e da Apamagis - Associação Paulista de Magistrados.

Sua atuação alcançou ainda a memória da Justiça Eleitoral paulista. Em 2010, recebeu do TRE/SP o Colar do Mérito Eleitoral Paulista.

O poeta no Palácio da Justiça

O reconhecimento dessa longa relação ganhou forma também dentro do próprio Palácio da Justiça.

Em 2009, o TJ/SP inaugurou o Espaço Cultural Poeta Paulo Bomfim. Com isso, ele se tornou o único homenageado pelo Tribunal, ainda em vida, com uma sala que levava seu nome.

O espaço passou a abrigar parte de seu acervo pessoal, composto por livros, medalhas e honrarias, além de uma cópia do retrato feito por Anita Malfatti e de objetos relacionados à Revolução Constitucionalista de 1932, tema particularmente presente em sua visão da história paulista.

 (Imagem: Reprodução/Internet)

Retrato de Paulo Bomfim assinado por Anita Malfatti integra a memória preservada pelo TJ/SP.(Imagem: Reprodução/Internet)

Em 2012, veio outra homenagem. Paulo Bomfim recebeu o Colar do Mérito Judiciário, condecoração criada pelo TJ/SP para reconhecer personalidades por méritos e serviços relevantes prestados à cultura jurídica.

A antiga ligação com o Largo de São Francisco também receberia, alguns anos depois, um reconhecimento definitivo.

Em 2017, seu nome foi gravado em uma placa instalada em uma das colunas do pátio da Faculdade de Direito da USP. A homenagem, promovida pela própria Faculdade e pela Associação dos Antigos Alunos, reuniu colegas de turma, desembargadores, integrantes da Academia Paulista de Letras e personalidades do meio jurídico.

Vida dedicada ao Judiciário

A dimensão que o Judiciário adquiriu em sua trajetória aparece com especial clareza em uma entrevista concedida à TV Migalhas.

"A minha vida pertence ao Judiciário", afirmou Paulo Bomfim.

Na ocasião, contou que somava 40 anos de Tribunal de Justiça e outros dez de trabalho ao lado de grandes juízes, entre eles Aldo de Assis Dias. Para ele, eram 50 anos de uma vida associada à Justiça.

Paulo Bomfim também falou sobre o papel que atribuía ao TJ/SP na história paulista. Definiu a Corte como uma "trincheira" de defesa dos direitos dos paulistanos e paulistas e como um "baluarte das grandes causas", especialmente na defesa da democracia.

Ao recordar a presença de nomes como Vicente de Carvalho, Manuel Carlos e Figueiredo Ferraz, chamou atenção ainda para uma relação que conhecia bem. Desde o Largo de São Francisco, observava ele, poesia e Direito sempre estiveram próximos.

Essa aproximação não se resumia ao fato de haver poetas entre juristas ou à própria história profissional de Paulo Bomfim. Ela também podia ser percebida na maneira como ele compreendia a literatura.

Poesia e Direito

Em 2014, ao publicar uma homenagem a Paulo Bomfim, Migalhas procurou justamente entender o que sua obra poderia dizer ao homem do Direito.

A aproximação está na maneira como o poeta olhava para aquilo que existe sem perder de vista aquilo que ainda poderia existir. O Direito também parte da realidade concreta, mas estabelece normas, valores e comportamentos que projetam um modelo de convivência a ser buscado.

É nesse sentido que poesia e Direito se encontram na ideia do "dever ser".

Na obra de Paulo Bomfim, escrever também significava imaginar, transformar e perseguir possibilidades. Para ele, a criação não estava separada daquilo que o próprio indivíduo poderia se tornar.

"Lentamente vamos nos transformando naquilo que escrevemos", dizia.

Em outra reflexão, resumiu de maneira ainda mais direta a confiança que depositava na linguagem poética.

"Só poeticamente conseguiremos explicar o mundo."

Sua proximidade com o Direito, portanto, não se explicava apenas pelos cargos que exerceu ou pelos muitos anos passados no Palácio da Justiça. Havia também uma afinidade entre dois modos de olhar para a sociedade, ambos atentos à realidade, mas igualmente interessados no que ela ainda pode vir a ser.

Príncipe dos Poetas

Enquanto construía essa longa história no Judiciário, Paulo Bomfim manteve a literatura como uma presença constante.

Sua estreia ocorreu em 1947, com "Antônio Triste", publicado com prefácio de Guilherme de Almeida e ilustrações de Tarsila do Amaral. A obra recebeu o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

Nas décadas seguintes, publicou dezenas de livros, entre eles "Transfiguração", "Relógio de Sol", "Armorial", "Sonetos da Vida e da Morte", "Praia de Sonetos", "Súdito da Noite", "Tecido de Lembranças" e "Janeiros de Meu São Paulo".

Em 1963, ingressou na Academia Paulista de Letras, instituição da qual mais tarde se tornaria decano. Em 1981, foi eleito Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores e recebeu o Troféu Juca Pato.

Suas obras foram traduzidas para o alemão, francês, inglês, italiano e espanhol, e o conjunto de sua produção lhe rendeu o título pelo qual se tornaria conhecido, o de "Príncipe dos Poetas Brasileiros".

Em 2014, Migalhas também reuniu centenas de aforismos, pensamentos e reflexões extraídos de suas principais obras no livro "Migalhas de Paulo Bomfim". A coletânea permite encontrar, em pequenas frases, alguns dos temas aos quais ele retornou durante toda a vida, como memória, tempo, destino, afeto e existência.

 (Imagem: Arte Migalhas)

Migalhas de Paulo Bomfim reúne aforismos, reflexões e pensamentos extraídos das principais obras do poeta.(Imagem: Arte Migalhas)

Um século depois

Paulo Bomfim morreu em 7 de julho de 2019, aos 92 anos.

Agora, quando se completam cem anos de seu nascimento, sua trajetória volta a ser lembrada não apenas pela extensão de sua produção literária, mas também pelos muitos vínculos que construiu com São Paulo e suas instituições.

Entre eles, o Judiciário ocupa um lugar singular.

O jovem que deixou o curso de Direito para seguir o jornalismo e a poesia nunca se afastou verdadeiramente das Arcadas. Trabalhou por décadas no Tribunal, escreveu seus hinos, preservou sua memória, conviveu com gerações de magistrados e servidores e viu seu próprio nome incorporado aos espaços que frequentou.

Por isso, talvez a relação de Paulo Bomfim com o Direito seja mais bem compreendida fora dos títulos e das funções que exerceu. Ela estava no sentimento de pertencimento que cultivou ao longo de mais de meio século e que ele mesmo soube resumir em poucas palavras.

"A minha vida pertence ao Judiciário."

No centenário de seu nascimento, essa talvez seja uma das mais singulares migalhas deixadas pelo poeta.

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