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Justiça e misericórdia

Entrevista onírica: O que Suassuna pensa da Compadecida nos tribunais?

Migalhas recorre a'O Auto da Compadecida para entender a disputa que levou Nossa Senhora aos tribunais. A vida e a arte nunca estiveram tão juntas.

Da Redação

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Atualizado às 17:41

Nossa Senhora Aparecida foi parar em uma disputa judicial que envolve TSE e STF. No percurso, atravessou dois terrenos dos mais mundanos: a internet e a política. Seu nome passou a figurar em pedidos, decisões e recursos submetidos aos tribunais dos homens.

Diante de uma história dessas, fomos procurar Ariano Suassuna. Não porque pudesse nos explicar o que acontece em 2026 - Ariano partiu em 2014 -, mas porque, quando o Brasil parece inventar uma situação difícil demais de compreender, vale conferir se alguém já não a havia imaginado antes.

Em O Auto da Compadecida, Ariano também colocou Nossa Senhora em um julgamento. O cômico João Grilo e seus companheiros estão diante de Manuel, Jesus Cristo e do Encourado, o Diabo. A condenação se aproxima. Sem encontrar outra saída, João recorre à mãe de Jesus.

Sete décadas depois, com Nossa Senhora envolvida nessas tramas do Brasil real, resolvemos pedir ajuda ao autor. Encontramos ele no Mercado da Madalena, no Recife, comendo uma buchada de bode. 

Confira o que ele nos disse.

 (Imagem: Arte Migalhas)

Se o Brasil levou Nossa Senhora aos tribunais, Migalhas foi buscar em Ariano Suassuna alguma explicação.(Imagem: Arte Migalhas)

Migalhas - Ariano, a história que se apresenta no Brasil de hoje é um tanto confusa. Nossa Senhora envolvida numa disputa política diante dos tribunais. O que pensa disso?

Ariano Suassuna - Faço minhas as palavras do Encourado: "A confusão já começa. Apelo para a justiça."

Migalhas - Então é mesmo à Justiça que se deve recorrer?

Ariano Suassuna - Talvez seja melhor fazer como João Grilo e apelar "para a misericórdia".

Migalhas - Mas justiça e misericórdia não entram em contradição?

Ariano Suassuna - Já deixei isso dito na minha farsa: "em Deus não existe contradição entre a justiça e a misericórdia".

Migalhas - No Brasil de hoje, temos acusações de desinformação, pedidos de remoção, discussões sobre liberdade de expressão e uma disputa política que acabou recorrendo à própria fé. O que uma história dessas diz sobre os homens?

Ariano Suassuna - "É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem."

Migalhas - Que condição é essa?

Ariano Suassuna - "Quase tudo o que eles faziam era com medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta". 

Migalhas - E diante das fraquezas humanas, o que resta pedir a quem julga, quando a disputa já foi longe o bastante para levar até Nossa Senhora aos tribunais?

Ariano Suassuna - "Seja então compassivo. Peço-lhe então, muito simplesmente, que não condene João."

Migalhas - Compassivo? Mas depois de transformar a fé em combustível de disputa política, o que mais se pode esperar?

Ariano Suassuna - "Dê-lhe então outra oportunidade. Deixe João voltar."

Migalhas - Mas João é um homem simples do sertão, pecador por sobrevivência e astúcia. Aqui, Nossa Senhora foi envolvida numa disputa de política, poder e interesses. Depois disso, a Compadecida ainda intercederá por nós?

Ariano Suassuna - [silêncio]

Obs. Todas as "respostas" atribuídas a Ariano Suassuna nesta entrevista foram retiradas, ipsis litteris, de "O Auto da Compadecida". As falas pertencem aos personagens da obra e foram aqui reorganizadas em diálogo com perguntas formuladas por Migalhas a partir dos acontecimentos de 2026. Não se trata, portanto, de declarações reais do escritor sobre os fatos atuais. Isso já era óbvio, mas não custa repetir. 

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